A Lenda de Soledade
Há muitos e muitos anos, um grupo de mineiros vagava numa caravana de carretas entre o Planalto e a Serra do Rio Grande do
Sul. Muitas famílias completas faziam parte do grupo e elas queriam fundar uma vila, uma cidade, mas o local de assentamento só poderia ser escolhido por Nossa Senhora, cuja imagem sagrada eles traziam numa carreta, com altar e tudo.
E assim vagavam de pago em pago, acampavam, armavam o altar, passavam aí alguns dias e, como não recebiam sinal de Nossa Senhora, recarregavam as carretas e iam embora.
Até que um dia pararam num campo lindo, banhado pela luz de Deus, com uma estranha beleza solitária. Ao descarregarem as carretas, alguém teria dito: "Que soledade!"
Bueno, acamparam e tal e depois de alguns dias, recarregaram tudo prontos para partir de novo. Quando chegou a hora da partida, quebrou-se o eixo da carreta que levava a imagem de Nossa Senhora. Descarregaram tudo, consertaram o eixo e quiseram partir, mais uma vez. Surpresa: quebrou-se o eixo, de novo. Outra vez descarregaram, consertaram o eixo e se dispuseram a partir.
Quando se quebrou o eixo pela terceira vez, eles compreenderam que era um aviso: Nossa Senhora tinha escolhido, afinal, a sua querência.
Então, ali, naquele chão sagrado, eles ergueram ranchos, galpões, estâncias. E Nossa Senhora abençoou o esforço, a fé e a dedicação
de todos, fazendo prosperar Soledade, a terra escolhida pela própria Mãe de Deus.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
A Lenda do Umbu do rs
A Lenda do Umbu
O Umbú é uma árvore grande e folhuda que cresce no pampa.
Muitas vezes é solitária, erguendo-se única no descampado e atrai os campeiros, os tropeiros, os carreteiros que fazem pouso sob sua proteção. O tronco do Umbu é muito grosso, as raízes fora da terra são grandes, mas ninguém usa a madeira da árvore - não serve para nada, mesmo. É farelenta, quebradiça, parece feita de uma casca em cima da outra.
Por quê?
Pois não vê que quando Deus Nosso Senhor criou o mundo, ao fazer as árvores perguntava a cada uma delas o que queria na terra.
A laranjeira, o pessegueiro, a macieira, a pereira e assim por diante, quiseram frutos deliciosos. O pau-ferro, o angico, o ipê, o açoita-
cavalo, a guajuvira, pediram madeira forte.
- E tu, Umbú, queres também frutos doces e madeira forte?
- Nada, Senhor. - respondeu o Umbú. - Eu quero apenas folhas largas para as sesteadas dos gaúchos e uma madeira tão fraca que se quebre ao menor esforço.
- A sombra, Eu compreendo - disse o Senhor. - Mas porque a madeira fraca?
- Porque eu não quero que algum dia façam dos meus braços a cruz para o martírio de um justo.
E Deus Nosso Senhor, que teve o filho crucificado, atendeu o pedido do Umbú.
O Umbú é uma árvore grande e folhuda que cresce no pampa.
Muitas vezes é solitária, erguendo-se única no descampado e atrai os campeiros, os tropeiros, os carreteiros que fazem pouso sob sua proteção. O tronco do Umbu é muito grosso, as raízes fora da terra são grandes, mas ninguém usa a madeira da árvore - não serve para nada, mesmo. É farelenta, quebradiça, parece feita de uma casca em cima da outra.
Por quê?
Pois não vê que quando Deus Nosso Senhor criou o mundo, ao fazer as árvores perguntava a cada uma delas o que queria na terra.
A laranjeira, o pessegueiro, a macieira, a pereira e assim por diante, quiseram frutos deliciosos. O pau-ferro, o angico, o ipê, o açoita-
cavalo, a guajuvira, pediram madeira forte.
- E tu, Umbú, queres também frutos doces e madeira forte?
- Nada, Senhor. - respondeu o Umbú. - Eu quero apenas folhas largas para as sesteadas dos gaúchos e uma madeira tão fraca que se quebre ao menor esforço.
- A sombra, Eu compreendo - disse o Senhor. - Mas porque a madeira fraca?
- Porque eu não quero que algum dia façam dos meus braços a cruz para o martírio de um justo.
E Deus Nosso Senhor, que teve o filho crucificado, atendeu o pedido do Umbú.
A Lenda do Quero quero
A Lenda do Quero
QueroQuando a Sagrada Família fugia para o Egito, com medo das espadas dos soldados do rei Herodes, muitas vezes precisou se
esconder no campo, quando os perseguidores chegavam perto.
Numa dessas vezes, Nossa Senhora, escondendo o Divino Piá, pediu a todos os bichos que fizessem silêncio, que não cantassem,
porque os soldados do rei podiam ouvir e dar fé.
Todos obedeceram prontamente, mas o Quero-quero, não: queria porque queria cantar. E dizia: Quero! Quero! Quero!
E tanto disse que foi amaldiçoado por Nossa Senhora: ficou querendo até hoje.
QueroQuando a Sagrada Família fugia para o Egito, com medo das espadas dos soldados do rei Herodes, muitas vezes precisou se
esconder no campo, quando os perseguidores chegavam perto.
Numa dessas vezes, Nossa Senhora, escondendo o Divino Piá, pediu a todos os bichos que fizessem silêncio, que não cantassem,
porque os soldados do rei podiam ouvir e dar fé.
Todos obedeceram prontamente, mas o Quero-quero, não: queria porque queria cantar. E dizia: Quero! Quero! Quero!
E tanto disse que foi amaldiçoado por Nossa Senhora: ficou querendo até hoje.
A Lenda da Lagoa Vermelha do rs
A Lenda da Lagoa Vermelha
A primeira tentativa dos padres jesuítas, que resultou na fundação de 18 Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul, deu em nada. Os bandeirantes de Piratininga, que haviam arrasado as reduções do Guairá caçando e escravizando índios para a escravidão das lavouras de cana-de-açúcar de São Paulo e Rio de Janeiro, quando souberam que os padres tinham vindo mais para o sul e erguido suas aldeias no Tape, vieram aqui fazer o que sabiam fazer. Assim e aos poucos, os padres tiveram que refluir para o oeste, fazendo agora na volta o mesmo caminho que tinham feito na vinda.
E nessa fuga tratavam de levar consigo tudo o que podiam carregar. O que não podiam, queimavam ou enterravam. Casas, plantações, até igrejas foram incendiadas, para que nada ficasse aos bandeirantes.
Pois diz que numa dessas avançadas pelo Planalto, no rumo da Serra, uma carreta carregada de ouro e prata, fugindo das Missões.
Ali vinha a alfaia das igrejas, candelabros, castiçais, moedas, ouro em pó, um verdadeiro tesouro cujo peso faziam os bois peludearem. Com a carreta, alguns índios e padres jesuítas e atrás deles, sedentos de sangue e ouro, os bandeirantes.
Ao chegarem às margens de uma lagoa, não puderam mais.
Desuniram os bois e atiraram a carreta com toda a sua preciosa carga na lagoa, muito profunda. E aí então os padres mataram os índios carreteiros e atiraram os corpos n'água, para que não contassem a ninguém onde estava o tesouro. Com o sangue dos mortos, a lagoa ficou vermelha.
E lá está, até hoje. Ao seu redor, cresceu uma bela cidade, que tomou seu nome - Lagoa Vermelha. E cada um dos seus moradores que passa na beira das águas coloradas, lembra que ali ninguém se banha, nem pesca, e segundo a tradição, a lagoa não tem fundo. E nas secas mais fortes e nas chuvaradas mais bravas, o nível da lagoa é sempre o mesmo.
A primeira tentativa dos padres jesuítas, que resultou na fundação de 18 Povos Missioneiros no Rio Grande do Sul, deu em nada. Os bandeirantes de Piratininga, que haviam arrasado as reduções do Guairá caçando e escravizando índios para a escravidão das lavouras de cana-de-açúcar de São Paulo e Rio de Janeiro, quando souberam que os padres tinham vindo mais para o sul e erguido suas aldeias no Tape, vieram aqui fazer o que sabiam fazer. Assim e aos poucos, os padres tiveram que refluir para o oeste, fazendo agora na volta o mesmo caminho que tinham feito na vinda.
E nessa fuga tratavam de levar consigo tudo o que podiam carregar. O que não podiam, queimavam ou enterravam. Casas, plantações, até igrejas foram incendiadas, para que nada ficasse aos bandeirantes.
Pois diz que numa dessas avançadas pelo Planalto, no rumo da Serra, uma carreta carregada de ouro e prata, fugindo das Missões.
Ali vinha a alfaia das igrejas, candelabros, castiçais, moedas, ouro em pó, um verdadeiro tesouro cujo peso faziam os bois peludearem. Com a carreta, alguns índios e padres jesuítas e atrás deles, sedentos de sangue e ouro, os bandeirantes.
Ao chegarem às margens de uma lagoa, não puderam mais.
Desuniram os bois e atiraram a carreta com toda a sua preciosa carga na lagoa, muito profunda. E aí então os padres mataram os índios carreteiros e atiraram os corpos n'água, para que não contassem a ninguém onde estava o tesouro. Com o sangue dos mortos, a lagoa ficou vermelha.
E lá está, até hoje. Ao seu redor, cresceu uma bela cidade, que tomou seu nome - Lagoa Vermelha. E cada um dos seus moradores que passa na beira das águas coloradas, lembra que ali ninguém se banha, nem pesca, e segundo a tradição, a lagoa não tem fundo. E nas secas mais fortes e nas chuvaradas mais bravas, o nível da lagoa é sempre o mesmo.
A Lenda de Angoéra do rs
A Lenda de Angoéra
Nos sete povos das Missões, no Pirapó, ainda no tempo dos padres jesuítas, vivia um índio muito triste, que se escondia de tudo e de todos pelos matos e peraus. Era um verdadeiro fantasma e por isso era chamado de Angoéra (fantasma, em guarani). E fugia da igreja
como o diabo da cruz!
Mas um dia a paciência dos padres valeu mais e o Angoéra foi batizado, convertendo-se à fé cristã e deixando de vagar pelos rincões escondidos. Recebeu o nome de Generoso e tornou-se alegre e bom, mui amigo de festas e alegrias. E um dia morreu, mas sua alma alegre e festeira continuou por aí, até hoje, campeando diversão. Onde tenha um fandango, lá anda rondando a alma do Generoso. Se rufa uma viola sozinha, é a mão dele. Se houve uma risada galponeira ou se levanta de repente a saia de alguma moça, todos sabem - é ele.
Quando isto acontece, o tocador que está animando a festa deve cantar em sua homenagem:
"Eu me chamo Generoso, morador de Pirapó. Gosto muito de dançar com as moças, de paletó".
Nos sete povos das Missões, no Pirapó, ainda no tempo dos padres jesuítas, vivia um índio muito triste, que se escondia de tudo e de todos pelos matos e peraus. Era um verdadeiro fantasma e por isso era chamado de Angoéra (fantasma, em guarani). E fugia da igreja
como o diabo da cruz!
Mas um dia a paciência dos padres valeu mais e o Angoéra foi batizado, convertendo-se à fé cristã e deixando de vagar pelos rincões escondidos. Recebeu o nome de Generoso e tornou-se alegre e bom, mui amigo de festas e alegrias. E um dia morreu, mas sua alma alegre e festeira continuou por aí, até hoje, campeando diversão. Onde tenha um fandango, lá anda rondando a alma do Generoso. Se rufa uma viola sozinha, é a mão dele. Se houve uma risada galponeira ou se levanta de repente a saia de alguma moça, todos sabem - é ele.
Quando isto acontece, o tocador que está animando a festa deve cantar em sua homenagem:
"Eu me chamo Generoso, morador de Pirapó. Gosto muito de dançar com as moças, de paletó".
Padre morto na Tamandaré do rs
Padre morto na Tamandaré
No século passado, por volta de 1880, havia um Padre em nossa cidade, cujo nome a igreja mantém em sigilo até hoje; certo dia começaram a suspeitar deste, pois as crianças não queriam ir à missa ou aproximar-se do padre. Tudo isto devido ao fato de o padre aliciar as meninas, filhas das beatas.
Para o sociedade daquela época isto era completamente incompreensível, pois o padre era uma das pessoas em que todos confiavam. Assim ele foi condenado a morte, sendo enforcado em plena praça pública (Tamandaré).
Antes de morrer jogou uma praga para a cidade, dizendo que ela nunca se desenvolveria e que todas as vezes que acontecesse algum ato publico ao ar livre choveria pelo menos dia. Há quem confirme que estas pragas realmente aconteceram. E acontecem
No século passado, por volta de 1880, havia um Padre em nossa cidade, cujo nome a igreja mantém em sigilo até hoje; certo dia começaram a suspeitar deste, pois as crianças não queriam ir à missa ou aproximar-se do padre. Tudo isto devido ao fato de o padre aliciar as meninas, filhas das beatas.
Para o sociedade daquela época isto era completamente incompreensível, pois o padre era uma das pessoas em que todos confiavam. Assim ele foi condenado a morte, sendo enforcado em plena praça pública (Tamandaré).
Antes de morrer jogou uma praga para a cidade, dizendo que ela nunca se desenvolveria e que todas as vezes que acontecesse algum ato publico ao ar livre choveria pelo menos dia. Há quem confirme que estas pragas realmente aconteceram. E acontecem
A panelinha do rs
A panelinha
Na bela cidade de Cruz Alta, nos começos deste século, havia uma grande fonte em forma de poço, de onde partia uma sanga, hoje tudo urbanizado no cruzamento das ruas Andrade Neves e General Portinho, quase no centro da cidade.
Essa fonte, pela sua forma de poço, recebeu o nome de Fonte da Panelinha e ali muita gente boa, praticamente toda a zona nobre da cidade, abastecia-se de água. E era crença geral a de que beber água da Panelinha era amarrar-se definitivamente a Cruz Alta. Quem bebesse dessa água, mesmo que partisse, logo dava um jeito de voltar.
Muitas moças cruzaltenses, namoradas de oficiais do Exército de outras plagas ou de viajantes que eventualmente passavam por Cruz Alta, sempre davam um jeito de lhes servir um copo d´água da Fonte da Panelinha.
Na bela cidade de Cruz Alta, nos começos deste século, havia uma grande fonte em forma de poço, de onde partia uma sanga, hoje tudo urbanizado no cruzamento das ruas Andrade Neves e General Portinho, quase no centro da cidade.
Essa fonte, pela sua forma de poço, recebeu o nome de Fonte da Panelinha e ali muita gente boa, praticamente toda a zona nobre da cidade, abastecia-se de água. E era crença geral a de que beber água da Panelinha era amarrar-se definitivamente a Cruz Alta. Quem bebesse dessa água, mesmo que partisse, logo dava um jeito de voltar.
Muitas moças cruzaltenses, namoradas de oficiais do Exército de outras plagas ou de viajantes que eventualmente passavam por Cruz Alta, sempre davam um jeito de lhes servir um copo d´água da Fonte da Panelinha.
João de Barro
João de Barro
Contam os índios que, há muito tempo, numa tribo do sul do Brasil, um jovem se apaixonou por uma moça de grande beleza. Melhor dizendo: apaixonaram-se. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou:
- Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
- As provas do meu amor! - respondeu o jovem.
O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
- O último pretendente de minha fila falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova.
Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
O velho respondeu:
- Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
E esperou até até a última hora do novo dia. Então ordenou:
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seu olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Todos se espantaram. E ficaram mais espantados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro!
E exatamente naquele momento, os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceu para sempre
Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro.
A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.
Contam os índios que, há muito tempo, numa tribo do sul do Brasil, um jovem se apaixonou por uma moça de grande beleza. Melhor dizendo: apaixonaram-se. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou:
- Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
- As provas do meu amor! - respondeu o jovem.
O velho gostou da resposta mas achou o jovem atrevido. Então disse:
- O último pretendente de minha fila falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
Eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
Toda a tribo se espantou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova.
Enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorou e implorou à deusa Lua que o mantivesse vivo para seu amor. O tempo foi passando. Certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
O velho respondeu:
- Ele é arrogante. Falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
E esperou até até a última hora do novo dia. Então ordenou:
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seu olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e cheirava a perfume de amêndoa. Todos se espantaram. E ficaram mais espantados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro!
E exatamente naquele momento, os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceu para sempre
Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro joão-de-barro.
A prova do grande amor que uniu esses dois jovens está no cuidado com que constroem sua casa e protegem os filhotes. E os homens amam o joão-de-barro porque lembram da força de Jaebé, uma força que vinha do amor e foi maior que a morte.
Caverá do rs
Caverá
O Caverá é uma região na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul, ouriçada de cerros, que se estende entre Rosário do Sul e Alegrete. Na Revolução de 1923, entre os maragatos (os revolucionários) e os chimangos (os legalistas) o Caverá foi o santuário do caudilho maragato Honório Lemes, justamente apelidado "O Leão do Caverá".
Diz a lenda que a região, no passado, era território de uma tribo dos Minuanos, índios bravios dos campos, ao contrário dos Tapes e Guaranis gente mais do mato. Entre esses Minuanos, destacava-se a figura de Camaco, guerreiro forte e altivo, mas vivendo uma paixão não correspondida por Ponaim, a princesinha da tribo, que só amava a própria beleza...
Os melhores frutos de suas caçadas, os mais valiosos troféus de seus combates, Camaco vinha depositar aos pés de Ponaim, sem conseguir dela qualquer demonstração de amor.
Um dia, achando que lhe dava uma tarefa impossível, Ponaim disse que só se casaria com Camaco se ele trouxesse a pele do Cervo Berá para forrar o leito do casamento. O Cervo Berá era um bicho encantado, com o pelo brilhante - daí o seu nome. O mato era dele: Caa-Berá, Caaverá, Caverá, finalmente.
Então Camaco resolveu caçar o cervo encantado. Montando o seu melhor cavalo, armado com vários pares de boleadeiras, saiu a rastrear, dizendo que só voltaria depois de caçar e courear o Cervo Berá.
Depois de muitas luas, num fim de tarde ele avistou a caça tão procurada na aba do cerro. O cervo estava parado, cabeça erguida, desafiador, brilhando contra a luz do sol morrente. Sem medo, Camaco taloneou o cavalo, desprendeu da cintura um par de boleadeiras e fez as pedras zunirem, arrodeando por cima da cabeça. Então, no justo momento em que o Cervo Berá deu um salto para a frente quando o guerreiro atirou as Três Marias, houve um grande estouro no cerro e uma cerração muito forte tapou tudo. Durante três dias e três noites os outros índios campearam Camaco e seu cavalo, mas só acharam uma grande caverna que tina se rasgado na pedra dura do cerro e por onde, quem sabe, Camaco e seu cavalo tinham entrado a galope atrás do Cervo Berá para nunca mais voltar
O Caverá é uma região na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul, ouriçada de cerros, que se estende entre Rosário do Sul e Alegrete. Na Revolução de 1923, entre os maragatos (os revolucionários) e os chimangos (os legalistas) o Caverá foi o santuário do caudilho maragato Honório Lemes, justamente apelidado "O Leão do Caverá".
Diz a lenda que a região, no passado, era território de uma tribo dos Minuanos, índios bravios dos campos, ao contrário dos Tapes e Guaranis gente mais do mato. Entre esses Minuanos, destacava-se a figura de Camaco, guerreiro forte e altivo, mas vivendo uma paixão não correspondida por Ponaim, a princesinha da tribo, que só amava a própria beleza...
Os melhores frutos de suas caçadas, os mais valiosos troféus de seus combates, Camaco vinha depositar aos pés de Ponaim, sem conseguir dela qualquer demonstração de amor.
Um dia, achando que lhe dava uma tarefa impossível, Ponaim disse que só se casaria com Camaco se ele trouxesse a pele do Cervo Berá para forrar o leito do casamento. O Cervo Berá era um bicho encantado, com o pelo brilhante - daí o seu nome. O mato era dele: Caa-Berá, Caaverá, Caverá, finalmente.
Então Camaco resolveu caçar o cervo encantado. Montando o seu melhor cavalo, armado com vários pares de boleadeiras, saiu a rastrear, dizendo que só voltaria depois de caçar e courear o Cervo Berá.
Depois de muitas luas, num fim de tarde ele avistou a caça tão procurada na aba do cerro. O cervo estava parado, cabeça erguida, desafiador, brilhando contra a luz do sol morrente. Sem medo, Camaco taloneou o cavalo, desprendeu da cintura um par de boleadeiras e fez as pedras zunirem, arrodeando por cima da cabeça. Então, no justo momento em que o Cervo Berá deu um salto para a frente quando o guerreiro atirou as Três Marias, houve um grande estouro no cerro e uma cerração muito forte tapou tudo. Durante três dias e três noites os outros índios campearam Camaco e seu cavalo, mas só acharam uma grande caverna que tina se rasgado na pedra dura do cerro e por onde, quem sabe, Camaco e seu cavalo tinham entrado a galope atrás do Cervo Berá para nunca mais voltar
Lobisomem do Cemitério do rs
Lobisomem do Cemitério
Aproximadamente na década de 70, na rua 2 de Novembro, onde até hoje se encontra o Cemitério Católico da cidade de Rio Grande, atuava o famoso “Lobisomem do Cemitério”.
Pessoas que passavam tarde da noite por ali diziam que um estranho bicho aparecia sempre a meia noite. Assim que alguém passava, ele pulava do alto muro do cemitério e assustava as pessoas. Os que eram assustados por ele, revelavam que o bicho era meio homem meio animal. Foi a partir desse depoimento que as pessoas começaram a acreditar que se tratava de um lobisomem. Notaram também que o bicho uivava quando agia.
Mas o segurança da Viação Férrea (que ficava em frente ao Cemitério) não acreditava no que estava acontecendo. Então ele resolveu vigiar uma noite inteira o cemitério para ver se o que falavam era verídico. Assim que deu meia noite em seu relógio ele ficou mais atento em tudo que estava em sua volta. Foi aí que ele ouviu um uivo muito alto, no instante uma senhora passava pela frente do cemitério (uma mendiga), e o lobisomem saia do muro. O segurança começou a atirar, e o lobisomem saiu em disparada.
Desse dia em diante nunca mais se ouviu falar nele, mas nada dura para sempre, a qualquer momento pode aparecer um para voltar a assustar a cidade.
Aproximadamente na década de 70, na rua 2 de Novembro, onde até hoje se encontra o Cemitério Católico da cidade de Rio Grande, atuava o famoso “Lobisomem do Cemitério”.
Pessoas que passavam tarde da noite por ali diziam que um estranho bicho aparecia sempre a meia noite. Assim que alguém passava, ele pulava do alto muro do cemitério e assustava as pessoas. Os que eram assustados por ele, revelavam que o bicho era meio homem meio animal. Foi a partir desse depoimento que as pessoas começaram a acreditar que se tratava de um lobisomem. Notaram também que o bicho uivava quando agia.
Mas o segurança da Viação Férrea (que ficava em frente ao Cemitério) não acreditava no que estava acontecendo. Então ele resolveu vigiar uma noite inteira o cemitério para ver se o que falavam era verídico. Assim que deu meia noite em seu relógio ele ficou mais atento em tudo que estava em sua volta. Foi aí que ele ouviu um uivo muito alto, no instante uma senhora passava pela frente do cemitério (uma mendiga), e o lobisomem saia do muro. O segurança começou a atirar, e o lobisomem saiu em disparada.
Desse dia em diante nunca mais se ouviu falar nele, mas nada dura para sempre, a qualquer momento pode aparecer um para voltar a assustar a cidade.
A Origem do Mate - Guaranis do rs
A Origem do Mate segundo aos quaranis Guaranis
Os cânticos de guerra reboaram na floresta, e Itabaetê marchou com seus homens à procura do grande acampamento. Toda a tribo partira, levando nos olhos o brilho da vitória. Só um homem, enfraquecido pelo peso dos anos, não pudera seguir nesta nova arrancada guerreira. E ficara chorando no oito de uma coxilha, olhar estendido à linha de combatentes que serpenteava pelos caminhos. Mesmo depois da tribo ter desaparecido no véu da grande mata, ainda o velho índio permanecera numa atitude de estátua, mudo, enovelado em mil recordações das pelejas passadas. Voltava, em pensamento. àqueles tempos em que seu braço era o mais temido da tribo, a sua flecha a mais certeira, os seus olhos os mais seguros a perscrutar a imensidão das noites, Agora, fraco, envelhecido, estava condenado a atirar-se inativo ao fundo das matarias. Para seu consolo, restavam-lhe apenas as recordações, e a beleza de Yarí, a mais jovem e a mais formosa de suas filhas - a qual, surda ao convite de muitos guerreiros enamorados, preferira permanecer junto ao velho pai, adoçando-lhe as últimas horas de vida com o mel de seus sorrisos.
Um dia, chegou ao rancho do velho guarani um viageiro estranho - roupagem colorida, olhos lembrando o azul de céus longínquos. O guarani logo percebeu que o homem vinha de terras distantes, muito além das matas do Maracaju, matas que ele cortara, vibrando de entusiasmo, nas caminhadas de outrora. A porta de couro de seu rancho abriu-se inteiramente, recebendo o estrangeiro. Yarí foi buscar os frutos mais lindos da floresta, e o mel mais doce das mirins. E o seu velho pai, cerrando um pouco os olhos para melhor buscar as riquezas de um mundo afastado no tempo, recordava episódios de sua mocidade, entusiasmava-se no relato das caçadas perigosas e dos entreveros ruidosos. Tudo foi feito para que as horas que o estrangeiro passasse naquele rancho fossem cheias de contentamento.
Desceu a noite sobre a terra e a rede foi estendida para o sono do visitante. Seus sonhos foram povoados pela voz suave da virgem, entoando as cantigas guaranis. E no outro dia, quando o sol espiou por entre os ramos mais baixos do arvoredo, foi encontrar o estrangeiro já pronto para seguir viagem.
- Em tuas mãos repousa a generosidade das fontes cristalinas... - disse ele ao velho índio. - Em teu coração se abriga a hospitalidade das planuras infindas dos charruas, onde os campos se abrem em mil caminhos sem estender nada que impeça o andar do viageiro; no corpo de tua filha se esconde a pureza dos o1hos-d’água e a alegria das madrugadas de minha terra. Tanta virtude merece ser recompensada. Venho dos domínios de Tupá, o Deus do Bem. Pede o que quiseres!
- Nada mereço pelo que fiz, senhor! -, respondeu o guarani. - Mas como a bondade imensa de Tupá quer pousar suas mãos sabre este rancho pobre, eu pediria mais um pouco de alento para os últimos passos do meu viajar. Outrora, eu guiava pelos caminhos da guerra um sem-fim de guerreiros; hoje, somente minha filha enche de vida as minhas horas derradeiras. Eu quisera um outro companheiro, que atirasse doçura aos meus lábios e descanso ao meu coração. Alguém que fosse meu último amigo, um amigo fiel. Assim, Yarí poderia seguir o rastro da nossa tribo, onde os jovens anseiam por seu amor para continuarem mais confiantes no caminho da vitória. É o que peço, senhor: um amigo fiel, um companheiro que encha de doçura a horas amargas da saudade...
O emissário de Tupá sorriu. Em suas mãos brilhava - recoberta de uma luz estranha - uma planta repleta de folhagens verdes, donde se desprendia um perfume de bondade, talvez o mesmo perfume de Tupá.
- Deixa crescer esta planta, e bebe de suas folhas! - disse o enviado de Deus. - Bebe de suas folhas, e terás o companheiro que pedes! Esta erva, que traz em si a graça do Tupá, se estenderá pelas matas, trazendo o conforto não só a ti mas a todos os homens de tua tribo. E tu, Yarí, serás a protetora das florestas que haverão de surgir. Os guerreiros provarão a mesma delícia de teu carinho ao sorver esta bebida; as caminhadas de guerra serão menos fatigantes, e os dias de descanso mais felizes...
E já se afastando do rancho, o enviado de Tupá repetiu:
- Terás um companheiro fiel, velho chefe guarani... E será a protetora de tua raça, Caá-Yarí...
E desde então Caá-Yarí é a senhora dos ervais e a deusa dos ervateiros. Todos merecem dela o máximo de auxilia, se lhe são fiéis. E se algum ervateiro, ainda não satisfeito com aquela proteção, quiser ver a fartura escorrendo de seus dedos, poderá fazer com ela um pacto sagrado. Bastará entrar numa igreja, durante a Semana Santa, e pedir Caá-Yarí em casamento, jurando viver para sempre nos ervais, voltado somente para o culto de sua deusa, sem nunca mais amar outra mulher... Deixará, depois, num ramo de erva-mate, um bilhete no qual marca um encontro com a bela protetora das florestas No dia marcado, deverá penetrar no fundo da mataria, onde Caá-Yarí lhe provará a bravura, interrompendo-lhe o caminho com serpentes e feras. E se o ervateiro for corajoso e forte, vencendo a todos os perigos, receberá a recompensa de Yarí.
Sua vida será toda tomada pelo amor da jovem deusa. Suas noites serão cheias de prazer, e seus dias cheios de fartura. Os ervais se despirão por encanto, enchendo os surrões de couro sem que ele tenha gasto o mínimo de esforço. Na hora da pesagem, Caá-Yarí - que é invisível para todos menos para o seu amante - pousará sobre os feixes de erva, aumentando o peso da colheita. A felicidade será eterna para o ervateiro!
Eterna... se ele não quebrar seu juramento... Pois se alguma mulher consegue desnorteá-lo, haverá de lhe entregar, junto às carícias, a sentença da desgraça. Um dia, o ervateiro será encontrado estirado no meio dos ervais, inexplicavelmente morto, ou então correndo pelas florestas, ensangüentado, delirando, louco!
Os cânticos de guerra reboaram na floresta, e Itabaetê marchou com seus homens à procura do grande acampamento. Toda a tribo partira, levando nos olhos o brilho da vitória. Só um homem, enfraquecido pelo peso dos anos, não pudera seguir nesta nova arrancada guerreira. E ficara chorando no oito de uma coxilha, olhar estendido à linha de combatentes que serpenteava pelos caminhos. Mesmo depois da tribo ter desaparecido no véu da grande mata, ainda o velho índio permanecera numa atitude de estátua, mudo, enovelado em mil recordações das pelejas passadas. Voltava, em pensamento. àqueles tempos em que seu braço era o mais temido da tribo, a sua flecha a mais certeira, os seus olhos os mais seguros a perscrutar a imensidão das noites, Agora, fraco, envelhecido, estava condenado a atirar-se inativo ao fundo das matarias. Para seu consolo, restavam-lhe apenas as recordações, e a beleza de Yarí, a mais jovem e a mais formosa de suas filhas - a qual, surda ao convite de muitos guerreiros enamorados, preferira permanecer junto ao velho pai, adoçando-lhe as últimas horas de vida com o mel de seus sorrisos.
Um dia, chegou ao rancho do velho guarani um viageiro estranho - roupagem colorida, olhos lembrando o azul de céus longínquos. O guarani logo percebeu que o homem vinha de terras distantes, muito além das matas do Maracaju, matas que ele cortara, vibrando de entusiasmo, nas caminhadas de outrora. A porta de couro de seu rancho abriu-se inteiramente, recebendo o estrangeiro. Yarí foi buscar os frutos mais lindos da floresta, e o mel mais doce das mirins. E o seu velho pai, cerrando um pouco os olhos para melhor buscar as riquezas de um mundo afastado no tempo, recordava episódios de sua mocidade, entusiasmava-se no relato das caçadas perigosas e dos entreveros ruidosos. Tudo foi feito para que as horas que o estrangeiro passasse naquele rancho fossem cheias de contentamento.
Desceu a noite sobre a terra e a rede foi estendida para o sono do visitante. Seus sonhos foram povoados pela voz suave da virgem, entoando as cantigas guaranis. E no outro dia, quando o sol espiou por entre os ramos mais baixos do arvoredo, foi encontrar o estrangeiro já pronto para seguir viagem.
- Em tuas mãos repousa a generosidade das fontes cristalinas... - disse ele ao velho índio. - Em teu coração se abriga a hospitalidade das planuras infindas dos charruas, onde os campos se abrem em mil caminhos sem estender nada que impeça o andar do viageiro; no corpo de tua filha se esconde a pureza dos o1hos-d’água e a alegria das madrugadas de minha terra. Tanta virtude merece ser recompensada. Venho dos domínios de Tupá, o Deus do Bem. Pede o que quiseres!
- Nada mereço pelo que fiz, senhor! -, respondeu o guarani. - Mas como a bondade imensa de Tupá quer pousar suas mãos sabre este rancho pobre, eu pediria mais um pouco de alento para os últimos passos do meu viajar. Outrora, eu guiava pelos caminhos da guerra um sem-fim de guerreiros; hoje, somente minha filha enche de vida as minhas horas derradeiras. Eu quisera um outro companheiro, que atirasse doçura aos meus lábios e descanso ao meu coração. Alguém que fosse meu último amigo, um amigo fiel. Assim, Yarí poderia seguir o rastro da nossa tribo, onde os jovens anseiam por seu amor para continuarem mais confiantes no caminho da vitória. É o que peço, senhor: um amigo fiel, um companheiro que encha de doçura a horas amargas da saudade...
O emissário de Tupá sorriu. Em suas mãos brilhava - recoberta de uma luz estranha - uma planta repleta de folhagens verdes, donde se desprendia um perfume de bondade, talvez o mesmo perfume de Tupá.
- Deixa crescer esta planta, e bebe de suas folhas! - disse o enviado de Deus. - Bebe de suas folhas, e terás o companheiro que pedes! Esta erva, que traz em si a graça do Tupá, se estenderá pelas matas, trazendo o conforto não só a ti mas a todos os homens de tua tribo. E tu, Yarí, serás a protetora das florestas que haverão de surgir. Os guerreiros provarão a mesma delícia de teu carinho ao sorver esta bebida; as caminhadas de guerra serão menos fatigantes, e os dias de descanso mais felizes...
E já se afastando do rancho, o enviado de Tupá repetiu:
- Terás um companheiro fiel, velho chefe guarani... E será a protetora de tua raça, Caá-Yarí...
E desde então Caá-Yarí é a senhora dos ervais e a deusa dos ervateiros. Todos merecem dela o máximo de auxilia, se lhe são fiéis. E se algum ervateiro, ainda não satisfeito com aquela proteção, quiser ver a fartura escorrendo de seus dedos, poderá fazer com ela um pacto sagrado. Bastará entrar numa igreja, durante a Semana Santa, e pedir Caá-Yarí em casamento, jurando viver para sempre nos ervais, voltado somente para o culto de sua deusa, sem nunca mais amar outra mulher... Deixará, depois, num ramo de erva-mate, um bilhete no qual marca um encontro com a bela protetora das florestas No dia marcado, deverá penetrar no fundo da mataria, onde Caá-Yarí lhe provará a bravura, interrompendo-lhe o caminho com serpentes e feras. E se o ervateiro for corajoso e forte, vencendo a todos os perigos, receberá a recompensa de Yarí.
Sua vida será toda tomada pelo amor da jovem deusa. Suas noites serão cheias de prazer, e seus dias cheios de fartura. Os ervais se despirão por encanto, enchendo os surrões de couro sem que ele tenha gasto o mínimo de esforço. Na hora da pesagem, Caá-Yarí - que é invisível para todos menos para o seu amante - pousará sobre os feixes de erva, aumentando o peso da colheita. A felicidade será eterna para o ervateiro!
Eterna... se ele não quebrar seu juramento... Pois se alguma mulher consegue desnorteá-lo, haverá de lhe entregar, junto às carícias, a sentença da desgraça. Um dia, o ervateiro será encontrado estirado no meio dos ervais, inexplicavelmente morto, ou então correndo pelas florestas, ensangüentado, delirando, louco!
A Origem do Mate, segundo os jesuítas do rs
A Origem do Mate, segundo os jesuítas
Um dia Cristo desceu à terra, acompanhado por São João e São Pedro, e veio ter às selvas americanas. Depois de um penoso viajar pelas florestas sem fim, encontrou - perdido no fundo dos bamburrais - o rancho de um velho índio que ali morava em companhia de sua filha, jovem de deslumbrante formosura. Os três viajantes foram muito bem recebidos, e Jesus resolveu premiar aquela franca hospitalidade que encontrara no rancho do selvícola. Indagando-lhe o que mais desejava em sua vida, recebeu esta resposta:
- Senhor! Anhangá tomou conta dos corações humanos: as guerras incendeiam os campos de minha terra, e não há mais tranqüilidade nas tabas de meu povo. Vencedores, os guerreiros não poupam os vencidos: os homens são trucidados e as mulheres jovens são arrastadas a satisfazer os mais baixos instintos. Por isso, fugi de minha tribo e vim enterrar-me no escuro das florestas. Não por salvar-me, que pouco me resta viver. Mas para afastar minha filha das garras do pecado. Sei que em breve morrerei, e o que mais me acabrunha é pensar que a deixarei desprotegida, novamente exposta à fúria das paixões. Assim, Senhor, se alguma cousa me fosse dado pedir, eu pediria uma eterna proteção à alma de minha filha. Que ela fosse eternamente bondosa, eternamente pura, eternamente linda:
Respondeu Jesus:
- Se Anhangá hoje impera em tuas selvas, podes crer que o Deus-do-bem voltará a estender seu manto de paz sobre a taba de teus irmãos. As selvas se encherão de cânticos e as almas se encherão de luz. É o Deus-do-Bem que me envia para proteger teu povo... Tu, que foste bom, generoso e hospitaleiro, mereces ser recompensado. Farei de tua filha aquilo que me pedes. Símbolo da bondade, ela retribuirá o mal com o bem: aos que quiserem roubar as delícias do seu corpo, premiará com a fartura nos ranchos. E nenhuma força será capaz de abatê-la, pois por mais que a queiram aniquilar, sempre haverá de renascer, triunfante, trazendo força e inteligência aos homens de tua raça. Tua filha será eternamente linda e eternamente pura, pois. transformá-la-ei na mais linda e mais pura das árvores; linda no contorno das folhagens e pura no manto verdejante que lhe descerá até os pés. Tua filha será eternamente linda, eternamente pura e bondosa...
E Deus a transformou na erva-mate...
SÂO TOMÉ NA AMÉRICA
Quando, em 1624, os padres Montoga e Mendonza fundaram a vila de Encarnación, importante missão jesuítica posteriomente destruída, tiveram curiosidade em saber o que pensavam os selvícolas a respeito do mate, bebida que já constituía um hábito característico do Paraguai. Tiveram por resposta que a erva-mate lhes servia de alimento e remédio desde o dia em que Pai-Zumé, um estranho personagem que há muito tempo estivera naquelas tabas, lhes ensinara como aproveitar as folhas da caá (que até então julgavam venenosas), e como lhes usufruir os efeitos medicinais. Contavam também os indígenas que Zumé era um homem poderoso: as selvas brutas conservavam intacto o caminho por onde ele passara, desde o Tibagi até o Piquiri; e às margens deste rio, Zumé havia deixado, numa pedra, o sinal de seus pés - testemunho eterno de sua passagem por aquelas terras.
Os dois jesuítas logo aliaram a figura de Zumé à pessoa de São Tomé, o apóstolo que provavelmente teria visitado o continente americano pregando a doutrina de Cristo. A versão cristianizada da lenda logo se espalhou entre as populações brancas, e em breve era voz corrente que a erva-mate havia sido descoberta e bendita pelas mãos de São Tomé. Isto é o que vamos encontrar em muitos livros da época, a iniciar-se pelo “Tratado sobre o uso do mate no Paraguai”, escrito pelo licenciado Diego Zevallos em meados do século XVII e publicado em Lima no ano de 1667.
Lozano, no capítulo VIII de sua “História de la Conquista del Paraguay”, também se refere a São Tomé, narrando que durante uma terrível peste que assolara as tribos guaranis, foi aquele santo o salvador do gentio, ensinando-lhes como preparar a erva-mate, eficaz remédio contra aquela epidemia e muitas outras doenças.
A peste foi vencida, e a milagrosa bebida, cujo uso se generalizara por todas as tabas guaranis, continuou a prestar inúmeros benefícios. E por muito tempo os selvícolas guardaram na memória a figura daquele bom Zumé, que um dia, apesar das súplicas e protestos gerais, teve de deixar as terras do Paraguai.
Santo Tomé les responde:
“Os tengo que abandonar
Porque Cristo me ha mandado
Otras tierras visitar.
En recuerdo de mi estada
Una merced os he de dar,
Que es la yerba paraguaya
Que por mi bendicta está”.
Santo Tomé entró en el rio
Y en peana de cri tal
La aguas se lo llevaron
A las l anuras del mar.
Los indios, de zu partida
No se pueden consolar,
y a Diós sempre están pidiendo
Que vuelva Santo Tomás.
Um dia Cristo desceu à terra, acompanhado por São João e São Pedro, e veio ter às selvas americanas. Depois de um penoso viajar pelas florestas sem fim, encontrou - perdido no fundo dos bamburrais - o rancho de um velho índio que ali morava em companhia de sua filha, jovem de deslumbrante formosura. Os três viajantes foram muito bem recebidos, e Jesus resolveu premiar aquela franca hospitalidade que encontrara no rancho do selvícola. Indagando-lhe o que mais desejava em sua vida, recebeu esta resposta:
- Senhor! Anhangá tomou conta dos corações humanos: as guerras incendeiam os campos de minha terra, e não há mais tranqüilidade nas tabas de meu povo. Vencedores, os guerreiros não poupam os vencidos: os homens são trucidados e as mulheres jovens são arrastadas a satisfazer os mais baixos instintos. Por isso, fugi de minha tribo e vim enterrar-me no escuro das florestas. Não por salvar-me, que pouco me resta viver. Mas para afastar minha filha das garras do pecado. Sei que em breve morrerei, e o que mais me acabrunha é pensar que a deixarei desprotegida, novamente exposta à fúria das paixões. Assim, Senhor, se alguma cousa me fosse dado pedir, eu pediria uma eterna proteção à alma de minha filha. Que ela fosse eternamente bondosa, eternamente pura, eternamente linda:
Respondeu Jesus:
- Se Anhangá hoje impera em tuas selvas, podes crer que o Deus-do-bem voltará a estender seu manto de paz sobre a taba de teus irmãos. As selvas se encherão de cânticos e as almas se encherão de luz. É o Deus-do-Bem que me envia para proteger teu povo... Tu, que foste bom, generoso e hospitaleiro, mereces ser recompensado. Farei de tua filha aquilo que me pedes. Símbolo da bondade, ela retribuirá o mal com o bem: aos que quiserem roubar as delícias do seu corpo, premiará com a fartura nos ranchos. E nenhuma força será capaz de abatê-la, pois por mais que a queiram aniquilar, sempre haverá de renascer, triunfante, trazendo força e inteligência aos homens de tua raça. Tua filha será eternamente linda e eternamente pura, pois. transformá-la-ei na mais linda e mais pura das árvores; linda no contorno das folhagens e pura no manto verdejante que lhe descerá até os pés. Tua filha será eternamente linda, eternamente pura e bondosa...
E Deus a transformou na erva-mate...
SÂO TOMÉ NA AMÉRICA
Quando, em 1624, os padres Montoga e Mendonza fundaram a vila de Encarnación, importante missão jesuítica posteriomente destruída, tiveram curiosidade em saber o que pensavam os selvícolas a respeito do mate, bebida que já constituía um hábito característico do Paraguai. Tiveram por resposta que a erva-mate lhes servia de alimento e remédio desde o dia em que Pai-Zumé, um estranho personagem que há muito tempo estivera naquelas tabas, lhes ensinara como aproveitar as folhas da caá (que até então julgavam venenosas), e como lhes usufruir os efeitos medicinais. Contavam também os indígenas que Zumé era um homem poderoso: as selvas brutas conservavam intacto o caminho por onde ele passara, desde o Tibagi até o Piquiri; e às margens deste rio, Zumé havia deixado, numa pedra, o sinal de seus pés - testemunho eterno de sua passagem por aquelas terras.
Os dois jesuítas logo aliaram a figura de Zumé à pessoa de São Tomé, o apóstolo que provavelmente teria visitado o continente americano pregando a doutrina de Cristo. A versão cristianizada da lenda logo se espalhou entre as populações brancas, e em breve era voz corrente que a erva-mate havia sido descoberta e bendita pelas mãos de São Tomé. Isto é o que vamos encontrar em muitos livros da época, a iniciar-se pelo “Tratado sobre o uso do mate no Paraguai”, escrito pelo licenciado Diego Zevallos em meados do século XVII e publicado em Lima no ano de 1667.
Lozano, no capítulo VIII de sua “História de la Conquista del Paraguay”, também se refere a São Tomé, narrando que durante uma terrível peste que assolara as tribos guaranis, foi aquele santo o salvador do gentio, ensinando-lhes como preparar a erva-mate, eficaz remédio contra aquela epidemia e muitas outras doenças.
A peste foi vencida, e a milagrosa bebida, cujo uso se generalizara por todas as tabas guaranis, continuou a prestar inúmeros benefícios. E por muito tempo os selvícolas guardaram na memória a figura daquele bom Zumé, que um dia, apesar das súplicas e protestos gerais, teve de deixar as terras do Paraguai.
Santo Tomé les responde:
“Os tengo que abandonar
Porque Cristo me ha mandado
Otras tierras visitar.
En recuerdo de mi estada
Una merced os he de dar,
Que es la yerba paraguaya
Que por mi bendicta está”.
Santo Tomé entró en el rio
Y en peana de cri tal
La aguas se lo llevaron
A las l anuras del mar.
Los indios, de zu partida
No se pueden consolar,
y a Diós sempre están pidiendo
Que vuelva Santo Tomás.
boitatá do rs
boitatá
Foi assim:
Num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.
Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insossa; os borralhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições...
Os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados, horas e horas, olhando, sem ver as brasas vermelhas do nhanduvai... as brasas somente, porque as faíscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.
Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido nem vista para bater na querência; até nem sorro daria no seu próprio rastro!
E a noite velha ia andando... ia andando...
Minto:
no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar: era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo, que devia vir e que tardava tanto já...
Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu - quero-quero! - tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.
Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento, então, nem nada.
Minto:
na última tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe a estrela-d’alva, nessa última tarde também desabou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou... e durou...
Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas coleando pelos tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num: os passos cresceram e todo aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado, no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!...
Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas; as cobras se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e das tiriricas boiavam os ratões e outros miúdos.
E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na cobra-grande, a - boiguaçu - que, havia já muitas mãos de luas, dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabeando.
Começou depois a mortandade dos bichos e a boiguaçu pegou a comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.
A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando, e a cada hora mais olhos a cobra-grande comia.
Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.
A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem comer nada, dão nos olhos a cor de seus arrancos. O homem de olhos limpos é guapo e mão-aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado com os amarelos; e, toma tenência doble com os raiados e baços!...
Assim foi também, mas doutro jeito, com a boiguaçu, que tantos olhos comeu.
Todos - tantos, tantos! que a cobra-grande comeu -, guardavam, entranhado e luzindo, um rastilho da última luz que eles viram do último sol, antes da noite grande que caiu... E os olhos - tantos, tantos! - com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no princípio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão, depois, como uma braçada.
E vai,como a boiguaçu não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta, vai, o seu corpo foi ficando transparente, transparente, clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boiguaçu toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos...
Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela vez primeira viram a boiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamam-na desde então, de boitatá, cobra de fogo, boitatá, a boitatá!
E muitas vezes a boitatá rondou as rancheiras, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.
E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente - tatá, de fogo - que media mais braças que três laços de conta e ia alumiando baçamente as carquejas... E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boitatá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os das carniças a enfaravam...
Mas, como dizia:
na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boitatá, e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.
Passado um tempo, a boitatá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas lhe não deram substância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos... Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os couros pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.
E foi então, que a luz que estava presa se desatou por aí.
E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!
Minto:
apareceu sim, mas não veio de supetão. Primeiro foi-se adelgaçando o negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo, na lonjura, começou a subir uma lista de luz... depois a metade de uma cambota de fogo... e já foi o sol que subiu, subiu, subiu, até vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.
Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para nascer de novo: só a luz da boitatá ficou sozinha, nunca mais se juntou com a outra luz de que saiu.
Anda sempre arisca e só, nos lugares onde quanta mais carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida, não aparece e dorme, talvez entocada.
Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então o seu fadário.
A boitatá, toda enroscada, como uma bola - tatá, de fogo! - empeça a correr o campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!...
É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagado... e quando um menos espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!
Maldito! Tesconjuro!
Quem encontra a boitatá pode até ficar cego... Quando alguém topa com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito quieto, de olhos fechados apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou, se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e atirar-lhe em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa!
A boitatá vem acompanhando o ferro da argola... mas de repente, batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz, para emutilar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.
Campeiro precatado! reponte o seu gado da querência da boitatá: o pastiçal, aí faz peste....
Tenho visto!
Foi assim:
Num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia.
Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, sem serenada e sem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem das flores da mataria.
Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porque churrasco não havia, não mais sopravam labaredas nos fogões e passavam comendo canjica insossa; os borralhos estavam se apagando e era preciso poupar os tições...
Os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados, horas e horas, olhando, sem ver as brasas vermelhas do nhanduvai... as brasas somente, porque as faíscas, que alegram, não saltavam, por falta do sopro forte de bocas contentes.
Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzar pelos trilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nem ouvido nem vista para bater na querência; até nem sorro daria no seu próprio rastro!
E a noite velha ia andando... ia andando...
Minto:
no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, ora duma banda ora doutra, de vez em quando uma cantiga forte, de bicho vivente, furava o ar: era o téu-téu ativo, que não dormia desde o entrar do último sol e que vigiava sempre, esperando a volta do sol novo, que devia vir e que tardava tanto já...
Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu - quero-quero! - tão claro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando a esperança dos homens, amontoados no redor avermelhado das brasas.
Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento, então, nem nada.
Minto:
na última tarde em que houve sol, quando o sol ia descambando para o outro lado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobe a estrela-d’alva, nessa última tarde também desabou uma chuvarada tremenda; foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou... e durou...
Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas coleando pelos tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num: os passos cresceram e todo aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. E nessas coroas é que ficou sendo o paradouro da animalada, tudo misturado, no assombro. E era terneiros e pumas, tourada e potrilhos, perdizes e guaraxains, tudo amigo, de puro medo. E então!...
Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas; as cobras se enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do santa-fé e das tiriricas boiavam os ratões e outros miúdos.
E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na cobra-grande, a - boiguaçu - que, havia já muitas mãos de luas, dormia quieta, entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabeando.
Começou depois a mortandade dos bichos e a boiguaçu pegou a comer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais.
A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando, e a cada hora mais olhos a cobra-grande comia.
Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu.
A tambeira que só come trevo maduro, dá no leite o cheiro doce do milho verde; o cerdo que come carne de bagual nem vinte alqueires de mandioca o limpam bem; e o socó tristonho e o biguá matreiro até no sangue tem cheiro de pescado. Assim também, nos homens, que até sem comer nada, dão nos olhos a cor de seus arrancos. O homem de olhos limpos é guapo e mão-aberta; cuidado com os vermelhos; mais cuidado com os amarelos; e, toma tenência doble com os raiados e baços!...
Assim foi também, mas doutro jeito, com a boiguaçu, que tantos olhos comeu.
Todos - tantos, tantos! que a cobra-grande comeu -, guardavam, entranhado e luzindo, um rastilho da última luz que eles viram do último sol, antes da noite grande que caiu... E os olhos - tantos, tantos! - com um pingo de luz cada um, foram sendo devorados; no princípio um punhado, ao depois uma porção, depois um bocadão, depois, como uma braçada.
E vai,como a boiguaçu não tinha pêlos como o boi, nem escamas como o dourado, nem penas como o avestruz, nem casca como o tatu, nem couro grosso como a anta, vai, o seu corpo foi ficando transparente, transparente, clareado pelos miles de luzezinhas, dos tantos olhos que foram esmagados dentro dele, deixando cada qual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boiguaçu toda já era uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos...
Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela vez primeira viram a boiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamam-na desde então, de boitatá, cobra de fogo, boitatá, a boitatá!
E muitas vezes a boitatá rondou as rancheiras, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.
E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente - tatá, de fogo - que media mais braças que três laços de conta e ia alumiando baçamente as carquejas... E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boitatá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os das carniças a enfaravam...
Mas, como dizia:
na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boitatá, e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.
Passado um tempo, a boitatá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas lhe não deram substância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos... Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os couros pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.
E foi então, que a luz que estava presa se desatou por aí.
E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!
Minto:
apareceu sim, mas não veio de supetão. Primeiro foi-se adelgaçando o negrume, foram despontando as estrelas; e estas se foram sumindo no coloreado do céu; depois foi sendo mais claro, mais claro, e logo, na lonjura, começou a subir uma lista de luz... depois a metade de uma cambota de fogo... e já foi o sol que subiu, subiu, subiu, até vir a pino e descambar, como dantes, e desta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.
Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu, para nascer de novo: só a luz da boitatá ficou sozinha, nunca mais se juntou com a outra luz de que saiu.
Anda sempre arisca e só, nos lugares onde quanta mais carniça houve, mais se infesta. E no inverno, de entanguida, não aparece e dorme, talvez entocada.
Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então o seu fadário.
A boitatá, toda enroscada, como uma bola - tatá, de fogo! - empeça a correr o campo, coxilha abaixo, lomba acima, até que horas da noite!...
É um fogo amarelo e azulado, que não queima a macega seca nem aquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e se despenca e arrebenta-se, apagado... e quando um menos espera, aparece, outra vez, do mesmo jeito!
Maldito! Tesconjuro!
Quem encontra a boitatá pode até ficar cego... Quando alguém topa com ela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado, muito quieto, de olhos fechados apertados e sem respirar, até ir-se ela embora, ou, se anda a cavalo, desenrodilhar o laço, fazer uma armada grande e atirar-lhe em cima, e tocar a galope, trazendo o laço de arrasto, todo solto, até a ilhapa!
A boitatá vem acompanhando o ferro da argola... mas de repente, batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando a luz, para emutilar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.
Campeiro precatado! reponte o seu gado da querência da boitatá: o pastiçal, aí faz peste....
Tenho visto!
O minhocão do rs
O minhocão
Diz-se que na Lagoa do Armazém, em Tramandaí aparecia nas águas do minhocão, uma espécie de serpente monstruosa, muito grande, olhos de fogo verde, língua também de fogo, com pêlos na cabeça. Virava embarcações com rabanadas e comia nas margens porcos e galinhas. Hoje o povo acredita que o Minhocão deixou a lagoa e voltou para o mar.
Diz-se que na Lagoa do Armazém, em Tramandaí aparecia nas águas do minhocão, uma espécie de serpente monstruosa, muito grande, olhos de fogo verde, língua também de fogo, com pêlos na cabeça. Virava embarcações com rabanadas e comia nas margens porcos e galinhas. Hoje o povo acredita que o Minhocão deixou a lagoa e voltou para o mar.
A moça do cemitério do rs
A moça do cemitério
Em Porto Alegre, num ponto de taxi que fica na rua Otto Niemayer, esquina Cavalhada, às vezes aparece uma moça loira, lindíssima, usando sempre um vestido vermelho, muito bonito e chamativo. E sempre à noite. Ela toma um taxi e manda tocar para um lugar qualquer que passe pelo cemitério da Vila Nova mas, ao passar por este, ela simplesmente desaparece! Vários motoristas porto-alegrenses, muitos dos quais vivos até hoje, transportaram a moça-fantasma e repetem a mesma história.
Em Porto Alegre, num ponto de taxi que fica na rua Otto Niemayer, esquina Cavalhada, às vezes aparece uma moça loira, lindíssima, usando sempre um vestido vermelho, muito bonito e chamativo. E sempre à noite. Ela toma um taxi e manda tocar para um lugar qualquer que passe pelo cemitério da Vila Nova mas, ao passar por este, ela simplesmente desaparece! Vários motoristas porto-alegrenses, muitos dos quais vivos até hoje, transportaram a moça-fantasma e repetem a mesma história.
São Sepé do rs
São Sepé
Sepé era um índio valente e bom, que lutou contra os estrangeiros para defender a terra das missões. Ele era predestinado por Deus e São Miguel: tinha nascido com um lunar na testa. Nas noites escuras ou em pleno combate, o lunar de Sepé brilhava, guiando seus soldados missioneiros. Quando ele morreu, vencido pelas armas e o número de portugueses e espanhóis, Deus Nosso Senhor retirou de sua testa o lunar, que colocou no céu do pampa para ser o guia de todos os gaúchos - é o Cruzeiro do Sul.
Sepé era um índio valente e bom, que lutou contra os estrangeiros para defender a terra das missões. Ele era predestinado por Deus e São Miguel: tinha nascido com um lunar na testa. Nas noites escuras ou em pleno combate, o lunar de Sepé brilhava, guiando seus soldados missioneiros. Quando ele morreu, vencido pelas armas e o número de portugueses e espanhóis, Deus Nosso Senhor retirou de sua testa o lunar, que colocou no céu do pampa para ser o guia de todos os gaúchos - é o Cruzeiro do Sul.
Casa de MBororé do rs
Casa de MBororé
A lenda da Casa de MBororé (Missões)
No tempo dos Sete Povos das Missões, havia um índio velho muito fiel aos padres jesuítas, chamado MBororé. Com a chegada dos invasores portugueses e espanhóis, os padres precisaram fugir levando em carretas os tesouros e bens que pudessem carregar. Assim, amontoaram o muito que não podiam levar consigo – ouro, prata, alfaias, jóias, tudo!- e construíram ao redor uma casa branca, sem porta e sem janela. Para evitar a descoberta da casa pelo inimigo e o conseqüente saqueio, deixaram o velho índio fiel MBororé cuidando, com ordens severas de só entregar o tesouro quando os jesuítas voltassem às Missões.
Mas os jesuítas nunca mais voltaram. Com o passar dos anos, o velho índio morreu e o tempo foi marcando tudo, deixando as ruínas de pé como as cicatrizes de um sonho que acabou. Acabou? Não. A Casa de MBororé continua lá num mato das Missões, imaculadamente branca, cuidada pela alma do índio fiel que ainda espera a volta dos jesuítas.
Às vezes, algum mateiro –lenhador ou caçador- dá com ela, de repente, num campestre qualquer. Imediatamente dá-se conta de que é a Casa de MBororé, cheia de tesouros. Resolve então marcar bem o local para voltar com ferramentas e abrir a força a casa que não tem porta nem janela. Guarda bem o lugar na memória pelas árvores tais e tais, pela direção do sol e coisas assim. Sai, volta com ferramentas, só que nunca mais acha de novo a Casa Branca de MBororé, sem porta e sem janela.”
A lenda da Casa de MBororé (Missões)
No tempo dos Sete Povos das Missões, havia um índio velho muito fiel aos padres jesuítas, chamado MBororé. Com a chegada dos invasores portugueses e espanhóis, os padres precisaram fugir levando em carretas os tesouros e bens que pudessem carregar. Assim, amontoaram o muito que não podiam levar consigo – ouro, prata, alfaias, jóias, tudo!- e construíram ao redor uma casa branca, sem porta e sem janela. Para evitar a descoberta da casa pelo inimigo e o conseqüente saqueio, deixaram o velho índio fiel MBororé cuidando, com ordens severas de só entregar o tesouro quando os jesuítas voltassem às Missões.
Mas os jesuítas nunca mais voltaram. Com o passar dos anos, o velho índio morreu e o tempo foi marcando tudo, deixando as ruínas de pé como as cicatrizes de um sonho que acabou. Acabou? Não. A Casa de MBororé continua lá num mato das Missões, imaculadamente branca, cuidada pela alma do índio fiel que ainda espera a volta dos jesuítas.
Às vezes, algum mateiro –lenhador ou caçador- dá com ela, de repente, num campestre qualquer. Imediatamente dá-se conta de que é a Casa de MBororé, cheia de tesouros. Resolve então marcar bem o local para voltar com ferramentas e abrir a força a casa que não tem porta nem janela. Guarda bem o lugar na memória pelas árvores tais e tais, pela direção do sol e coisas assim. Sai, volta com ferramentas, só que nunca mais acha de novo a Casa Branca de MBororé, sem porta e sem janela.”
A Salamanca do Jarau do rs
A Salamanca do Jarau
No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia.
Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.
Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.
Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre.
Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.
Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.
No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos
enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.
Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois.
Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse
coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o
resto da vida.
Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul. Ah, ali vive
também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa
das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.
No tempo dos padres jesuítas, existia um moço sacristão no Povo de Santo Tomé, na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Ele morava numa cela de pedra nos fundos da própria igreja, na praça principal da aldeia.
Ora, num verão mui forte, com um sol de rachar, ele não conseguiu dormir a sesta. Vai então, levantou-se, assoleado e foi até a beira da lagoa refrescar-se. Levava consigo uma guampa, que usava como copo.
Coisa estranha: a lagoa toda fervia e largava um vapor sufocante e qual não é a surpresa do sacristão ao ver sair d'água a própria Teiniaguá, na forma de uma lagartixa com a cabeça de fogo, colorada como um carbúnculo. Ele, homem religioso, sabia que a Teiniaguá - os padres diziam isso!- tinha partes com o Diabo Vermelho, o Anhangá-Pitã, que tentava os homens e arrastava todos para o inferno. Mas sabia também que a Teiniaguá era mulher, uma princesa moura encantada jamais tocada por homem.
Aquele pelo qual se apaixonasse seria feliz para sempre.
Assim, num gesto rápido, aprisionou a Teiniagá na guampa e voltou correndo para a igreja, sem se importar com o calor. Passou o dia inteiro metido na cela, inquieto, louco que chegasse a noite.
Quando as sombras finalmente desceram sobre a aldeia, ele não se sofreu: destampou a guampa para ver a Teiniaguá. Aí, o milagre: a Teiniaguá se transformou na princesa moura, que sorriu para ele e pediu vinho, com os lábios vermelhos. Ora, vinho só o da Santa Missa. Louco de amor, ele não pensou duas vezes: roubou o vinho sagrado e assim, bebendo e amando, eles passaram a noite.
No outro dia, o sacristão não prestava para nada. Mas, quando chegou a noite, tudo se repetiu. E assim foi até que os padres finalmente desconfiaram e numa madrugada invadiram a cela do sacristão. A princesa moura transformou-se em Teiniaguá e fugiu para as barrancas do rio Uruguai, mas o moço, embriagado pelo vinho e de amor foi preso e acorrentado.
Como o crime era horrível - contra Deus e a Igreja! - foi condenado a morrer no garrote vil, na praça, diante da igreja que ele tinha profanado.
No dia da execução, todo o Povo se reuniu diante da igreja de São Tomé. Então, lá das barrancas do rio Uruguai a Teiniaguá sentiu que seu amado corria perigo. Aí, com todo o poder de sua magia, começou a procurar o sacristão abrindo rombos na terra, um valos
enormes, rasgando tudo. Por um desses valos ela finalmente chegou à igreja bem na hora em que o carrasco ia garrotear o sacristão. O que se viu foi um estouro muito grande, nessa hora, parecia que o mundo inteiro vinha abaixo, houve fogo, fumaça e enxofre e tudo afundou e tudo desapareceu de vista. E quando as coisas clarearam a Teiniaguá tinha libertado o sacristão e voltado com ele para as barrancas do rio Uruguai.
Vai daí, atravessou o rio para o lado de cá e ficou uns três dias em São Francisco de Borja, procurando um lugar afastado onde os dois apaixonados pudessem viver em paz. Assim, foram parar no Cerro do Jarau, no Quaraim, onde descobriram uma caverna muito funda e comprida. E lá foram morar, os dois.
Essa caverna, no alto do Cerro, ficou encantada. Virou Salamanca, que quer dizer "gruta mágica", a Salamanca do Jarau. Quem tivesse
coragem de entrar lá, passasse 7 Provas e conseguisse sair, ficava com o corpo fechado e com sorte no amor e no dinheiro para o
resto da vida.
Na Salamanca do Jarau a Teiniaguá e o sacristão se tornaram os pais dos primeiros gaúchos do Rio Grande do Sul. Ah, ali vive
também a Mãe do Ouro, na forma de uma enorme bola de fogo. Às vezes, nas tardes ameaçando chuva, dá um grande estouro numa
das cabeças do Cerro e pula uma elevação para outra. Muita gente viu.
O Negrinho do pastoreio do rs
O Negrinho do pastoreio
Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...
Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria;. porém era muito cauíla e muito mau, muito.
Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no invemo o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seu umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.
Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro; farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...
Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino como uma mosca, para um bafo cabos- negros, que era o seu parelheirode confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvio e a quem todos chamava somente o - Negrinho
. A este não -deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afiIhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.
Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria.
Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não? que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.
No dia aprazado, na concha da carreira havia gente como em festa de santo grande.
Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se Ihe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...
As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.
- Pelo baiol Luz e doble!...
- Pelo mourol Doble e luz!...
Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta...
- Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como uma colhera.
- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se os sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! hip! hip!...
E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.
- Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!
E cortava as esporas no mouro.
Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera. Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões.., mas sempre juntos, sempre emparelhados.
E as duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pós-se em pé e fez uma cara-volta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passa, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em um ginetaço.
- Foi mau jogo! gritava o estancieiro.
- Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.
A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, maisn de um virou as esporas para o peito de pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tiarajú, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:
- Foi na le! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha.buscá-las. Foi na lei!
Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.
E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e baguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia.
O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.
E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:
- Trinta quadras. tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficará aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficas de estaca!
O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.
Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim.
Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.
O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.
E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias; a estrela-d'alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejam o Negrinho e cortaram a guasca da sogra. O bafo sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio.
Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua,madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.
Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta -ia pingando cera no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavarn tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor Ihe marcara.
E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...
Gemendo, gemendo; o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagamm-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxúns ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, fiIho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá...
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...
O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-Ihe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...
E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-Ihe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.
Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro.., e que tudo isto cabia folgado dentro dem um formigueiro pequeno...
Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.
Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.
A peonada bateu o campo, porém, ninguém achou a tropilha e nem rastro.
Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.
Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!...
O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos.., e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu...
Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.
E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.
E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.
Correu no vizindário a nova dó fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.
Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...
E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passa, como levada em pastoreio, uma tropilhade tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!...
Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.
Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se; e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do so do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.
Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados,. pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luzele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm.
Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo - Foi por aí que eu perdi...
Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi!...
Se ele não achar: ninguém mais.
Naquele tempo os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria xucra e os veados e as avestruzes corriam sem empecilhos...
Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surrões cheios de onças e meias-doblas e mais muita prataria;. porém era muito cauíla e muito mau, muito.
Não dava pousada a ninguém, não emprestava um cavalo a um andante; no invemo o fogo da sua casa não fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entanguir gente, que a sua porta não se abria; no verão a sombra dos seu umbus só abrigava os cachorros; e ninguém de fora bebia água das suas cacimbas.
Mas também quando tinha serviço na estância, ninguém vinha de vontade dar-lhe um ajutório; e a campeirada folheira não gostava de conchavar-se com ele, porque o homem só dava para comer um churrasco de tourito magro; farinha grossa e erva-caúna e nem um naco de fumo... e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu próprio couro que ele estava lonqueando...
Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino como uma mosca, para um bafo cabos- negros, que era o seu parelheirode confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carvio e a quem todos chamava somente o - Negrinho
. A este não -deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afiIhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.
Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarrão e à tarde sofria os maus tratos do menino, que o judiava e se ria.
Um dia, depois de muitas negaças, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que não, que não? que a parada devia ser do dono do cavalo que ganhasse. E trataram: o tiro era trinta quadras, a parada, mil onças de ouro.
No dia aprazado, na concha da carreira havia gente como em festa de santo grande.
Entre os dois parelheiros a gauchada não sabia se decidir, tão perfeito era e bem lançado cada um dos animais. Do baio era fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que só se ouvia o barulho, mas não se Ihe viam as patas baterem no chão... E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais aguente, e que desde a largada ele ia ser como um laço que se arrebenta...
As parcerias abriram as guaiacas, e aí no mais já se apostavam aperos contra rebanhos e redomões contra lenços.
- Pelo baiol Luz e doble!...
- Pelo mourol Doble e luz!...
Os corredores fizeram as suas partidas à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta...
- Empate! Empate! gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como uma colhera.
- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora! gemia o Negrinho. Se os sete-léguas perde, o meu senhor me mata! Hip! hip! hip!...
E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.
- Se o corta-vento ganhar é só para os pobres!... retrucava o outro corredor. Hip! hip!
E cortava as esporas no mouro.
Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera. Quando foi na última quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tirões.., mas sempre juntos, sempre emparelhados.
E as duas braças da raia, quase em cima do laço, o baio assentou de supetão, pós-se em pé e fez uma cara-volta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passa, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de em um ginetaço.
- Foi mau jogo! gritava o estancieiro.
- Mau jogo! secundavam os outros da sua parceria.
A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de um torena coçou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, maisn de um virou as esporas para o peito de pé... Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sepé-Tiarajú, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo. Abanando a cabeça branca sentenciou, para todos ouvirem:
- Foi na le! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha.buscá-las. Foi na lei!
Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o estancieiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.
E foi um alegrão por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros e leiteiras, côvados de baeta e baguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio. Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia.
O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.
E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:
- Trinta quadras. tinha a cancha da carreira que tu perdeste: trinta dias ficará aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficas de estaca!
O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.
Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem força nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim.
Vieram então as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.
O Negrinho tremia, de medo... porém de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.
E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias; a estrela-d'alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejam o Negrinho e cortaram a guasca da sogra. O bafo sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio.
Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.
O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.
E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua,madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.
Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta -ia pingando cera no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareavarn tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, até a coxilha que o seu senhor Ihe marcara.
E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu...
Gemendo, gemendo; o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagamm-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxúns ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, fiIho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas.
O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá...
E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...
O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos, a um palanque e dar-lhe, dar-Ihe uma surra de relho... dar-lhe até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...
E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-Ihe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.
Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro.., e que tudo isto cabia folgado dentro dem um formigueiro pequeno...
Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.
Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.
A peonada bateu o campo, porém, ninguém achou a tropilha e nem rastro.
Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.
Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!...
O Negrinho, de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos.., e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a têm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu...
Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.
E o Negrinho, sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.
E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.
Correu no vizindário a nova dó fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.
Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...
E era, que os posteiros e os andantes, os que dormiam sob as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passa, como levada em pastoreio, uma tropilhade tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em pêlo, em um cavalo baio!...
Então, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.
Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita às formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se; e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do so do terceiro dia, o baio relincha perto do seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.
Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas. O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados,. pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luzele leva para o altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm.
Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo - Foi por aí que eu perdi...
Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi!...
Se ele não achar: ninguém mais.
etudando
sao borja ex-missão jesuíta de São Francisco de Borja foi um dos tubos de ensaio para o ditador Solano Lopes fazer a Guerra do Paraguai. Em 1865, uma coluna com cerca de 12 mil homens invadiu a terra natal de Getúlio Vargas. Sem reação à altura, as forças estrangeiras ocuparam a cidade por 10 dias. A tomada do município assustou o governo imperial e serviu de estopim para a entrada definitiva dos brasileiros num dos maiores confrontos armados da América do Sul.
Os planos de conquistar o Rio Grande do Sul começaram cedo. Por volta de 1847, quando ainda era tratado de El Generalito, Solano Lopes invadiu a província argentina de Corrientes. Sem ser reconhecido, atravessou o rio Uruguai e verificou as condições de combate em algumas fazendas do interior de São Borja. Quase 20 anos mais tarde, o projeto de invasão foi concluído.
Depois de ocupar o sul da Província do Mato Grosso, o comandante paraguaio decidiu avançar em direção ao território gaúcho. No início de 1865, seu exército contava com mais de 60 mil homens e um grande estoque de armamento e munição. Sob o comando do coronel Antônio de la Cruz Estigarribia, uma coluna com cerca de 12 mil soldados partiu rumo ao Sudeste. A missão: invadir o Rio Grande do Sul e o Estado Oriental do Uruguai.
Mesmo alertado sobre a intenção do inimigo, o chefe das forças da fronteira, coronel Antônio Fernandez Lima, não acreditou na rapidez dos paraguaios e permaneceu com seus 2 mil homens no Passo da Pedra, metade do caminho entre Itaqui e São Borja. Pouco mais de 650 homens tentaram defender a cidade quando os adversários iniciaram a travessia do rio no Passo de São Borja. Eram 10h do dia 10 de junho de 1865.
Depois de quatro horas de luta, os defensores receberam o auxílio do 1o Batalhão dos Voluntários da Pátria, comandado pelo coronel João Maunel Menna Barreto. O reforço de última hora deu uma sobrevida à resistência brasileira. Estigarribia demorou dois dias para dominar a cidade. Controlada a situação, o coronel paraguaio ordenou o saque das casas. A derrotada e assustada São Borja estava deserta.
Como o alvo de Solano Lopes era Uruguaiana (de onde pretendia alcançar o Uruguai e unir forças com Aguirre), Estigarribia não permaneceu muito tempo na cidade. No dia 19 de junho, o ex~ercito paraguaio partiu. O prõximo destino seria Itaqui.
Isolada do teatro das operações, o palco da Guerra do Paraguai não precisou ser reconquistado. Havia sido abandonado por seus próprios atores.
Dinastia Vargas detém o poder
Em algum momento das vidas de Viriato, Protásio, Spartaco e Benjamin, ser irmão de Getúlio Vargas falava mais alto. Com certeza, mais positiva do que negativamente. Graças à trajetória política do filho do meio do general Manoel do nascimento Vargas, a família manteve-se no poder político de São Borja durante várias décadas. Valendo-se de estratégias diversas, os quatro Vargas e seus homens de confiança ficaram na fronteira controlando o rebanho eleitoral. Interrompida apenas pela ditadura militar, a família sempre indicou ou foi consultada na escolha dos governantes de São Borja. "Os trabalhistas estiveram na prefeitura do início do século até 1988", afirma o ex-prefeito Florêncio Guimarães, 71 anos, um dos fundadores do antigo PTB. "Até a morte de Getúlio, todos eram membros da família ou amigos dele", acrescenta.
O estadista mais controvertido da história brasileira e o comportamento de seus irmãos ofuscaram até a imagem do pai. Veterano da Guerra do Paraguai e da Revolução Federalista de 1893, Manoel foi o primeiro Vargas a comandar o município. "A força do general nunca chegou aos pés do domínio dos filhos", considera o pesquisador Timótheo Ávila, 60 anos.
Depos de governar de 1907 a 1911, o cetro do pai passou para o filho mais velho. Durante o mandato do coronel Viriato Vargas (1911-14), São Borja assistiu a um grande número de perseguições políticas. A situação era tão delicada que Viriato chegou ao ponto de se exilar na Argentina depois de ser acusado como mandante do assassinato de um médico.
Quando Getúlio saiu da Revolução de 30 como presidente da República, a cidade virou o quintal dos Vargas. Sob o comando de Benjamin "Beja" Vargas, o 14o Corpo Provisório tornou-se o braço armado do poder. "Eles reprimiam qualquer tipo de manifestação de oposição atuando como defensores das idéias da família", conta Ávila. Anos depois, um dos soldados mais temidos tornou-se chefe da guarda pessoal do presidente. Seu nome: Gregório Fortunato.
O primeiro dos sete retornos
Na liderança de 1.952 pessoas, o padre jesuíta Francisco Garcia atravessou o Rio Uruguai para fundar uma colônia em sua margem esquerda. O aldeamento pertenceria à redução de Santo Tomé. Foi batizado de São Francisco de Borja. O ano era 1682. Este seria o primeiro de uma série de sete retornos que trariam de volta ao solo gaúcho os guaranis catequizados pela Companhia de Jesus. Quase 50 anos antes, os bandeirantes paulistas haviam expulsado os índios para o lado argentino.
Formada por famílias educadas e integradas ao trabalho, a colônia se desenvolveu rapidamente. Com a volta dos habitantes de outras reduções em 1687, o povoado recbeu a autorização para caminhar com suas próprias forças. Nasciam os Sete Povos das Missões Orientais do Uruguai.
O mineiro seduzido pela fronteira
Poucas cidades no Estado devem seu surgimento aos farroupilhas quanto Uruguaiana. Numa época em que a ocupação da região não passava de algumas fazendas espalhadas pelas grandes extensões de terra, coube ao farroupilha e ministro da Fazenda do governo de Bento Gonçalves, Domingos José de Almeida, a idéia de fundar um povoado estratégico na fronteira com a Argentina.
Ao examinar o local para a instalação do novo povoado, Domingos José de Almeida escreveu, em 1841: "Oferece uma excelente posição militar que para o futuro poderá fazer grande peso na balança política e comercial com nossos vizinhos." Nascido em Diamantina, Minas Gerais, em 1797, Almeida migrou para o Estado ainda jovem, com 22 anos de idade, para conduzir tropas de mula a serem vendidas no centro do país.
Encantado com a terra e a gente do Sul, o mineiro resolveu se instalar na cidade de Pelotas, onde logo abriu um escritório destinado à venda de charque para o centro do país e para o Exterior. Poucos anos depois, tornou-se proprietário de uma pequena charqueada às margens do rio São Gonçalo, o que fez dele um dos cidadãos mais prósperos de Pelotas nessa atividade.
O professor Vanderlei Rodrigues comenta que um dos traços mais característicos de Almeida era sua convicção liberal. "Almeida acompanhava todos os movimentos de cunho liberalista que ocorriam no Brasil", explica o professor. Em 1822, tirou dinheiro do próprio bolso e custeou uma manifestação pública em Pelotas para comemorar a Independência do Brasil.
Além de liberal, Almeida era homem preocupado com a escolaridade da população. Enquanto deputado na Assembléia Provincial, em Pelotas, lançou a campanha de alfabetização da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O então deputado inconformava-se com o fato de o Paraguai contar com 408 escolas públicas e a província local não ter nenhuma.
Estátua para o homem das carretas
Começa a Revolução Farroupilha e Domingos de Almeida recebe uma tarefa dos amigos: organizar, além do parque bélico farrapo, na cidade de Pelotas, a fábrica de arreamento para a cavalaria. Os exércitos de deslocavam (Piratini, Caçapava, Alegrete), e ele movimentava os arquivos do governo e o seu arsenal pela Campanha gaúcha sempre em carretas.
"Por isso a revolução era chamada de República das Carretas", diz o professor Vanderlei Rodrigues. Em 1840, diante do cerco das milícias imperiais aos farrapos, Almeida determina a criação de uma planta para a nova povoação que viria a ser Uruguaiana. Como ministro da Fazenda da República Riograndense, queria uma vila de apoio ao comércio com Buenos Aires. As forças imperiais haviam conquistado as cidades de Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, cortando o intercâmbio comercial desses entrepostos com o interior da Província.
Em 1846, Uruguaiana é fundada. Almeida morreu aos 74 anos, em 1859, em Pelotas. Uruguaiana retribuiu seus gestos com uma estátua em praça pública.
A cidade ganha o reforço do capital estrangeiro
O saladeiro que hoje se desmancha em ruínas no extremo oeste do Estado, na localidade de Barra do Quaraí, na fronteira com o uruguai, é o que sobrou da principal atividade produtiva de Uruguaiana do começo desse século. Marca de um passado de pujança econômica, o Saladeiro Quaraí foi uma das principais indústrias da região entre 1887 - quando foi inaugurado - e 1947, ano de seu fechamento.
A data culmina com o surgimento dos primeiros frigoríficos do Estado. Até a década de 30, charqueadas como o Saladeiro Quaraí foram responsáveis pelo crescimento econômico da região.
Numa época em que Uruguaiana carecia de outros empreendimentos, a instalação do saladeiro foi responsável por uma série de benefícios para a região. O professor de história Hamilton Rodrigues comenta que o saladeiro instalado na Barra do Quaraí era um dos maiores da região e recebia investimentos de capital estrangeiro.
"A sua instalação na fronteira com Uruguai e Argentina era estratégica, pois, além de receber gado uruguaio para abate, todo o escoamento da produção era feito por ferrovias até Montevidéu, onde seguia para o Exterior", explica.
Rodrigues observa que os investimentos de capital privado deram um impulso à economia e à infra-estutura da região. A ligação ferroviária entre Uruguaiana e Montevidéu, a instalação de uma indústria de velas e sabão para aproveitanemtno de subprodutos do abate de gado e uma fábrica de queijos surgiram a reboque dos saladeiros. Rodrigues lembra que o negócio era altamente rentável no ano de 1900. "O saladeiro da Barra do Quaraí chegou a abater 3000 mil cabeças de gado naquele anos para abastecer o mercado externo", conta.
Uma das últimas testemunhas vivas daquele tempo, o uruguaio Marcelino Silva, 84 anos, recorda os tempos em que estendia os charques no varais. "Era uma época de fartura. Abatíamos 300 cabeças de gadopor dia numa jornada que começava ás 3 horas da manhã e se estendia té o final da tarde", lembra. Silva recorda que trabalhavam ali cerca de 150 empregados, além de centenas de tropeiros que conduziam as tropas de gado de toda a fronteira. "Havia até uma banda para diversão dos empregados com maestro inglês", diz o aposentado.
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Uruguaiana - aspectos da fundação - gentileza de Luiz Felipe Menezes Silva - Fonte de pesquisa: URUGUAIANA, Imagem viva da terra gaúcha - Câmara Municipal
A cidade de Uruguaiana foi fundada por Domingos José de Almeida, Mineiro, nasceu a 09 de julho de 1797 no distrito de Diamantina, em Minas Gerais.
Domingos José de Almeida veio para o Rio Grande do Sul para fazer fortuna no negócio de mulas, que seriam vendidas em São Paulo e Minas Gerais, fixou residência em São Francisco de Paula (atual Pelotas), onde juntou-se ao movimento do Farroupilhas em 1835.
A nossa cidade foi fundada pela necessidade de um ponto de apoio ao exército revolucionário, e para controle desta região que se ressentia da falta de segurança, visto que agiam nestas fronteiras grupos de bandoleiros, sendo escolhido para tal missão o cidadão Joaquim dos Santos Padro Lima, isto feito pelo Ministro da Fazenda Domingos José de Almeida. Foi escolhido um ponto estratégico entre a barra do Ibicuí e o passo de Santana Velha. Ali, na confluência do Guarapuitã com o rio Uruguai, formou-se um acampamento militar, e juntamente um conjunto de aproximadamente 100 ranchos, porém não havia nenhuma capela. Em 1839 surge a idéia de transferir a povoação para um lugar mais seguro, visto as enchentes freqüentes no local.
Na época era comandante militar desta fronteira o General Davi Canabarro, e teve importante influencia na decisão da escolha da mudança da povoação. O novo local escolhido foi a coxilha do Capão do tigre a poucos quilômetros dali, terra que pertencia a Couto Rico, surge então a povoação de Uruguaiana às margens do Rio Uruguai, formada por pessoas vindas de vários recantos da província.
Como estas terras pertenciam ao município de Alegrete, o General Bento Gonçalves da Silva, então Presidente da Província de Peratini, sanciona por decreto de 24 de Fevereiro de 1843 autorização para instalação de uma Capela Curada no local e a imediata transferência das moradias do passo de Santana Velha, como também a construção de um posto fiscal e prédio para posto de milícias. Pelo decreto fica determinado que o nome da nova povoação será "CAPELA DO URUGUAI".
Por lei provincial nº 58 de 29 de maio de 1846 a povoação de Santana foi elevada a categoria de vila, que se chamará URUGUAIANA, sendo assim o território desmembrado de Alegrete, e em 24 de abril de 1847, uma comissão veio a vila para instalação do novo município e também da primeira Camará Municipal, tendo como presidente da mesma e do governo do município o vereador Venâncio José Pereira.
Por lei nº 808 de 06 de abril de 1874 a Uruguaiana foi elevada a categoria de Cidade. A lei foi assinada pelo Bacharel João Pedro Carvalho de Morais, então Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
No ano seguinte por lei nº 865 de 29 de março de 1875, foi ciada a COMARCA DE URUGUAIANA. Até esta data Uruguaiana, juntamente com Itaqui, Cruz Alta e São Borja, pertenciam a Comarca de Alegrete.
De janeiro de 1890 a junho de 1892 governou o município de Uruguaiana uma comissão de intendentes formada por cidadãos de destaque na vida do município constituida por Dr. Joaquim Vaz do Prado Amaral, Dr. Antônio Gomes Pereira, João Saturnino Reis, Vitor Pereira da Silva e Urbano José Vilela. A 27 de Outubro de 1892, Uruguaiana tem aprovado seu Conselho Constituinte e a sua Lei Orgânica, e através dela foi nomeado o Coronel Gabriel Rodrigues Portugal como primeiro Intendente para o quadriênio seguinte, este governou de 1892 a 1900.
Hino de Uruguaiana
Letra e música: Silvio Rocha
Uruguaiana
Feliz tu nascestes
À beira de um rio
Sorrindo ao luar
Uruguaiana
Cidade alegria
Ouve a melodia
Deste meu cantar
É um canto modesto
Que é o manifesto
Do meu coração
Ele quer adorar-te
Pois tu fazes parte
Do nosso torrão
No jardim do meu país
És também uma flor
O teu povo é feliz
Vivendo neste esplendor
Cidade fronteira
És toda coberta
De um céu cor de anil
Tens a honra mais bela
De ser sentinela
Do nosso Brasil
Bandeira de Uruguaiana
Taquara nasce nas terras de Tristão
O governo imperial não foi o único agente na colonização do nordeste do Rio Grande do Sul. Em algumas regiões, a tarefa de assentar famílias de imigrantes europeus em terras selvagens também ficou a cargo de proprietãrios de sesmarias.
Em Taquara, o responsável pela venda dos lotes era Tristão José Monteiro. Dono de grandes áreas na zona de São Leopoldo, ele comprou a sesmaria de Antônio Borges de Ameida Leães.
"Tristão veio para cá com a intenção de colonizar", afirma o pesquisador Adelmo Trott, 75 anos. Agrimensor (medidor de terras) por profissão, Tristão tratou logo de demarcar os terrenos de 48 hectares.
Em 4 de setembro de 1846, a colônio Mundo Novo estava pronta para ser ocupada. Faltava apenas encontrar os colonos que povoariam as margens dos taquarais do Rio dos Sinos. Missão que não foi muito difícil para um homem bem informado.
Cerca de duas décadas antes, a imperatriz Leopoldina havia tentado estabelecer imigrantes alemães no sul do Brasil para produzir linho-cânhamo (fibra vegetal utilizada na manufatura de tecidos). o projeto tinha fracassado porque a planta não se adaptara ao clima local. Os alemães ficaram sem perspectivas.
Foi no meio deste naufrágio que Tristão lançou seu salva-vidas. Acenando com um preço acessível por lote (300 mil réis) e solo fértil, o sesmeiro conseguiu vender seu peixe para centenas de imigrantes da colônia de Sâo Leopoldo. As primeiras sete famílias chegaram no dia 7 de setembro de 1846.
Durante os primeiros anos, os alemães procuravam trabalhar em sistema de mutirão para evitar o ataque de um inimigo feroz. Antigos donos da terra, os bugres que habitavam a região promoviam massacres para espantar os invasores.
Em 1852, Pedro Wartenpuhl foi morto por índios que sequestraram sua mulher, a filha e dois netos. Apesar das ameaças, os imigrantes provenientes da região do Hunsrück gostaram do que viram. As colônias ficavam na confluência de dois rios (Sinos e Paranhana) e eram cercadas por elevações (Encosta Inferior do Nordeste).
Não foram necessárias mais que algumas visitas às antigas colônias para que os moradores do Mundo Novo atraíssem novo interessados nos lotes reservados aos colonizadores. "Dez anos depois, aproximadamente 400 famílias já moravam em Taquara", calcula Trott. Dali integrantes destes grupos pioneiros sairiam mais tarde para estabelecer as primeiras raízes de Canela e Gramado.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Santa Maria
Um posto indígena, pertencente a uma das estâncias missioneiras, seria a origem de Santa Maria, segundo Hemetério José Veloso da Silveira. No entanto, José de Saldanha, engenheiro e astrônomo da Comissão Demarcadora de Limites entre Portugal e Espanha, instituída pelo Tratado de Santo Ildefonso (1777), não fez, em seu diário resumido, nenhuma referência à existência de qualquer povoamento de índios ou brancos.
Em 15 de abril de 1787, Saldanha chegou e acampou na margem ocidental do passo sobre o arroio de Santa Maria, hoje Passo da Areia, denominando o local como "Rincão de Santa Maria".
Em 1789, Francisco Antônio de Amorim recebeu em sesmaria o Rincão de Santa Maria, vendendo-o, em seguida, ao padre Ambrósio José de Freitas, que em 1794, com permissão do bispo do Rio de Janeiro, oficia missa no oratório de sua estância, localizada às margens dos arroios Santa Maria e dos Ferreiros, atualmente denominados Cadena e da Ferreira.
No ano de 1789 o território atual do município foi quase totalmente dividido em sesmarias e, em consequência de desentendimentos ocorridos entre os demarcadores espanhóis e portugueses, a Segunda Sub-Divisão da Comissão Demarcadora de Limites, chefiada por Francisco João Róscio, instalada em Santo Ângelo das Missões, recebe ordens de recolher-se à proteção da Guarda Portuguesa, instalando-se em novembro de 1797 em área da estância do padre Ambrósio, local onde hoje se encontra a rua do Acampamento, dando origem assim a antiga denominação do município: Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte.
Agosto de 1801 assinala a extinção da Comissão Demarcadora, bem como a retirada da maioria de seus componentes. Pouco a pouco os ranchos do Acampamento vão se modificando, transformando-se em construções mais sólidas, nas primeiras ruas, a de São Paulo ou Acampamento, a Pacífica, hoje Dr. Bozano, e a estrada da Aldeia, mais tarde avenida Ipiranga e hoje Presidente Vargas.
Junto com o progresso, chega a luta contra os orientais e Santa Maria passa a ser um centro de atividades militares e de comércio.
O Oratório do Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte foi elevado a Curato em 28 de julho de 1810 e provido a 27 de julho de 1812 o padre Antônio José Lopes como cura, tomando posse somente em 21 de janeiro de 1814.
Com a elevação de Cachoeira a categoria de vila e município, em 26 de abril de 1819, Santa Maria passou a constituir seu 4º distrito, que estava dividido em dois sub-distritos: Santa Maria e Pau Fincado.
Em abril de 1812, o sábio e naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, ao visitar o povoado, contou cerca de 30 casas, mas o primeiro censo só foi feito cinco anos depois, apontandop a existência de 304 prédios e cerca de dois mil habitantes.
Com o estacionamento do 28º Batalhão de Estrangeiros em 1828, seguido pelo 1º Batalhão em 1831, os quais eram constituídos de alemães assalariados para a luta contra os orientais, muitos de seus membros aqui ficaram ao dar baixa, atraindo desta forma novos colonos germânicos de São Leopoldo e municípios vizinhos.A Revolução Farroupilha inicia em 1835 e o povoado começa a sofrer o êxodo e a intranqüilidade. Neste período é elevado a categoria de Freguesia de Santa Maria da Boca do Monte., em 17 de novembro de 1837.
Em 16 de dezembro de 1857 é elevada a categoria de vila, emancipando-se de Cachoeira. Mas somente em 17 de maio de 1858 foi solenemente instalada sua primeira Câmara Municipal, presidida pelo coronel José Alves Valença e integrada por João Tomás da Silva Brasil, João Pedro Niederauer, Maximiano José Appel, Veríssimo de Oliveira, Francisco Pereira de Miranda e Joaquim Moreira Lopes.
A 6 de abril de 1876 foi elevada a cidade, sofrendo, como outros municípios, a crise resultante da guerra e das lutas políticas entre conservadores e liberais, no derradeiro período do Império.
Hoje, com uma população de aproximadamente 250 mil habitantes, Santa Maria é uma das maiores cidades do Rio Grande do Sul e um importante centro militar e estudantil do Brasil.
São Marcos
(17/02/1834)
A denominação São Marcos aparece, pela primeira vez, num documento de 1790, referente a Fazenda Souza. O rio, que é um dos limites do território, é chamado de São Marco. A mesma denominação recebe um potreiro que está na região.
O teor deste documento, a expressão "Marco" que pode ter derivado do castelhano e a presença de jesuítas espanhóis na região nos levam à hipótese de que estes teriam denominado o rio, e o rio deu o nome à região e, posteriormente, à colônia.
Através do tempo, o atual território de São Marcos foi conhecido por diferentes nomes: Sesmarias Palmeiras, Fazenda das Palmeiras dos Ilhéus ou Fazenda dos Ilhéus, Invernada da Pedra Branca ou do Morro da Canastra, Invernada do Ranchinho ou Fundos do Ranchinho, Núcleo Colonial São Marcos e Colônia São Marcos, São Marcos de Cima da Serra, Curato São Marcos, São Marcos dos Polacos, São Marcos de Caxias, até chegar definitivamente à denominação "São Marcos" a partir de sua emancipação em 9 de Outubro de 1963.
Antes de sua emancipação São Marcos pertenceu à: Santo Antônio da Patrulha, São Francisco de Cima da Serra, Taquara, e Caxias do Sul.
Os limites do município são: a Norte, Vacaria, a Sul, Caxias do Sul, a Leste, Caxias do Sul, a Oeste, Antônio Prado e Flores da Cunha. Sua área é de 263,7 km2, com altitude de 830 metros. Seu clima é temperado com frio intenso. Tem como relevo imensos derrames basálticos do Planalto Meridional com profundos vales, sendo uma região bastante acidentada ao lado Oeste enauqnto a Leste tende a suavizar com o início da zona do campo. Sua vegetação é de matas subtropicais composta por: cedros, guabijus, carvalhos brasileiros, cerejeiras do mato, guaçatunga, uvaia, canela lajeana, pitangueiras, tarumãs, araucárias, corticeiras da serra, angicos, sete sangrias, ipês amarelos, goiabeiras da serra, coqueiros, acácias, iliotis e ligustros. A hidrografia é formada pelo Rio das Antas, São Marcos, Redondo, Arroio Studulski e Arroio Timbori.
O núcleo colonial São Marcos foi fundado em 1885 por imigrantes italianos que chegaram às margens dos Rios São Marcos e das Antas (localidade de Linha Riachuelo, onde fala-se o dialeto mais antigo que existe no mundo; Linha Humaitá, Marechal Deodoro e Zambicari). Porém somente a partir de 1891 começaram a chegar os Poloneses que estabeleceram-se na localidade de Santo Stanislau / Linha Rosita, Santo Henrique e Edith). Não se pode ignorar também o grande número de nacionais (peões de fazenda, capatazes, ex-escravos, aventureiros e mesmo agricultores açorianos vindos de São Paulo) que aqui se estabeleceram. Os negros também marcaram presença na formação do povo são-marquense (concentraram-se nas localidades do Juá e Rincão dos Quilombos (este, próximo ao Rio da Mulada).
Comumente, se afirma terem os poloneses, os italianos e os lusos os primeiros habitantes de São Marcos. A tendência é ignorar ou omitir os indígenas, embora existam aspectos que facilmente se identificam com essa cultura, em algumas localidades da cidade.
Os imigrantes que vieram para São Marcos empreenderam essa viagem após meses de espera no barracão de Caxias, pois tinham esperança de receber um lote, por lá mesmo. O caminho para o núcleo São Marcos passava pelo atual município de Flores da Cunha, descia a encosta do rio São Marcos e cruzava o rio na localidade hoje denominada Capela de Santo Antônio do Zamoner. Vinham a pé, a cavalo e em cargueiros. O transporte era pago pelo governo, que distribuia lotes para os mesmos.
Não havia estradas que chegassem até o núcleo, apenas as que serviam a região do campo. A primeira estrada foi aberta em 1890, passando por Flores da Cunha para chegar até Caxias. Em 1907 iniciaram a construção da estrada que ainda hoje liga São Marcos à Flores da Cunha e Antônio Prado. Em 1916 já estavam em andamento as obras da estrada que hoje liga São Marcos `a Caxias do Sul. Somente ao final da década de 30 é que o governo do estado planeja construir a BR 116, o que foi fundamental para o desenvolvimento da cidade.
A partir de 1907 até 1917 o movimento migratório acentuou-se e em pouco tempo praticamente todos os poloneses migraram para o Vale do Alto Uruguai e do Rio do Peixe.
A economia são-marquense está fundamentada na agricultura (é o maior produtor de alho do estado, uva e hortifrutigranjeiros), indústria (metalúrgica, calçadista, moveleira, vitivinícola e fibra de vidro), comércio e serviços (neste incluído o transporte de cargas, São Marcos é a cidade brasileira que possui o maior número de caminhões per capita, conhecida como a "CAPITAL DOS CAMINHONEIROS" ) hoje com aproximadamente 20.000 habitantes.
Podemos citar como eventos que acontecem no município, dentre outros: Musimarco, Marcoarte, Rodeio Crioulo Nacional de São Marcos, Marcofest, Festa de Nossa Senhora Aparecida e dos Motoristas. Tem como pontos turísticos: Morro do Calvário, Igreja Matriz e Gruta Nossa Senhora Aparecida, Igreja São Luiz, Museu Municipal, dentre outros.
Origem: extraído de História de São Marcos, de Luiz Rizzon e Osmar Possamai e contribuição da Prefeitura de São Marcos, gentileza de Bernardete Angela Manosso
São Leopoldo
(24/07/1846)
Um vale com a marca dos alemães
O desenvolvimento do Vale do Sinos iniciou-se com os alemães que chegaram à região em 24 de julho de 1824, data em que se comemora a fundação de São Leopoldo.
A idéia de trazer imigrantes da Alemanha surgiu porque eles não estavam ligados a nenhuma invasão do país, que havia alcançado a independência de Portugual recentemente. Até então, o local onde os primeiros 39 imigrantes se instalaram era conhecido apenas como Feitoria do Linho-Cânhamo, de propriedade do governo português e desativada quatro meses antes. Os colonos chegaram em busca de terras e de uma vida melhor e batizaram o lugar de Colônia Alemã de São Leopoldo em homenagem ao padroeiro da imperatriz Leopoldina.
Em dezembro de 1824, o presidente da província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, mais tarde Visconde de São Leopoldo, visitou a colônia e previu que próximo ao local utilizado para atravessar o Rio dos Sinos, onde hoje é o centro da cidade, haveria enchentes. Fernandes Pinheiro escolheu a Floresta Imperial, distante da outra margem, local onde está Novo Hamburgo, para ser a sede.
O administrador das terras, José Thomaz de Lima, não tinha interesse na transferência por causa da localização de suas terras. Com a mudança, perderia o controle da colônia. A sede acabou ficando inalterada, mesmo com enchentes. Em 1828, os alemâes construíram uma capela onde hoje é a Igreja Matriz e o local foi tomando aspecto de povoado.
A produção agrícola se desenvolveu e, em poucos anos, a colônia abastecia a Capital. Os produtos eram levados pelo Rio dos Sinos. Além da atividade agrícola, os alemães eram artesãos. Trabalhavam com madeira, couro, ferro e fibras, e formaram as bases da industrialização no Rio Grande do Sul.
Os produtos confeccionados pelos seleiros de São Leopoldo eram "sehr gut" (muito bons). Da expressão surgiu a expressão serigote, tipo de sela utilizada pelos gaúchos dos Campos de Cima da Sera, região de São Francisco de Paula.
Os colonos não são responsáveis só pelo desenvolvimento da colônia. Construiram escolas (Gemeindeschule). Em 1938, já existiam mais de mil, o que explica o baixo índice de analfabetismo no Estado.
Os alemães, apreciadores da vida em grupo, também foram os responsáveis pela proliferação de sociedades de canto, tiro e bolão. Fundada pelos colonos em 1858, a Sociedade Orfeu, em São Leopoldo, é uma das mais antigas do Brasil.
Sede da colônia alimentava a Capital
À base de trabalho árduo, principalmente dos colonos alemães, na virada do século 20, o município de São Leopoldo representava um importante parceiro comercial de Porto Alegre.
Fornecia produtos agrícolas e gado de corte para alimentar os habitantes da Capital. O Rio dos Sinos, apesar da existência de ferrovia desde 1875, era o principal canal de ligação entre as cidades. Nesta época, a sede da colônia alemã - São Leopoldo - contava com três núcleos: o Paço Real, onde hoje fica o centro, a Feitoria, e a Cidade Nova (atual bairro Rio dos Sinos).
São Leopoldo adquiriu status de cidade em 1864, mas no início do século ainda preservava o território da colônia alemã: 1,2 mil quilometros quadrados, mais de 10 vezes a área atual. A cidade se estendia de Sapucaia, ao sul, até o Campo dos Bugres (hoje Caxias do Sul), ao norte, de Taquara, ao leste, e Montenegro, a oeste. Eram as terras situadas entre os rios dos Sinos e Caí.
A rua principal já era calçada e contava com 115 lampiões a querosene na iluminação pública. Um funcionário da Intendência, munido de escada, os acendia todos os dias meia hora antes de anoitecer e os apagava na manhã seguinte. Como o meio de transporte era formado por cavalos e carroças, as calçadas contavam com argolas para prender os animais. A Feitoria representava a sede agrícola da cidade.
A construção da ponte 25 de Julho, em 1873, ajudou a desenvolver a região e permitiu a criação da Cidade Nova na outra margem do Rio dos Sinos. O local logo foi tomando a característica de pólo industrial, com a implantação de fábricas de chapéu, cerveja, champanha e cerâmica, entre outras. Em 1897, o intendente Epifânio Fogaça instituiu o aguadeiro municipal, que operou até a construção da hidráulica, 29 anos depois. O produto era distribuído em baldes.
Antonio Bernardes trabalhava como capitão da embarcação que fazia a linha São Leopoldo-Porto Alegre, pelo Rio dos Sinos. na virada do século, os dois vapores da Navegação Pedro Blauth & Cia levavam seis horas para concluir o percurso.
A filha do "prático do vapor", como era chamado Bernardes, Nair Bernardes de Souza, 78 anos, lembra que o pai nunca podia dormir no dia de folga. "Todos os domingos meu pai tinha que acordar cedo para libertar os marinheiros - muito bagunceiros - na delegacia", recorda Nair. enquanto mostra fotos dos tempos antigos. A avó de Nair, Alexandra Gonçalves, nascida em 1861, era uma renomada lavadeira. "O posto da vó Alexandra era o mais privilegiado e ela lavava roupas para a Casa Lang", orgulha-se a neta, que chegou a trabalhar com a vó, nos anos 20.
Alexandra, assim como as outras lavadeiras da cidade, era defendida pelo código de postura em vigor na virada do século, que proibia os cidadãos de zombarem das trabalhadoras enquanto buscavam as roupas na casa dos clientes. Cavalgar a galope na rua principal também se constituía uma falta grave. "Se o infrator fosse um negro, era preso e solto somente quando o seu patrão pagasse a multa", conta o historiador Telmo Lauro Müller.
Médico virou líder comunitário
O imigrante João Daniel Hillebrandt chegou a São Leopoldo em 9 de novembro de 1824. Com 24 anos e formado em Medicina, asusmiu a liderança da colônia por meio século. Homem simples e bondoso, obteve o reconhecimento como médico humanitário.
Defendeu os colonos principalmente durante a batalha do Paço do Rosário, em 1827, e coordenou a resistência aos revolucionários na Guerra dos Farrapos. Solteiro, enquanto muitos, inclusive médicos, fugiam da cidade durante a epidemia de cólera, em 1855, ele permaneceu e construiu um pequeno hospital.
Falecido em 1880, é até hoje homenageado. Hillebrandt lutou ao lado do Império durante a Revolução Farroupilha. Quando os revolucionários invadiram a colônia, em 1836, o líder se obrigou a fugir para Santa Maria do herval, onde ficou até o final da guerra.
Santana do Livramento
Uma festa para a criação da alfândega
A criação da alfândega de Santana do Livramento foi saudada com fogos de artifício em 10 de outubro de 1900. Menos de quatro meses antes, a cidade não sabia se o seu comércio sobreviveria mais alguns dias. Foi preciso uma campanha pública que envolveu os grandes comerciantes e as autoridades do município para que um ato do governo fosse revisto em favor dos negócios locais. O recebimento de artigos europeus com preços vantajosos em Livramento sempre foi garantido pela proximidade do porto de Montevidéu. "As mercadorias faziam concorrência com as praças comerciais do litoral do Rio Grande", diz o historiador lvo Caggiani, 64 anos. Mais do que simples competidores, os empresários da fronteira eram taxados de contrabandistas pelos varejistas de Porto Alegre, Pelotas e outros centros importantes.
A grita logo chegou aos ouvidos do ministro da Fazenda. Pressionado, ele resolveu limitar as zonas para a expedição de guias por parte das estações fiscais de fronteira. O choque paralisou a cidade e ressuscitou o contrabando de Rivera - a cidade uruguaia da fronteira - que havia sido quase dizimado desde a fundação da alfândega de Uruguaiana. Num passado não muito distante, Rivera colocava anualmente na província brasileira 3 mil contos de réis em mercadorias ilegais (cerca de 30 vezes o valor de uma boa casa).
"Sempre foi fácil importar pelo porto de Montevidéu e trazer os produtos por trem até Rivera", diz Caggiani. As denúncias de contrabando e o fechanento das zonas de expedição das guias fiscais, que já durava 10 anos, calaram fundo nos brios dos comerciantes fronteiriços. Além de aumentar em pelo menos 20% o preço final das mercadorias (valor do frete), onerando empresários e consumidores, o Estado havia recriado com força a figura do contrabandista.
Para dar um fim às acusações e retomar os negócios, em 1898 o jornalista Albino Costa desencadeou um movimento que exigia do império o alfandegamento da Mesa de Rendas Federais.
No dia 6 de agosto do ano seguinte, o jornalista radicado no Rio de Janeiro mandava novidades por telegrama: "AIfandegamento concedido. Realizamos aspirações comércio. Parabéns. Albino Costa". Recebida com foguetes e bombas, a boa notícia chegava quase três anos depois de uma outra que acabou se concretizando apenas em 1900.
No dia 14 de novembro de 1896, através do decreto 417, o governo havia criado a Alfândega de Livramento. Graças ao lobby de Porto Alegre e outra praças, o projeto não saiu do papel. Com o alfandegamento, a idéia voltou à tona. Dois meses mais tarde, os fogos voltaram a estourar na vizinha brasileira de Rivera.
Portugueses e espanhóis brigam por Sacramento
Assim como muitos municípios da fronteira sul, Santana do Livramento sofreu a expectativa de estar na mão de portugueses ou espanhóis de acordo com o soprar do vento. A Colônia do Santíssimo Sacramento, fundada em 22 de janeiro de 1680, foi o primeiro sinal de vida portuguesa no extremo sul do território em que a Coroa deitou posse. Foi também, durante quase um século, palco da disputa entre as duas nações européias. Sediada às margens do Rio da Prata, a povoação abrangia uma área imensa de terras (que atualmente englobaria o Uruguai e um pedaço do Rio Grande do Sul) incluindo ao norte a região de Livramento. Com a assinatura do Tratado de Madrid em 1750, a Colônia passou para a mão dos espanhóis ao ser trocada pelos Sete Povos das Missões.
A resistência dos guaranis fez com que as duas nações assinassem um novo acordo. O Tratado de El Pardo (l761) anulou o documento de Madrid e tudo voltou como estava antes de 1750. O vaivém se estendeu até o início do século 19, quando a distribuição de sesmarias e a passagem do Exército Pacificador (I 811/12) garantiu a definição da fronteira do Estado. A cidade de Colônia do Sacramento fica hoje a 177 quilômetros de Montevidéu. A antiga cidadela dos portugueses ocupava uma península a 48 quilômetros de Buenos Aires, na margem esquerda do Rio da Prata.
Depois de ser restaurada pelo governo, recuperando o aspecto que possuía no século 18, no ano passado Colônia do Sacramento foi tombada pela Unesco como patrimônio histórico da humanidade. O historiador Barbosa Lessa relembra que, na época da chegada dos português para criar Sacramento, a região da chamada Banda dos Charruas (hoje República do Uruguai), era habitada apenas por aveztruzes e por nômades índios charruas e minuanos.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Rolante
Pelo ano de 1888, iniciou-se o povoamento da sede de Rolante no município de Santo Antônio da Patrulha.
De acordo com alguns historiadores, os tropeiros que levavam gado do Rio Grande do Sul para São Paulo se reuniam em Viamão para seguir a estrada geral de Cristovão Pereira de Abreu, na direção do território paulista. Esse roteiro atravessava o território do atual município de Rolante.
Por volta de 1734 e 1735, quando de sua abertura, a estrada geral de Cristovão Pereira de Abreu apresentava precárias condições de trânsito, embora fosse utilizada pelos viajantes que se dirigiam para o Norte. O espaço percorrido de Viamão em um dia em carreta, ia dar mais ou menos no mesmo local, à beira de um rio (rio Rolante), já na subida da serra, onde era costume pernoitarem para descanso e onde foram se formando sinais de pousos ou encontros entre os que iam para o norte e os que voltavam para o sul.
Segundo informações, Ilha Nova, na área do atual campo de futebol do Avante, em Rolante era um dos locais de pouso dos tropeiros. Admite-se que a continuidade desse antigo pouso transitório, na Ilha Nova, deu origem à fixação de alguma casa comercial e estalagens que resultaram num nucleamento de famílias e início do povoamento permanente em Rolante, na metade do século XVIII.
José Maciel Júnior, historiador, descendente da região, fala do nome Rolante: "O nome Rolante, proveio do fato de o arroio, que serve de divisa atualmente entre esse município e o de Santo Antônio da Patrulha ser impetuoso e violento no período de suas cheias, levando tudo de roldão."
A referência mais remota, segundo a Revista do Arquivo Público do Rio Grande do Sul(número 06 a 12), consta que a doação oficial de terras a açorianos, em Rolante, data de 1761, quando o Governador Ignácio de Madureira concedeu terras a José Ferreira de Carvalho.
A continuidade de paradas no mesmo local da região foi atraindo moradores para se fixarem nos arredores, tendo oportunidade de oferecerem melhor pouso e comida aos viajantes, bem como cuidados de ronda dos animais. Isso ocorreu enquanto houve uso contínuo da estrada de Cristóvão Pereira de Abreu_ Quando esta data entrou em declínio, as terras do atual município de Rolante perderam muito do interesse econômico, ficando só o início do núcleo populacional da pousada e as estâncias dispersas.
Segundo informações orais, em 1882 teve início a chegada dos primeiros imigrantes alemães, vindos das colônias velhas, que se dirigiam para Alto Rolante (hoje Distrito de Rolante).
O historiador Ademir Rist diz que em 1908, Giácomo Lodi. Carlos Franzoni e Miguel de Carli, donos de uma Empresa Colonizadora, adquiriram terras ao nordeste de Rolante em local a 800 metros de altitude, loteando-o com o nome de Nova Trípoli.
Segundo tradição oral, por volta de 1910, uma leva desses proprietários, na época da primavera, vieram acompanhados de um sacerdote católico para Nova Trípoli, onde construíram suas casas e uma Sociedade Italiana, que chegou a ter bandeira e hino próprios. Essas terras de Nova Trípoli, já não pertencem a Rolante, ficaram com Riozinho.
Rio Pardo
(20/05/1811)
O Rio Grande do Sul pertence ao Brasil por causa de Rio Pardo. Essa afirmação é baseada na importância que teve a Fortaleza Jesus Maria José e na demarcação e preservação do domínio português contra o avanço dos espanhóis no sul do continente. Com o Tratado de Madri, em 1750, firmado entre as duas potências, Rio Pardo passou a ser a fronteira entre as colônias a partir da segunda metade do século 17. A construção da fortaleza começou em 1753. Ela abrigou o Regimento dos Dragões e foi palco de batalhas que consolidaram posições lusas. Nunca foi tomada, por isso ficou conhecida como a "Tranqueira Invicta".
Apesar de ter surgido por uma necessidade de estratégia militar, Rio Pardo desenvolveu aos poucos um forte núcleo populacional, que se transformou em centro comercial até meados dos século 19. Os primeiros colonizadores, basicamente açorianos, conseguiram fazer progredir o município, apesar das tentativas de invasões espanholas, desenvolvendo uma forte vocação comercial, além da agricultura e pecuária.
Devido à privilegiada posição geográfica, entre os rios Jacuí e Pardo, a cidade passou a ser o principal ponto de abastecimento do Estado, atraindo tropeiros, já que o transporte era feito, essencialmente, por via fluvial. Seu território chegou a abranger 16.803 km2, ou seja, mais da metade do território da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul (1807).
José Wunderlich (Comissão de Estudos de Alternativas para o Patrimônio Histórico de Rio Pardo) explica que o declínio foi se acentuando gradativamente. Durante a Revolução Farroupilha, houve diversos saques e o poder se revezou entre imperiais e farrapos. Também a Guerra do Paraguai teve a participação de lideranças rio-pardenses. Em 1867, a cidade foi acomedida por uma violenta epidemia de cólera, que dizimou metade da população. A doença atingiu tais proporções que os mortos eram enterrados em valas comuns.
A construção da estrada de ferro (1885) foi outro golpe, já que desviou a rota comercial para Santa Maria. Além disso, o município perdeu parte de seu território com o desmembramento de Santa Cruz do Sul, Cachoeira, Encruzilhada e Candelária, entre outros - ao todo são mais de 200 municípios que ocupam a área que já foi de Rio Pardo.
No início deste século, a transferência da escola militar para Porto Alegre e a retirada dos últimos batalhões, em uma cidade com forte vocação militar, aceleraram a decadência. A construção da BR-290 diminuiu ainda mais a importância de Rio Pardo, criando um núcleo em Pantâno Grande.
Pouco resta da arquitetura açoriana original em Rio Pardo. Os sobrados e casarões de linhas com suas janelas arqueadas, eiras e beiras e cachorradas (beiradas de madeira) foram se transformando com o tempo e sofrendo influências de outras correntes arquitetônicas, principalmente do neoclássico francês do final do século 18. Provavelmente, a característica mais marcante que ainda resta são as suas igrejas, prova do apego religioso dos primeiros colonizadores.
A matriz Nossa Senhora do Rosário é uma das mais antigas (1779). Seus sete altares representam a devoção das classes sociais da época, indo do mais simples aos mais rebuscado revestimento em ouro, embora tenham recebido camadas de tinta. Também podem ser vistas as sacadas que eram ocupadas pelos nobres para não se misturarem ao povo e à burguesia.
Para a arquiteta Vera Schultze, é difícil definir um estilo único para o local. Vera cita como um autêntico exemplo da arquitetura portuguesa do século 19 o atual Museu Barão de Santo Ângelo, onde nasceu e viveu o almirante Alexandrino de Alencar. A casa foi reconstruída em barro e madeira e preserva os traços originais, apesar de ter sido restaurada. Tem na parte inferior uma senzala que abrigava os escravos domésticos.
Outro bom exemplo de preservação é a Rua da Ladeira, atual Júlio de Castilhos, que foi uma da primeiras ruas calçadas do Estado (1813). Feita com blocos de pedras irregulares e escoamento central, servia para ligar a fortaleza à parte residencial da cidade. É tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Outra característica curiosa são as eiras e beiras, detalhes que cincundavam os telhados e representavam sinais de ostentação.Daí a origem da expressão "sem eira nem beira" referir-se às classes menos abastadas.
Rio Grande
(12/02/1811)
A antiga capital nasceu duas vezes
Local de inúmeras e sangrentas batalhas pela disputa de terras entre portugueses e espanhóis, Rio Grande comemorou seu nascimento duas vezes. Talvez não imaginasse o sargento-mor da armada portuguesa, José da Silva Paes, que a festa organizada por ele na fundação da cidade, em 19 de fevereiro de 1737, se repetiria quase nos mesmos moldes quatro décadas mais tarde. Quando sua esquadra liderada pela galera "Bonita" onde viajava, aportou na orla de Rio Grande de São Pedro, era dado o primeiro passo na colonização da porção de terra de maior importância estratégica no sul do Brasil. A fundação da primeira vila da Província do Rio Grande do Sul abriu uma porta para o ingresso de tropas militares em qualquer ponto do Estado devido à facilidade oferecida pelo porto marítimo. Nascia a colonização do Rio Grande do Sul. Na faixa de terra localizada ao norte da península e denominada Rio Grande de São Pedro, Silva Paes tratou de mandar construir o primeiro forte em madeira e torrão da região denominado Jesus-Maria-José. O forte tinha espaço suficiente para acomodar toda a sua guarnição composta de 254 homens. O árduo trabalho demorou meses. O terreno era muito arenoso. A madeira precisava ser transportada de muito longe.
Rio Grande se firmou no cenário da época. Mas, em 1763, a história mudou. Os espanhóis, insatisfeitos em não dominarem Rio Grande, cujo território achavam lhes pertencer, invadiram e dominaram o município. A guarda portuguesa não suportou a carga desferida pelos soldados espanhóis e fugiu para o outro lado do canal, estabelecendo-se em São José do Norte. A ocupação da cidade de Rio Grande pelas forças do exército espanhol durou 13 anos, tempo em que foi dominada pela Coroa da Espanha. A permanência dos espanhóis não trouxe qualquer benefício ao município.
As construções das primeiras residências e prédios pararam. Nada foi feito. Nem um prédio foi erguido. "Deixaram a cidade cair aos pedaços", diz o jornalista e pesquisador Daoíz de Ia Rocha. No livro de registros da Igreja de São Pedro, construída em 1756 pelos portugueses - hoje a Catedral de São Pedro não consta sequer um batizado ou casamento de espanhóis naquela época. "Rio Grande era simplesmente um quartel militar", afirma de la Rocha.
No outro lado do canal, em São José do Norte, os portugueses arquitetavam uma forma de reconquistar a terra perdida. O silêncio que reinou durante mais de uma década entre as duas porções de terras separadas por um canal com pouco mais de um quilômetro de largura só foi quebrado graças a um plano ardiloso e meticulosamente arquitetado, colocado em prática na noite de 31 de março de 1776. Soldados portugueses vestidos com trajes de gala soltavam fogos, acendiam fogueiras, dançavam e cantavam. Era o aniversário da rainha de Portugal, Mariana Vitória. Despreocupados, os espanhóis aliviaram a guarda. "Acreditavarn que os portugueses não atacariam no outro dia porque estariam cansados da festa", revela Daoíz de Ia Rocha. No entanto, tudo não passava de pura encenação. Um plano malicioso do comandante-geral Johann Heinrich Bohm, um alemão contratado pela Corte de Portugal para reconquistar Rio Grande, cidade revestida de importância estratégica para os militares por causa do porto marítimo.
O plano foi posto em prática na madrugada do dia 01 de abril. Os soldados portugueses se apossaram dos fortes Santa Bárbara e Trindade, dominados pelos castelhanos. O pavor tomou conta do inimigo. Houve violenta batalha, com centenas de baixas de ambos os lados. Percebendo a desvantagem, os soldados espanhóis trataram de fugir para o Uruguai. Estava mantida, para sempre, a soberania da cidade gaúcha. Rio Grande comemorou com festa seu novo nascimento.
Violência não poupou a igreja
Uma das heranças mais importantes deixadas pelos colonizadores portugueses em Rio Grande foi a igreja de São Pedro. A atual catedral do município foi inaugurada em 1755, depois de quase quatro anos em construção. O templo em estilo barroco, localizado no centro da cidade, guarda lembranças de uma passagem trágica na história do município. Em 1776, foi alvo de um ataque bárbaro dos soldados espanhóis que se mantiveram no domínio do governo do município durante longos 13 anos, desde 1763. O prédio se manteve intacto, mas o altar-mor, esculpido cuidadosamente em madeira, foi roubado pelos espanhóis numa demonstração de raiva por terem sido expulsos de forma humilhante pelos portugueses na sangrenta batalha pela reconquista de Rio Grande.
Humilhados por um plano hábil da força de guerra portuguesa, no dia 01 de abril de 1776, os espanhóis fugiram de Rio Grande. Houve trágica batalha. Os castelhanos não se retiraram, porém, sem antes devastar a cidade. Puseram fogo em muitos prédios, saquearam e roubaram a população. "O altar-mor original da igreja de São Pedro acabou sendo roubado pelos espanhóis". afirma o jornalista Daoíz de Ia Rocha.
O altar foi levado para a capela Forte de Santa Tereza, no Uruguai. Atualmente, a Catedral de São Pedro, o mais antigo templo católico em estilo colonial português existente no sul do Brasil, guarda uma lembrança fundamental da reconquista: uma cópia quase exata do monumental altar-mor construido pelos colonizadores portugueses no século XVIII.
A construção da igreja começou no reinado de D. João 1. Os portugueses utilizaram muitos materiais importados de Portugal, como o altar de madeira e o pórtico de entrada. O cimento das paredes foi engrossado com o que havia em abundância na região: conchas do mar. O templo religioso foi erguido no lugar da igreja de Nossa Senhora do Rosário, destruída por um incêndio em 1752.
Na batalha de reconquista de Rio Grande em abril de 1776, liderada pelo comandante Johann Heirinch Bohm, auxiliado pelo brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, pouco do que havia sido construido pelos colonizadores portugueses antes da invasão pelos espanhóis foi preservado. Depois da morte de Pinto Bandeira, seus restos mortais foram depositados numa urna funerária no interior da igreja.
A fé perpetuada em madeira
A luta pela reconquista da cidade de Rio Grande durou anos e teve o gosto amargo da derrota. Antes da vitória contra os espanhóis, houve sangrenta luta. Os castelhanos invadiram o município em 1763 e o mantiveram por 13 anos. A armada portuguesa travou a primeira batalha pela reconquista em fevereiro de 1776, por ordem de D. Luis de Almeida Soares, vice-rei do Brasil. Mais de 400 homens se deslocaram de Santa Catarina em fragatas com o objetivo de expulsar os espanhóis. Na empreitada desastrosa da armada, a promessa feita por um jovem soldado português, José da Silva, ficou perpetuada através dos séculos, encravada e pintada em madeira.
Vendo-se em risco de vida, o soldado desprotegido num escaler (antiga canoa aberta de madeira) lutava sob fogo cruzado de canhões e mosquetes. Em meio à batalha, Silva rezou para Nossa Senhora da Penha - que atendeu suas preces. Em agradecimento, Silva entalhou e pintou na madeira a imagem que teve da batalha: "Milagre que fez Nossa Senhora da Penha de França a José da Silva saindo com uma armada da ilha de Santa Catarina para o Rio Grande combateu com um armada castelhana e vendo-se em tão grande perigo, em um escaler entre a artilharia, se pegou com a dita Senhora e ficou livre do perigo - Ano de MDCLXXVI".
Porto Alegre
(11/12/1810)
O Porto de Viamão virou Alegre sem querer. No Rio Grande do Sul pós-Tratado de Madrid (1750), a ameaça de invasão tirava o sono dos portugueses, que procuravam desenhar de uma vez por todas o mapa de seus domínios.
Para isso precisavam de uma capital. Desde 1763, a vila de Rio Grande não servia mais. Havia sido tomada pelos espanhóis. Era preciso buscar um povoado que pudesse ser defendido - ou melhor, inatingível. A saída do sul foi voltar-se para o norte. Navegando pela Lagoa dos Patos, a capital acabou parando em Viamão, onde permaneceu por uma década. Um canetaço do governador José Marcelino de Figueiredo transferiu a sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul para uma terra-de-quase-ninguém em 1772. Fundado 20 anos antes para abrigar os casais que chegavam dos Açores e da Ilha da Madeira para colonizar a região, o Porto de Viamão, ou Porto dos Casais, foi escolhido pela posição estratégica. Em meados do século 18, a capital não passava de um atracadouro em propriedade alheia.
Além dos imigrantes que foram logo se fixando na Rua da Praia, o povoado se resumia às sesmarias de Jeronimode Ornelas de Menezes e Vasconcelos, Sebastião Francisco Chaves e Dionísio Rodrigues Mendes. "Porto Alegrenasceu espontaneamente", sintetiza Sérgio da Costa Franco, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RS.
Da noite para o dia, virou Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais. No ano seguinte, Nossa SenhoraMadre de Deus de Porto Alegre. Quase sem casas e população, a cidade de todos os gaúchos transformou-se na localidade mais importante do Sul do Brasil sem ao menos ser oficialmente uma vila. Somente em 1810 o erro foi corrigido.
Os portugueses tinham muito mais coisas importantes para se preocupar. Um dos primeiros atos do governador foi proteger a península. Por sua posição estratégica, era quase impossível um ataque pelo estuário do Guaíba. Em terra, entretanto, a situação era bem diferente. Engargalada no conhecido funil que virou o centro da cidade,o povoado era vulnerável pelo flanco leste.
Para evitar a invasão da nova capital, Figueiredo autorizou a construção de fortificações. As obras se estenderam de 1773 a 78 e formaram uma trincheira na fronteira seca da vila. Na metade do caminho, em um largo próximo à Santa Casa de Misericórdia, um portão controlava a entrada e saída dos moradores e forasteiros.
Muito barulho por nada. A tomada de Porto Alegre não foi concretizada pelos espanhóis. Meio século depois, os próprios gaúchos cuidaram da tarefa sem sequer arranhar os muros da cidade. Em 20 de setembro de 1835, os farrapos atacaram por água a península protegida.
Menos de um ano mais tarde, as tropas imperiais voltavam a mandar no município. Em pouco tempo, as fortificações seriam ampliadas e ganhariam um novo significado até serem demolidas em 1840. "A cidade de Porto Alegre, cercada por um cinturão de trincheiras, com canhões de fortaleza encaixados nela, espaçadamente, já davam naquela época um aspecto mais marcial do que Alegre", escreveu Johann Carl Dreher.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Piratini
(07/06/1932)
O cenário da proclamação da República
A província do Rio Grande do Sul vivia momentos de tensão em 1835. O descontentamento com a política do governo central e a oposição entre conservadores e liberais, o estopim da Revolução Farroupilha, praticamente antecipavam o longo período de confrontos armados. Cerca de duas semanas depois de um grupo de rebeles farroupilhas ter ocupado Porto Alegre, cem homens deflagravam o movimento na Vila Piratini, comandados pelo capitão de milícia Antônio José de Oliveira Nico e por Domingos de Souza Neto. As primeiras colunas de farrapos marcharam pelas ruas estreitas da vila, a 8 de outubro, sob a aclamação dos piratinenses.
Por sua localização estratégica, no alto da Serra do Sudeste, e pela existência de dezenas de prédios proximos para a instalação dos comandos revolucionários, a vila tornou-se o centro de operações do movimento. Em dezembro de 1832, o coronel Souza Neto passou a chefiar a Legião de Guardas Nacionais da Comarca de Piratini, formada por quatro companhias recurtadas em Piratini, Canguçu, Cerrito e Bagé. Com 28 anos, comandou a coluna farroupilha que venceu, em 10 de setembro de 1836, em Seival, as tropas imperiais de Silva Tavares.
A vitória dos integrantes da Primeira Brigada Liberal marcou um dos acontecimentos militares mais importantes do movimento e despertou o desejo de emancipação dos farrapos. Na noite do combate de Seival, ainda sob a euforia da vitória, o capitão Manoel Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares foram até a barraca de Neto para convencê-lo a opcuar o posto de general-em-chefe do exército e proclamar a República.
Ali mesmo escreveram os rascunhos da proclamação. No dia seguinte, 11 de setembro, antes de sair o sol, as tropas já esperavam o futuro general nos campos dos Menezes, à margem esquerda do rio Jaguarão. Neto apareceu a galope. Postou-se ao centro da tropa, ergueu a espada e anunciou a proclamaão da República Rio-grandense. Dois meses depois, a Vila de Piratini tornou-se capital, e o general Bento Gonçalves da Silva foi eleito presidente da República, mesmo estadno preso há um ano no RIo de Janeiro e em Salvador.
Piratini permaneceu como capital por mais dois anos. Por motivos estratégicos, a capital foi transferida para Caçapava do Sul e, mais tarde, para Alegrete. Enfraquecida, a cidade levaria novo golpe. Um ato do governo provincial fez com que Piratini retornasse à categoria de vila. Iniciava-se o declínio.
A chegada dos açorianos
O surgimento de Piratini ocorreu com a chega de Açorianos em terras que a Coroa Portuguesa trocou com o sesmeiro José Antônio Alves. Por ordem da Rainha Maria I, a região - localizada no cume de uma coxilha, nas proximidades dos rios Camaquã e Piratini, onde hoje se localizada a cidade - foi dividida entre 48 casais portugueses. Ali, a partir de 1789, eles construíram suas casas de arquitetura singela, com alinhamento de duas janelas e porta na fachada. Um dos primeiros prédios erguidos pelos habitantes foi uma pequena capela, no centro do povoado, dedicada à Nossa Senhora da Conceição. O lugar ficou conhecido como Capela de Piratini, por estar perto do rio. A primeira casa construída em Piratini ficava nos fundos da capela e existe até hoje.
O crescimento da população e a prosperidade da criação de gado e do cultivo, principalmente de linho e trigo, atraíram novos habitantes e despertaram a atenção do governo imperial, que decidiu elevar o povoado, em 1810, à categoria de freguesia. Nesse período, moradores abastados começaram a construir casas em volta da capela, que havia sido ampliada pelo reverendo Jacinto José Pinto Moreira, primeiro vigário de Piratini.
Em 20 anos, o povoado cresceu, ganhou novos prédios e uma capela ainda maior, com portas em arcos e duas torres em estilo gótico. Em dezembro de 1832, com cerca de 80 prédios, entre eles seis sobrados e uma cadeia, a então freguesia tornou-se Vila de Piratini. As poucas ruas ainda não tinham calçamento e a água potável chegava à população apenas por duas fontes naturais, conhecidas como Fonte dos Pinheiros e Fonte da Terra.
A vila era iluminada por querosene e servida por um demorado sistema de correio, que transportava cartas até a Vila São Francisco de Paula (hoje Pelotas) três vezes por semana. No mesmo ano, a vila foi desmembrada do município de Rio Grande, mas seu território continuou abrangendo uma grande extensão, onde estão hoje seis municípios da Região Sul do Estado.
Passo Fundo
(17/02/1834)
O Caminho dos viajantes do Planalto
Quando chegou a uma terra onde sabia apenas que existia "um passo muito fundo" e onde havia índios ferozes, por volta de 1827, o cabo da milícia estadual paulista Manoel José das Neves, o cabo Neves, não imaginava que estava projetando um dos principais pólos de prestação de serviços do Rio Grande do Sul. Antes dele, um destacamento comandado por Atanagildo Pinto de Morais fora enviado pelo governo de São Paulo à região para descobrir uma nova ligação com a Capitania de São Pedro.
O cabo Neves ganhou algumas léguas de terra, onde hoje está a Praça Tamandaré, no centro da cidade, e ali começou a formar sua fazenda, seguidamente atacada pelos índios coroados e caingangues, que habitavam a região.
Em 1834, chega outro militar, o capitão Joaquim Fagundes dos Reis, considerado por muitos também como fundador da cidade, que só se libertou administrativainente de Cruz Alta, da qual era distrito, em 1857. O dia 7 de agosto é a data oficial de criação do município, que vivia o ciclo da criação de gado. O extravismo vegetal, a pecuária, o comércio e o tropeirismo confirmam que Passo Fundo teve sua origem ligada ao transporte, lembra a professora Maria Mattos, da Universidade de Passo Fundo. Ainda sentindo as conseqüências sangrentas da Revolução Federalista de 1893, Passo Fundo - assim batizado pelos tropeiros que cortavam caminho no Planalto Médio para chegar à Feira Agropecuária de Sorocaba, em São Paulo - começa o novo século com uma população de cerca de 35 mil habitantes.
O tenente-coronel Pedro Lopes de Oliveira era o intendente em 1900. O ciclo do gado já dera passagem também à erva-mate e à madeira, e a agricultura se revelava como uma das principais forças da economia em formação. A ferrovia despontava como principal ligação com o Centro do país. Era em Passo Fundo que muitos fazendeiros paulistas faziam negócios.
Somente em 1920 os passo-fundenses conheceriam o avião, conta o livro Annaes do Município de Passo Fundo, escrito em 1931 por um dos primeiros jornalistas da cidade, Francisco Antonino Xavier e Oliveira. Muita gente se escondeu dentro de casa ao ouvir um "barulho estranho vindo do céu." Era um biplano que vinha de Buenos Aires com destino a São Paulo.
A boa época das sedas e louças européias
Em meados década de 30, havia em Passo Fundo uma rua onde moça de família não passava. Era a Rua 15 de Novembro, onde funcionavam casas de prostituição e o famoso Cassino da Maroca. No local, os bailes reuniam figuras conhecidas da cidade. Uma das primeiras socialites, Leofrida Barbieux, junto com outras moradoras das proximidades do cassino, ficava na janela vendo quem freqüentava o local para depois ter assunto para as rodas de conversa. "Mesmo assim era uma época bonita, de respeito", recorda.
Leofrida mora em Passo Fundo desde 1924. Dois anos depois, seu marido, Walter Barbieux, inaugurou a primeira cervejaria da cidade, a Serrana. Leofrida, que nasceu em Uruguaiana, relembra com saudade uma época em que as mulheres se enfeitavam e vestiam as melhores roupas, não dispensando o tradicional leque de plumas para ir ao Cinema Coliseu, que não existe mais, ou aos saraus promovidos na casa do comerciante Antônio Loureiro Lima, que, por sua elegância, foi apelilado de Barão. Até hoje a Casa do Barão é preservada em um dos pontos principais da Avenida Brasil, no centro de Passo Fundo.
Leofrida lembra-se de uma festa que movimentou a cidade: a da inauguração da primeira agência bancária, o Banco da Província, em 1922. A cidade vivia principalmente do comércio, confirmando a fama de terra de passagem. Os viajantes faziam muito sucesso e sempre apareciam com novidades.
"Hoje, as pessoas ficam muito faceiras quando compram alguma coisa importada, de terceira categoria, mas, no início do século, isso para nós era comum." E com a diferença da qualidade. Compravam farinha da Argentina, louças da França, sedas inglesas - e bebiam vinho do Porto. A iluminação pública era escassa na década de 30, só abrangendo o centro. Um morador, Ciro Schell, conta Leofrida, era o encarregado de acender diariamente os lampiões que iluminavam a região central. E a explicação: Schell tinha 1m80cm.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Ijuí
(07/04/1875)
A rota dos tropeiros nos ervais
Até as primeiras décadas do século 20, Palmeira das Missões não tinha do que se queixar. Em quase 300 anos de história, acompanhou os três principais ciclos da formação econômica e social do Estado. Trocou a fase dos ervais nativos pelo tropeirismo. Mais tarde, deixou os caminhos dp gado para entrar de cabeça na colonização e voltar à extração vegetal com a exploração da madeira.
"Palmeira é o município síntese do Rio Grande do Sul", diz o historiador Mozart Pereira Soares. Mesmo não tendo a garantia de ter sediado uma Redução dos Jesuítas, o território de Palmeira certamente foi visitado pelos índios que as habitavam. As densas áreas de erva-mate interessavam aos padres espanhóis desde 1633, ano da primeira referência escrita sobre o uso da planta. No Rincão de São João, 15 quilômetros ao norte da cidade, a abundância de ervais evidenciava que a região estava no mapa de riquezas da Companhia de Jesus. Sem se descuidar da exploração dos ervais, os jesuítas também introduziram a criação de gado nas Missões. Os guaranis cuidavam de imensos rebanhos até serem dizimados pelos portugueses, que passaram a ter direito sobre os Sete Povos das Missões com a assinatura do Tratado de Madrid (1750).
Milhares de cabeças de vacas e mulas soltas nos pastos chamaram a atenção dos novos donos da terra. Por volta de 1816, os bandeirantes estabelecem uma terceira rota para conduzir os animais até São Paulo. O pouso dos tropeiros e as grandes manchas de campo com rebanhos selvagens tornam Palmeira das Missões alvo das atenções dos mercadores do "ouro mível". Para controlar o negócio de perto, alguns paulistas instalam-se na região, apropriando-se de terras devolutas. Um século depois, a instalação da Comissão de Terras e Colonização de Palmeira das Missões trans transforma pela terceira vez a face do município. A partir de 1917, as áreas despovoadas do norte (Iraí, Seberi, Nonoai, Frederico Westphalen) começam a ser ocupadas pela terceira onda de colonização do Estado. Famílias inteiras de italianos, alemães, poloneses e russos entram com requerimentos de propriedade na Comissão.
Depois de trabalharem para abrir as estradas que os levariam até os lotes, os imigrantes descobrem que precisam ainda limpar o terreno. Começa o desmatamento. As árvores nativas são derrubadas e passam a engrossar o orçamento doméstico. Com o surgimento das colônias, Palmeira está pronta para caminhar com as próprias pernas.
O peão salvo pelos rebeldes
Seis da manhã de l de janeiro de 1925. Nas terras da Fazenda da Ramada, a 39 quilômetros do centro de Palmeira das Missões, o capitão Luiz Carlos Prestes e centenas de soldados revoltosos iniciavam um confronto contra as tropas Governistas. O combate mais sangrento da Coluna Prestes se estendeu por 12 horas, deixou mais de 100 homens feridos e custou ao movimento militar a vida de outros 50. Na sede da fazenda, um empregado com pouco mais de 10 anos de idade não entendia por que o Exército queria ipedir o avanço daqueles 4 mil homens que acamparam perto da propriedade "Nem uma vaca eles chegaram a carnear ", garante Abrão Machado dos Santos, 82 anos. Um dia antes, o menino havia sido salvo por um rebelde. "Os civis que acompanhavam a Coluna iam me degolar quando um sargento acudiu", lembra. Apenas um túmulo, que marca o ponto onde os dois lados enterraram seus combatentes, continua de pé na Esquina dos Becker, atual município de Condor.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Jaguarão
(22/05/1833)
Os pica-paus que moravam na fronteira
Lenço vermelho não era um acessório bem-vindo na Jaguarão do século passado. A marca que diferenciava os maragatos de seus adversários pica-paus teve pouca penetração na cidade da fronteira sul, que sempre mostrou nítidas influências republicanas. Enquanto quase todos os municípios do Rio Grande ficaram divididos durante as revoluções gaúchas, os moradores mais tradicionais de Jaguarão construiram casas com detalhes inspirados nos símbolos legalistas. "Até hoje não existe uma rua que tenha nome de maragato", observa o advogado e jornalista Eduardo de Souza Soares, 52 anos.
Os primeiros flertes de Jaguarão com a causa republicana datam da Revolução Farroupilha. Entusiasmada com a conquista dos farrapos no combate do Seival, a Câmara Municipal, que durante o Império tinha o papel de Poder Executivo, decidiu aderir à República Rio-Grandense em 20 de setembro de 1836. O presidente da Casa e articulador da iniciativa pioneira na Província era Manoel Gonçalves da Silva, irmão do general Bento Gonçalves da Silva.
Menos de 15 anos depois, nasceu em Pelotas o homem que manteria Jaguarão fiel ao seu passado republicano. Neto materno de Manoel, o médico Carlos Barbosa Gonçalves importou de Paris as idéias de igualdade e liberdade, e passou a defender o fim da monarquia.
Não demorou muito para que os argumentos de Carlos Barbosa inflamassem os espíritos. Em 30 de julho de 1882, ele e mais 19 companheiros fundaram o Club Republicano. Dois anos mais tarde, a entidade adquiriu o jornal "A Ordem", para divulgar suas posições, e atacar o govemo do Rio e a família imperial.
Durante a visita da Princesa Isabel e do Conde D'Eu, em 1885, o genro de Dom Pedro ll, que passou de capitão francês a general brasileiro atropelando as graduações. Quando o nobre chegou a Jaguarão, "A Ordem" publicou: "Por ocasião do desembarque, o exmo. sr. Comendador Dr. Azevedo, na qualidade de presidente da Câmara Municipal, dirigiu-lhe um bem elaborado discurso, ao que Sua Alteza deixou de responder por não tê-lo ouvido, pois, como sabem os leitores, S.A. é surdo' "
Logo a ideologia republicana passou do papel para o concreto. Alguns seguidores começaram a ostentar símbolos como o barrete da República em residências construídas no centro de Jaguarão. O partido tomou corpo no município. Nas eleições de 1884, Carlos Barbosa conquistou uma vaga na Câmara. Com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889 (reconhecida pela Câmara de Jaguarão somente oito dias depois), o estilingue político de Carlos Barbosa virou vidraça, mas nem por isso foi ameaçado.
Nas revoluções de 1893 e 1923, os maragatos sequer se aproximaram da cidade. Até os anos 40, os picapaus continuariam de topete em pé.
A cidade resiste ao cerco
A data de 27 de janeiro de 1865 talvez seja mais importante para os jaguarenses do que a fundação da Vila (6 de julho de 1832). Naquele dia, uma força composta por dois corpos da Guarda Nacional resistiu durante 48 horas a uma tentativa de invasão do território brasileiro por mais de 1,5 mil homens do exército uruguaio. Sitiada e em desvantagem bélica, a guarnição comandada pelo coronel Manoel Pereira Vargas acabou vencendo o inimigo no cansaço. O episódio rendeu ao município o título de "Cidade Heróica" e ao Brasil, a demarcação das fronteiras à margem esquerda do rio Jaguarão.
Nenhum general esperava por aquele ataque surpresa. A atenção dos militares brasileiros estava concentrada na tomada da cidade uruguaia de Paysandu. "Os blancos prepararam o cerco de Jaguarão para desviar a atenção de nossos exércitos", considera o advogado Eduardo de Souza Soares, 52 anos. Um relatório escrito pelo próprio coronel Vargas no dia 18 de maio de 1865 faz uma síntese dos acontecimentos. "No dia 19 de janeiro, recebi participações do movimento de forças crescidas dos blancos que se aprqximavam do Cerro Largo no Estado Oriental", noticiou o oficial.
Enviado pelo uruguaio Basilio Muñoz, o exército uruguaio era mais de três vezes superior aos 15º e 28º corpos de cavalaria da Guarda Nacional. "A nossa força era cerca de 500 homens, que tinham apenas 60 ou 70 clavinhas de fuzil", escreveu Vargas. Derrota na certa. Mesmo assim, o coronel tratou de preparar Jaguarão para o combate. Pouco depois das 9h do dia 17, o confronto teve início com vantagem para o lado blanco. "As balas do inimigo passavam além da nossa coluna, ao passo que as nossas pouco alcançavam as suas fileiras, devido à inferioridade do armamento", lamentou o oficial brasileiro. O comandante percebeu que o melhor ataque seria a defesa. Recuando para as trincheiras, a pequena força resistiu. Vargas recusou todas as propostas de rendição.
Com a ajuda dos vapores de guerra Apa e Cachoeira - ancorados no porto - o coronel e seus soldados viraram a noite na defesa da cidade. Na madrugada, os uruguaios estavam derrotados. "Na noite de 27 para 28, retirou-se o inimigo praticando toda a sorte de atentados", descreveu o coronel. Com apenas um morto e cinco feridos, a guarnição tinha evitado a invasão do Brasil.
A dívida virou ponte
A histórica Ponte Mauá, que liga Jaguarão à cidade uruguaia de Rio Branco, não custou um centavo aos cofres do império. A obra ficou como pagamento por uma dívida assumida no século passado. Naquele tempo, o general argentino Juan Manoel de Rosas ameaçava a liberdade do recém-emancipado Uruguai. Para auxiliar o país amigo, vários empréstimos foram concedidos por Dom Pedro II. O Uruguai salvou-se. Em compensação, devia 5 milhões de pesos em 1919. Para acertar as contas, as duas nações fecharam o "Tratado da Dívida". Depois de três anos de obras, em 30 de dezembro de 1930, a dívida virou ponte.
Ijuí
(11/02/1912)
A Europa Gaúcha
A intenção de misturar imigrantes de várias etnias para não causar conflitos nas colônias foi levada ao extremo por Ijuí. Percorrendo o pequeno povoado em 1898, sete anos depois do início da ocupação, o padre Antoni Cuber registrou um recorde. Os habitantes haviam criado uma babel no meio do mato. Cuber detectou 19 idiomas entre italianos, alemães, poloneses, letos, austríacos, holandeses, suecos, espanhóis, libaneses, árabes, lituanos, rutenos, checos, filandeses e até gregos. "Era política do governo estadual evitar a criação de núcleos puros", analisa o professor de história e pesquisador Danilo Lazzarotto, 62 anos. Apesar da predominância de alemães e italianos, Ijuí ainda hoje é conhecida como a Europa do Rio Grande.
Caminho aberto pela Picada Conceição
Na metade do século passado, Cruz Alta e Santo Angelo eram duas vilas cercadas de mato por todos os lados. Ir de uma cidade à outra exigia paciência e tempo, uma vez que não existia estrada que as ligassem em linha reta. Para cumprir este papel e encurtar a distância em cerca de 60 quilômetros, o governo da Província decidiu construir uma picada com 12 quilômetros de extensão. A abertura da estrada trouxe o desenvolvimento. Ali Ijuí começava a abrir o caminho para a colonização.
A tarefa de abrir a Picada Conceição coube a José Gabriel da Silva Lima, que iniciou o trabalho por volta de 1848. Como pagamento pelas obras e manutenção da "via expressa". por onde só passavam cavalos, recebeu duas léguas de terra. Demarcado ao longo da picada, o lote de Silva Lima não poderia estar em melhor lugar. Percebendo esta vantagem, o agrimensor tratou de fundar uma colônia particular.
Em 1887, o primeiro morador da Picada Conceição instalava-se com a mulher e cinco filhos em dois lotes. Natural da Alsácia-Lorena (região da França anexada à Alemanha e depois devolvida à França), Simão Hickenbick e sua família permaneceram isolados por cerca de três anos. Os lotes da Picada Conceição caíram como uma luva para o administrador da Comissão de Terras e Colonização da colônia Silveira Martins, José Manuel da Siqueira Couto. Criado em 1881, o povoado não possuía mais espaço para acomodar os colonos que não paravam de chegar.
Mostrando a viabilidade de seu empreendimento, Silva Lima atraiu essas famílias, que se tomaram os novos vizinhos de Hickenbick. Em 1890, os primeiros grupos de italianos tomavam posse de seus lotes na então colônia ljuhy. De maio a dezembro do ano seguinte, chegaram mais 815 pessoas. Europeus na maioria, os colonos enfrentavam as dificuldades normais de uma ocupação isolada do mundo pelo mato.
Condenada ao fracasso, ljuí deu a volta por cima depois que o engenheiro Augusto Pestana, diretor da colônia a partir de 1899, se deu conta de uma evidência: seria mais fácil e barato assentar famílias que viessem com conhecimentos de agricultura. "O fato de virem imigrantes experientes de Silveira Martins e das colônias mais velhas facilitou o desenvolvimento", observa o historiador Argemiro Brum, 66 anos, da Universidade de Ijuí.
Guaíba
(18/10/1926)
A Ilha das Armas
O nome é o mesmo da Fazenda de Gomes Jardim. A Ilha das Pedras Bancas é um acidente geográfico cercado de abandono por todos os lados. No século passado, foi armazém de pólvora e posto de controle da movimentação dos barcos que entravam no canal. Dependendo do período, servia de local estratégico para legalistas e revolucionários. Entre 1857 e 1860, o governo construiu na Ilha das Pedras Brancas duas casas para depósito de munição.
O arsenal de guerra era fiscalizado por um tenente imperial. Transferido o material, Pedras Brancas ficou abandonada. Com 100 metros de extensão por 60 de largura e distante 2,2 kilometros da cidade de Guaíba, a ilha sempre foi fronteira entre os territórios do município e de Porto Alegre. "Por isso, até hoje não tem um dono de fato", afirma o jornalista aposentado Fernando Worm, 66 anos.
A Fazenda onde começou o levante
A Fazenda das Pedras Brancas está para a história do Rio Grande do Sul assim como o Riacho do lpiranga está para a Independência do Brasil. Na área onde é hoje o centro da cidade de Guaíba foi tramado o movimento para criação da República do Pampa. Das margens da praia da Alegria, centenas de rebeldes entraram em pequenos barcos e tomaram Porto Alegre. Nascia a Revolução Farroupilha.
Na madrugada de 18 para 19 de setembro de 1835, uma força com cerca de 100 homens avançava pelo Guaíba. A escuridão acobertava as manobras das embarcações que precisavam passar sorrateiras pelo Porto das Pedras Brancas. Na enseada, uma canhoneira imperial poderia acabar com os planos dos farrapos. Cerca de oito dias antes, Bento Goncalves da Silva, deputado e chefe de mílicias, havia deixado sua estância Cristal, em Camaquã, e partido para Guaíba. Hospedado na olaria de Francisco de Paula Monteverde, o chefe do movimento organizou o exército que afugentaria o governo do presidente da Província, Femandes Braga.
Propriedade de José Gomes Jardim, primo de Bento Gonçalves, Pedras Brancas abrigou as articulações para o primeiro ataque farroupilha. Na sede da fazenda, protegidos pela sombra de um cipreste e com ampla visão da costa de Porto Alegre, os farrapos fixaram um quartel-general a céu aberto. Dali partiam instruções para os revolucionários recrutados em Santo Antônio da Patrulha, Belém Velho, Capela, Barra do Ribeiro e Camaquã. Em número de 100, estes soldados foram agrupados em Capela sob o comando de Onofre Pires. As duas forças aliadas encontraram-se no morro da Azenha, na margem esquerda do rio, dia 19 de setembro. Poucas horas depois, os 20 soldados de cavalaria e 80 de infantaria do exército imperial eram dominados pela tropa vinda de Guaíba. O estopim para os 10 anos da Revolução Farroupilha havia sido aceso.
Flores da Cunha
(24/05/1924)
A nova tarefa dos artesãos
Produzir vinho e cultivar parreirais era uma mania que os imigrantes trouxeram da Itália sob a forma de mudas de videira, esparramadas pela encosta da Serra gaúcha. Na antiga Flores da Cunha, conhecida então como Nova Trento, este hábito não só vingou como ganhou algumas nuances. Dentro do pequeno povoado ocupado a partir de 1878, a uva era colhida tanto na colônia quanto na área urbana. "Os fundos de algumas casas da cidade eram tomados de parreirais", afirma o aposentado Claudino Boscatto, 79 anos.
O plantio da uva na cidade foi um reflexo do perfil dos imigrantes que ocuparam Nova Trento. Provenientes do norte da Itália, muitos deles eram artesãos. Como não sabiam plantar, compravam, além dos lotes coloniais, terrenos menores na vila para abrirem suas casas de comércio. "Meu avô patemo, que era alfaiate, contratava o trabalho dos vizinhos em troca da confecção de roupas", lembra Boscatto. Sem máquina de costura, o alfaiate Pietro trocava um dia de capina nas suas terras pela confecção de uma calça de lã. Quem ficava na lavoura, arcava com a parte mais pesada e rendosa do trabalho. Quando deixaram o plantio de milho e trigo para se dedicarem ao penoso processo de fabricar vinho, os colonos encontraram dificuldades que logo se transformaram em lucro. "Valia mais produzir vinho do que vender a uva", afirma o aposentado.
Criada sob a forma de duas vilas, Flores da Cunha foi unificada na localidade de São Pedro porque em São José não havia água para abastecer os lotes. Da junção, surgiu uma briga. Qual seria o nome do povoado? Em meados da década de 1880, o batismo do futuro município contava com cinco candidatos: São Pedro, Nova Vicenza, Nova Mantova, Nova Cremona e Nova Pádova. Numa manhã, os moradores acordarm com uma surpresa; uma tabuleta de 4 metros de largura por 80 centímetros de altura pendurada no pinheiro mais alto da praça central.
Escrito a carvão, o nome escolhido pelo imigrante Sisto Rossetto e aprovado pelo engenheiro Diogo dos Santos colocava um fim à discórdia. Em homenagem às duas famílias de trentinos (Santini e Bebber) que haviam ficado fora da discussão, a colônia passou a se chamar Nova Trento.
Negócios combinados
Com o dinheiro do vinho, o pai do agricultor Antonio Laghetto, 90 anos, construiu um casarão de três andares no distrito de Otávio Rocha. Com mais seis irmãos, ele cuidava de um parreiral. No porão da casa, a cantina abrigava 20 pipas que podiam armazenar mais de 100 mil litros de bebida por safra. Mas enquanto alguns italianos não tiravam a mão da enxada e dos barris, outros faziam as duas coisas. No Travessão Aquidabam, o imigrante Antonio Maria Melara tocava ao mesmo tempo os negócios do seu Hotel Unione, fundado por volta de 1886 no centro de Nova Trento. Em 1914, Francisco Boscatto comprou todo o patrimônio do sogro. Na pequena colônia, criou um parreira "Esta uva servia para produzir o vinho Trentino, usado no hotel", relembra hoje o aposentado Claudino Boscatto, neto de Pietro, um imigrante dedicado à alfaiataria
Farroupilha
(29/12/1934)
A primeira casa gaúcha dos italianos
A colonização italiana no Rio Grande do Sul nasceu em Nova Milano, distrito de Farroupilha. Em maio de 1875, um barracão que abrigava os primeiros imigrantes era a única visão de lar que trevisanos e vicentinos recém-chegados na América podiam contemplar. O resto era terra selvagem. Partindo daquele ponto perdido no mapa da Província, os colonos fundaram Caxias do Sul e povoaram toda a Serra. Mesmo sendo a ante-sala da imigração, Farroupilha não foi ocupado de imediato pela primeira leva de italianos. Assim que chegaram, quase todas as 110 famílias foram transferidas de local. "O dono de uma colônia particular dizia que não se começava uma cidade pelo fim do território", relata a historiadora Miriam Giacomel, 26 anos. Depois de alguns dias no barracão, os imigrantes foram parar no ponto central da colônia situada aos fundos de Nova Palmira, mais tarde denominada de Colônia Caxias. Cerca de 10 anos depois, Luís Feijó Júnior, proprietário da colônia particular Sertorina, entre Bento Gonçalves e Caxias do Sul, achou um bom negócio começar a formar núcleos de imigrantes a partir da venda de parte das suas três léguas de terras.
Estava formada a Linha Nova Vicenza, onde em 1883 moravam 30 famílias. Com a conclusão da estrada de ferro entre Caxias a Montenegro, em 1910, a irmã mais nova conquista a estação do trem e concorre com o desenvolvimento de Nova Milano. Próximo à sede do município, Nova Vicenza assume a direção administrativa do então 3o distrito de Caxias, que desde o início estava nas mãos do núcleo mais antigo. Berço da colonização, Nova Milano não aceitou perder a posição para uma comunidade mais jovem. A pressão foi tanta que as autoridades resolvem agradar a gregos e troianos. Enquanto Nova Vicenza é promovida a 2o distrito do município em 1927, Nova Milano volta como 6o. Mas nada evitou o esvaziamento da periferia de Farroupilha. A estação do trem e a chegada da luz elétrica fizeram com que os moradores das duas comunidades mudassem suas casas para a parte alta de Nova Vícenza. O nascedouro da imigração italiana estava definhando.
A nossa Senhora dos Milagres
Quando se reuniram para rezar a primeira missa, em 1878, os imigrantes instalados numa pequena localidade do distrito de Vila Jansen decidiram escolher o nome do padroeiro ou da padroeira da comunidade. Não chegaram a um acordo. Algumas famílias queriam Santo Antônio, outras defendiam Nossa Senhora do Loreto. Para evitar confusão, os colonos resolveram ir até São Sebastião do Caí. A imagem que pudesse ser comprada lá seria a da padroeira. Voltaram de mãos vazias. Os italianos já estavam pensando em construir uma estátua, quando Natal Faoro disse que poderia emprestar um quadro que havia trazido da Itália.
A tela de 33 em por 40 continha a imagem de sua devoção. Só que não era a de Nossa Senhora do Loreto e muito menos a de Santo Antônio. Daquela dia em diante, Nossa Senhora do Caravaggio tornou-se a padroeira da colônia que recebeu seu nome. No ano de 1879, os moradores ergueram uma capela para a santa e começaram a realizar romarias em sua homenagem. Nesta mesma época, o quadro de Faoro deu lugar a uma estátua esculpida em cedro.Encomendada de um artesão de Caxias do Sul, a imagem foi carregada nas costas pelos colonos durante todo o trajeto até chegar ao vilarejo. Dez anos depois, a capela já estava pequena para abrigar os devotos que compareciam ao templo todo dia 26 de maio (data atribuída à aparição de Nossa Senhora na vila italiana de Caravaggio). Em 1890, os imigrantes inauguraram uma nova igreja. Até hoje, milhares de católicos visitam Farroupilha para deixar na igreja os ex-votos por graças e curas alcançadas.
Substituída por um grandioso santuário em 1968, a antiga capela está abarrotada de cabeças de cera, cruzes e placas de agradecimento. Nenhuma história é mais famosa entre os moradores da região do que a da mulher que teria sido possuída pelo demônio. Carregada por vários homens, a lavradora foi exorcizada dentro da igreja. A lenda conta que, quando o padre concluiu o exorcismo, o diabo saiu por uma janela lateral entortando as barras de ferro.
Os teimosos de Nova Milano
Quase todas as 110 famílias de italianos que chegaram a Farroupilha em maio de 1875 foram logo transferidas para povoar primeiro Campo dos Bugres (atual Caxias do Sul), a sede da colônia. Somente três amigos de Olmate, vila da cidade de Monza, não seguiram viagem com os companheiros de imigração. Stefano Crippa, Tommaso Radaelli e Luigi Sperafico ficaram. Comprando colônias de 24 hectares, cada um foi parar em uma localidade e prosperou de maneira diferente. Radaelli ficou plantando em Nova Milano, Crippa foi para a comunidade de Amizade e Sperafico instalou-se em São Miguel. Em 1884, Crippa construiu uma casa no atual centro de Nova Milano. "'Acho que seis anos depois ele montou a bodega na parte da frente", calcula Ardelino Bergamo, 81 anos, neto do imigrante. "A gente vendia desde tecido até querosene", conta o comerciante, que passou 50 anos atrás do balcão do armazém fundado pelo avô. Ao mesmo tempo em que Crippa crescia no comércio, Radaelli se destacava na agricultura. Tommaso começou plantando milho, arroz e feijão. Depois se transformou no maior produtor de uva da região, relembra o neto Thomaso Radaelli, 78 anos.
Caxias do Sul
(24/08/1890)
A fábrica depende do vendedor
O parque industrial de Caxias do Sul nasceu atrás do balcão de alguma casa comercial. O comércio viabilizou o surgimento de empresas que se transformaram em gigantes dos ramos metalúrgico, vinícola, moveleiro, têxtil e alimentício. Artesãos e agricultores de mão cheia, os colonizadores do Campo dos Bugres também sabiam vender. "0 italiano do Vêneto é empresário por natureza', diz o professor Mário Gardelin, 68 anos. Os pioneiros eram descendentes dos famosos mercadores de Veneza. Em 1899, o lançamento de impostos do município registrava a existência de 103 casas de negócios em Caxias. Trinta anos depois da imigração, o município de 30.500 habitantes tinha 318 empórios. No centro da cidade funcionavam selarias, açougues, padarias, funilarias, carpintarias, alfaiatarias e ferrarias. O interior era movido por cantinas de vinho, serrarias e moinhos de trigo. Um ano antes do final do século 19, a ex-colônia contava com 223 fábricas. "0 artesanato sozinho não teria condições de impulsionar a indústria", acredita o escritor José Clemente Pozenato, 58 anos. O empurrão veio com a estrada de ferro Porto Alegre-Montenegro-Caxias, em junho de 1910. "0 trem viabilizou o comércio em grande escala e o acúmulo de capital", afirma o autor do romance O Quatrilho. Assim nasceu uma das maiores indústrias do Brasil. Herdeiro de uma funilaria, Abramo Eberle sempre foi um grande comerciante. Em suas andanças pelo Centro do país, vendia o vinho e os produtos dos colonos de Caxias. Trazia dinheiro. Quando achou que tinha o suficiente, largou a estrada para erguer a primeira grande metalúrgica do Estado.
Um bom vinho, depois de muita teimosia
Os primeiros italianos que se instalaram no Campo dos Bugres, por volta de 1875, sabiam beber vinho. Produzir seria outra história. Oriundos da região do Vêneto, norte da Itália, a maioria trabalhava na lavoura plantando cereais, ou na cidade, dedicando-se ao artesanato. A enologia era um hobby de poucos entendidos. O italiano médio sabia fazer vinho de baixa qualidade. "Eles não dominavam a tecnologia a ponto de saber produzir um bom vinho", afirma o escritor José Clemente Pozenato, 58 anos. Somente com a política de subsídios e pesquisa do governo gaúcho foi que a Serra se transformou na terra das cantinas.
O vinho era bebida predileta destes imigrantes. Na esperança de desenvolver belos parreirais que serviriam de matéria-prima para as adegas do porão, eles trouxeram na bagagem bacelos (mudas em forma de galhos) de boas uvas. Pura decepção. O solo ácido de grande parte dos lotes acabou com o sonho dos italianos. Cerca de 20 anos antes, o governo imperial havia importado videiras dos Estados Unidos para incentivar a produção de uva nas colônias alemãs.
O projeto da Princesa Isabel não vingou, mas a uva que foi batizada com o seu nome caiu como uma luva para a sede dos italianos, apostaram todas as fichas nos parreirais. Foi um tiro no escuro. "Em geral, os colonos não possuem conhecimentos de viticultura, e o pouco que sabem aprenderam-no pela prática e às próprias custas", escreveu num relatório de 1905 o professor Humberto Ancarini, funcionário do governo italiano. Resistente ao sobe-desce das temperaturas, a isabel virou unanimidade entre os colonos. Percebendo a falta do produto no mercado brasileiro, os imigrantes logo usaram seu tino comercial para negociar o excedente da produção caseira nas cidades de outros Estados.
Mas o solo fraco poduzia uma boa bebida. "A uva isabel contém sais de cal em baixíssima proporção, pois as terras são desprovidas de calcáreo", informava Ancarini. "Com isto obtém-se um vinho fraco, áspero e com sabor de morango, sabor este, porém, que agora está sendo modificado artificialmente' " Eleito produto de exportação, o vinho precisava ganhar qualidade. Foi assim que, na década de 20, o governador Borges de Medeiros criou o primeiro laboratório de videiras a céu aberto do Brasil.
Instalada numa área onde hoje funciona a Universidade de Caxias do Sul (UCS), a Estação Experimental de Viticultura e Enologia passou a desenvolver novas variedades a partir de bacelos importados. Técnicos franceses e italianos chegavam da Europa para repassar tecnologia aos colonos. Caxias se transformou em pólo da vitivinicultura.
A fuga dos grevistas
No início de 1890, um comício promovido pelos operários do Lanificio Rossi, na cidade italiana de Schio, provocou a expulsão de 308 tecelões. Tiveram que deixar a empresa e o país. Eles protestavam contra a redução de 20% dos seus salários. As autoridades ficaram do lado do conde Alexandre Rossi, que perdoou apenas os grevistas com família. Os solteiros vieram parar no Brasil. Um grupo tentou a sorte em Caxias, em terras devolutas da quarta e quinta légua. Construíram rodas d'água e montaram uma cooperativa para uma pequena tecelagem de lã. Em 29 de janeiro de 1898 era inaugurado o Lanificio São Pedro. Sem experiência administrativa, os italianos uniram-se a um antigo industrial de Piemonte que modernizou a empresa. Em pouco tempo, Hércules Galló assumiu o controle da indústria de tecidos de lã e o poder político na vila. Até hoje a localidade fundada pelos grevistas de Schio tem o nome de um capitalista. Cachoeira do Sul
(01/08/1890)
Os índios e a capela
Com o final da Guerra Guaranítica (1754-56), os Sete Povos das Missões foram sendo aos poucos esvaziados. Portugueses e espanhóis carregavam índios aculturados de um lado. No coração do Continente de São Pedro do Rio Grande, às margens do Rio Botucaraí, o capitão general do Rio de Janeiro e Minas Gerais Gomes Freíre de Andrada fundou uma aldeia. Em 1769, o governador José Marcelino de Fzgueiredo mandou colocar aqueles índios em uma área próxima ao Passo do Fandango. No local, que ficou conhecido como Aldeia, eles construíram uma capela invocando São Nicolau. Trabalhando numa olaria, os guaranis construíram suas casas e a dos vizinhos açorianos. A miscigenação foi inevitável. Uma década depois, a capela foi elevada à categoria de Freguesia e recebeu o nome de Nossa Senhora da Conceção - ali nascia Cachoeira do Sul.
Vicente da Fontoura na tricheira
Cachoeira do Sul optou pelos republicanos em episódios da Revolução Farroupilha. Terra adotiva de um dos principais líderes da inssurreição, nos primeiros meses o município dormia farroupilha e acordava legalista. Instituída a República Rio-Grandense, Antonio Vicente da Fontoura, natural de Rio Pardo, futuro ministro da Fazenda de Bento Gonçalves, foi nomeado chefe de Polícia das vilas de Rio Pardo e Cachoeira. Era tudo que o município precisava para ficar por dois anos nos braços da nova nação. O 20 de setembro repercutiu seis dias depois em Cachoeira.
Assim que os revolucionários tomaram Porto Alegre, um esquadrão e uma companhia da Guarda Nacional, comandados por Fontoura, seguiram para Rio Pardo. Um grupo de legalistas se negava a reconhecer a autoridade de Marciano Pereira Ribeiro, presidente da Província, escolhido por Bento. Quando voltaram, os cachoeirenses foram saudados com a celebração de um Te Deun na Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Mas os imperialistas recuperaram a capital e destituíram o presidente farrapo. Foi a vez de a Câmara de Vereadores se rebelar, até ser fechada em 01 de março de 1836. Dois anos depois, Vicente da Fontoura assume como chefe de Polícia de Rio Pardo e Cachoeira e reinstala a Câmara, que três anos depois prestava juramento de fidelidade à República instalada em Piratini. Mas, sob a ameaça do exército imperial, no dia 01 de maio de 1840 os vereadores realizaram a última sessão da Câmara Republicana.
Em 10 de junho, uma brigada legalista chegou à Cachoeira e um dia depois o major Manoel Adolpho Charão era designado para restabelecer o regime monárquico na cidade. Os vereadores foram obrigados a reconhecer Dom Pedro IIcomo Imperador e a entregar a correspondência trocada com o governo farroupilha. "As atas do período revolucionário foram arrancadas do livro da Câmara", conta a professora Ione Carlos 48 anos.
Bagé
(02/02/1847)
Federalistas resistem por 46 dias
Os antigos moradores de Bagé presenciaram de camarote um dos muitos episódios sangrentos que tornaram a Revolução Federalista de 1893 uma das mais violentas da história do Rio grande do Sul.
Durante exatos 46 dias, maragatos tomaram a cidade e sitiaram seus adversários pica-paus na Praça da Matriz. Fome, sede e doença substituíam a famosa degola na tarefa de abater o inimigo. Protegidas somente por trincheiras e canhões, as forças que defendiam o governo Júlio de Castilhos resistiram até a chegada de reforços.
Desde o dia 24 de novembro era possível avistar os piquetes de lanceiros federalistas arrebanhando cavalos pelos subúrbios. Aos poucos, os revolucionários foram estabelecendo o sítio. Aproximadamente 1.000 homens (membros do Partido Republicano e do Exército) foram cercados entre a praça da Igreja Matriz de São Sebastião e as ruas próximas. O quadrilátero da resistência legalista não passava de 10 mil metros quadrados.
Em volta desta área, cerca de 5 mil federalistas se revezavam no ataque às barricadas erguidas nas esquinas. "Eles tinham o apoio de uma parte da população que os abrigava nas casas da periferia", conta o engenheiro agrônomo José Cypriano Nunes Vieira, 69 anos, bisneto da irmã de Joca tavares, um dos líderes do sítio.
Nos primeiros dias de combate, a artilharia marcou o cerco. A igreja e os prédios foram crivados de balas. Alguns castilhanistas deserdaram. As fugas se davam pela zona sul da praça, onde era mais fácil chegar ao cemitério que ficava a 800 metros. O medo da morte falava mais forte.
Por volta das 4 horas do dia 22 de dezembro, uma curta trégua permitiu que alguns familiares dos combatentes sitiados penetrassem nas trincheiras. Por quase um mês, eles haviam ficado sem notícias de seus parentes e amigos.
Naquela oportunidade, as duas forças tentaram selar um armistício. Uma comissão de revolucionários propôs a rendição ao general Carlos Telles, comandante dos republicanos. A resposta fechou todas as portas: "Vocês é que devem depor as armas, porque estão fora da lei."
No 30 dia de luta, a ração dos republicanos estava em apenas um quarto do necessário para alimentar os 800 homens. Famintos e cansados, os pica-paus dormiam ao relento e comiam carne de cães, gatos e cavalos. Em busca de água ou comida, Telles formava piquetes que saíam a procuram mantimentos. Muitos soldados eram surpreendidos e acabavam não retornando.
Com a aproximação dos reforços solicitados pelas tropas castilhanistas, em 5 de janeiro de 1894 Joca Tavares resolveu promover o ataque final. Derrubando muros e perfurando paredes, os maragatos avançaram. Informados da ação, o general Carlos Telles antecipou a defesa, colocando abaixo paredes de dois prédios que ainda não haviam sido alcançados pelos rebeldes. As forças adversárias se encontraram no meio do caminho. O tiroteio foi intenso até que os legalistas dispararam os canhões e uma descarga de granadas contra a linha federalista.
Dois dias mais tarde, as tropas sitiadas deixaram de ouvir as armas maragatas. Por volta das 23 horas, um piquete saiu para sondar o terreno e voltou com a boa notícia: a cidade estava deserta. Na manhã seguinte, as tropas ansiosamente esperadas como reforço se aproximaram de Bagé. O sítio havia terminado antes da desistência dos sitiados.
O frágil forte construído pelos espanhóis
Barro, madeira e palha. Em novembro de 1773, os espanhóis pensavam que estes materiais segurariam o exército da Coroa Portuguesa durante uma possível retomada do território controlado por eles haviam 10 anos.
Sem perceber o erro de engenharia militar que estavam cometendo, o governador das Províncias do Rio do Prata, Juan José Vertiz y Salcedo, levantou o Forte de Santa Tecla, às margens do Rio negro, em Bagé.
A construção ficou à cargo do francês Le Coq. Com muralhas de barro calcado, construções internas de pau-a-pique e telhados de palha, a fortificação tinha o formato pentagonal. Em cada uma de suas extremidades, um baluarte fazia invocação a São Francisco, Santo Agostinho, São Miguel, São João Batista e São José. No lado sul, um fosso dificultava a escalada das tropas inimigas.
Foi o que salvou temporariamente a frágil fortaleza. A obra ficou pronta em 1776, às vésperas de um ataque que iniciou em 28 de fevereiro. Plantadas em uma coxilha, as muralhas de Santa tecla produziam despenhadeiros naturais que impossibilitavam a escalada de tropas inimigas. Sem possibilidade de invadir, as tropas dirigidas pelo sargento-mor Rafael Pinto Bandeira resolveram esperar.
Dpois de enfrentar um cerco que durou quase um mês, o comandante da fortaleza, Don Luiz Ramirez propôs a paz. o chefe das forças portuguesas aceitou a rendição. Prendeu os adversários e colocou fogo no forte.
Alegrete
(17/02/1834)
A Revolução Farroupilha viveu dias decisivos e deu seus suspiros finais em Alegrete. Durante cinco anos, a terra natal de Oswaldo Aranha foi a terceira e última capital da República Riograndense.Neste período, os insurretos redigiram e colocaram em prática a primeira constituição republicana do Brasil. A carta farrapa daria uma sobrevida ao movimento revoltoso que já estava mortalmente ferido pela ofensiva do exército legalista. A pressão das forças imperiais fez com que os revolucionários abandonassem Caçapava do Sul em rodas de carretas em meados de 1840. Desde março do mesmo ano, porém, a sede administrativa da nação gaúcha já havia sido instalada mais ao oeste, na vila de Alegrete.
O futuro município agarrou com as duas mãos a causa separatista iniciada em 20 de setembro de 1835 com a tomada de Porto Alegre. Nos dois primeiros anos da Revolução Farroupilha, a câmara de vereadores já havia deixado de arrecadar impostos emprotesto à voracidade fiscal da corte. Planejada para ser convocada a partir de 30 de maio de 1840 ainda em Caçapava, a assembléia constituinte republicana teve de esperar algum tempo para ser colocada em prática. Em setembro de 1842, os gaúchos elegiam os 36 donos das cadeiras e 12 suplentes que escreveriam a Constituição. Naquele mesmo mês, o Barão de Caxias era nomeado presidente da Província e comandante-em-chefe do Exército de Operações do Império.
Dezembro de 1842. Bento Gonçalves abriu os trabalhos legislativos, que terminariam em 9 de janeiro do ano seguintes, em uma sessão solene no prédio do Judiciário. No discurso, o ex-deputado revelou o tom que constaria no projeto da carta: "Se julgardes conveniente legislar sobre outros objetos, lembrai-vos de que a moral pública, a segurança individual e de propriedade exigem pronta reforma nas leis que provisoriamente adotamos, pouco adequadas às nossas atuais circunstâncias."
Nascimento marcado pelo fogo inimigo
O nascimento de Alegrete foi marcado a fogo pelos uruguaios. Nos séculos 18 e 19, os vilarejos surgiam ao redor das capelas que registravam óbitos, nascimentos e casamentos. Os exércitos da Província do Prata sabiam que destruindo um templo, atrasavam o desenvolvimento. Foi o que fizeram com Alegrete. Em 16 de setembro de 1816, o então Povoado dos Aparecidos, localizado na região do Inhanduí, recebeu a visita das tropas do general Artigas. A Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida ficou em cinzas. Desesperados, os habitantes buscaram socorro no acampamento do exército imperial, estabelecido à margem esquerda do Rio Ibirapuitã. Com a ajuda das forças portuguesas comandadas pelo general Thomaz da Costa, os moradores ergueram uma nova capela. Não durou muito. Em 1828, uma nova invasão - comandada provavelmente pelo uruguaio José Rivera - fez com que o fogo colocasse abaixo novamente a igrejinha. Determinados, os moradores a reconstruíram. Em homenagem ao general, a capela passou a se chamar Nossa Senhora da Conceição Aparecida de Alegrete.
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"Cohen, qualquer artigo de jornal, revista, etc., que falar da história do município do Alegrete e não falar da origem do nome estará incompleto e sem sentido. O Comandante das tropas era o Marquês de Alegrete (Dom Luis Teles da Silva Caminha e Menezes) e foi ele quem fundou a Vila de Nossa Senhora Aparecida da Conceição do Alegrete, às margens do Ibirapuitã, e não o general Tomás.
Como dizemos nós os gaúchos "me desculpa o jeito". Espero que a correção tenha sido feita, por uma questão de justiça com o fundador da cidade, o Marquês de Alegrete. O Gen Tomás pouco ou nada tem a ver com a fundação do Alegrete. É obrigação nossa contribuir para resgatar a verdade histórica.
Permanecemos à tua disposição, através do meu e-mail e também na Av. João Pessoa, 567, através do Edson Otto, se eu não estiver por lá.
Luiz E. C. Giorgis - 1º Vice-Presidente do Instituto de História e Tradições do RGS
Os planos de conquistar o Rio Grande do Sul começaram cedo. Por volta de 1847, quando ainda era tratado de El Generalito, Solano Lopes invadiu a província argentina de Corrientes. Sem ser reconhecido, atravessou o rio Uruguai e verificou as condições de combate em algumas fazendas do interior de São Borja. Quase 20 anos mais tarde, o projeto de invasão foi concluído.
Depois de ocupar o sul da Província do Mato Grosso, o comandante paraguaio decidiu avançar em direção ao território gaúcho. No início de 1865, seu exército contava com mais de 60 mil homens e um grande estoque de armamento e munição. Sob o comando do coronel Antônio de la Cruz Estigarribia, uma coluna com cerca de 12 mil soldados partiu rumo ao Sudeste. A missão: invadir o Rio Grande do Sul e o Estado Oriental do Uruguai.
Mesmo alertado sobre a intenção do inimigo, o chefe das forças da fronteira, coronel Antônio Fernandez Lima, não acreditou na rapidez dos paraguaios e permaneceu com seus 2 mil homens no Passo da Pedra, metade do caminho entre Itaqui e São Borja. Pouco mais de 650 homens tentaram defender a cidade quando os adversários iniciaram a travessia do rio no Passo de São Borja. Eram 10h do dia 10 de junho de 1865.
Depois de quatro horas de luta, os defensores receberam o auxílio do 1o Batalhão dos Voluntários da Pátria, comandado pelo coronel João Maunel Menna Barreto. O reforço de última hora deu uma sobrevida à resistência brasileira. Estigarribia demorou dois dias para dominar a cidade. Controlada a situação, o coronel paraguaio ordenou o saque das casas. A derrotada e assustada São Borja estava deserta.
Como o alvo de Solano Lopes era Uruguaiana (de onde pretendia alcançar o Uruguai e unir forças com Aguirre), Estigarribia não permaneceu muito tempo na cidade. No dia 19 de junho, o ex~ercito paraguaio partiu. O prõximo destino seria Itaqui.
Isolada do teatro das operações, o palco da Guerra do Paraguai não precisou ser reconquistado. Havia sido abandonado por seus próprios atores.
Dinastia Vargas detém o poder
Em algum momento das vidas de Viriato, Protásio, Spartaco e Benjamin, ser irmão de Getúlio Vargas falava mais alto. Com certeza, mais positiva do que negativamente. Graças à trajetória política do filho do meio do general Manoel do nascimento Vargas, a família manteve-se no poder político de São Borja durante várias décadas. Valendo-se de estratégias diversas, os quatro Vargas e seus homens de confiança ficaram na fronteira controlando o rebanho eleitoral. Interrompida apenas pela ditadura militar, a família sempre indicou ou foi consultada na escolha dos governantes de São Borja. "Os trabalhistas estiveram na prefeitura do início do século até 1988", afirma o ex-prefeito Florêncio Guimarães, 71 anos, um dos fundadores do antigo PTB. "Até a morte de Getúlio, todos eram membros da família ou amigos dele", acrescenta.
O estadista mais controvertido da história brasileira e o comportamento de seus irmãos ofuscaram até a imagem do pai. Veterano da Guerra do Paraguai e da Revolução Federalista de 1893, Manoel foi o primeiro Vargas a comandar o município. "A força do general nunca chegou aos pés do domínio dos filhos", considera o pesquisador Timótheo Ávila, 60 anos.
Depos de governar de 1907 a 1911, o cetro do pai passou para o filho mais velho. Durante o mandato do coronel Viriato Vargas (1911-14), São Borja assistiu a um grande número de perseguições políticas. A situação era tão delicada que Viriato chegou ao ponto de se exilar na Argentina depois de ser acusado como mandante do assassinato de um médico.
Quando Getúlio saiu da Revolução de 30 como presidente da República, a cidade virou o quintal dos Vargas. Sob o comando de Benjamin "Beja" Vargas, o 14o Corpo Provisório tornou-se o braço armado do poder. "Eles reprimiam qualquer tipo de manifestação de oposição atuando como defensores das idéias da família", conta Ávila. Anos depois, um dos soldados mais temidos tornou-se chefe da guarda pessoal do presidente. Seu nome: Gregório Fortunato.
O primeiro dos sete retornos
Na liderança de 1.952 pessoas, o padre jesuíta Francisco Garcia atravessou o Rio Uruguai para fundar uma colônia em sua margem esquerda. O aldeamento pertenceria à redução de Santo Tomé. Foi batizado de São Francisco de Borja. O ano era 1682. Este seria o primeiro de uma série de sete retornos que trariam de volta ao solo gaúcho os guaranis catequizados pela Companhia de Jesus. Quase 50 anos antes, os bandeirantes paulistas haviam expulsado os índios para o lado argentino.
Formada por famílias educadas e integradas ao trabalho, a colônia se desenvolveu rapidamente. Com a volta dos habitantes de outras reduções em 1687, o povoado recbeu a autorização para caminhar com suas próprias forças. Nasciam os Sete Povos das Missões Orientais do Uruguai.
O mineiro seduzido pela fronteira
Poucas cidades no Estado devem seu surgimento aos farroupilhas quanto Uruguaiana. Numa época em que a ocupação da região não passava de algumas fazendas espalhadas pelas grandes extensões de terra, coube ao farroupilha e ministro da Fazenda do governo de Bento Gonçalves, Domingos José de Almeida, a idéia de fundar um povoado estratégico na fronteira com a Argentina.
Ao examinar o local para a instalação do novo povoado, Domingos José de Almeida escreveu, em 1841: "Oferece uma excelente posição militar que para o futuro poderá fazer grande peso na balança política e comercial com nossos vizinhos." Nascido em Diamantina, Minas Gerais, em 1797, Almeida migrou para o Estado ainda jovem, com 22 anos de idade, para conduzir tropas de mula a serem vendidas no centro do país.
Encantado com a terra e a gente do Sul, o mineiro resolveu se instalar na cidade de Pelotas, onde logo abriu um escritório destinado à venda de charque para o centro do país e para o Exterior. Poucos anos depois, tornou-se proprietário de uma pequena charqueada às margens do rio São Gonçalo, o que fez dele um dos cidadãos mais prósperos de Pelotas nessa atividade.
O professor Vanderlei Rodrigues comenta que um dos traços mais característicos de Almeida era sua convicção liberal. "Almeida acompanhava todos os movimentos de cunho liberalista que ocorriam no Brasil", explica o professor. Em 1822, tirou dinheiro do próprio bolso e custeou uma manifestação pública em Pelotas para comemorar a Independência do Brasil.
Além de liberal, Almeida era homem preocupado com a escolaridade da população. Enquanto deputado na Assembléia Provincial, em Pelotas, lançou a campanha de alfabetização da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O então deputado inconformava-se com o fato de o Paraguai contar com 408 escolas públicas e a província local não ter nenhuma.
Estátua para o homem das carretas
Começa a Revolução Farroupilha e Domingos de Almeida recebe uma tarefa dos amigos: organizar, além do parque bélico farrapo, na cidade de Pelotas, a fábrica de arreamento para a cavalaria. Os exércitos de deslocavam (Piratini, Caçapava, Alegrete), e ele movimentava os arquivos do governo e o seu arsenal pela Campanha gaúcha sempre em carretas.
"Por isso a revolução era chamada de República das Carretas", diz o professor Vanderlei Rodrigues. Em 1840, diante do cerco das milícias imperiais aos farrapos, Almeida determina a criação de uma planta para a nova povoação que viria a ser Uruguaiana. Como ministro da Fazenda da República Riograndense, queria uma vila de apoio ao comércio com Buenos Aires. As forças imperiais haviam conquistado as cidades de Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre, cortando o intercâmbio comercial desses entrepostos com o interior da Província.
Em 1846, Uruguaiana é fundada. Almeida morreu aos 74 anos, em 1859, em Pelotas. Uruguaiana retribuiu seus gestos com uma estátua em praça pública.
A cidade ganha o reforço do capital estrangeiro
O saladeiro que hoje se desmancha em ruínas no extremo oeste do Estado, na localidade de Barra do Quaraí, na fronteira com o uruguai, é o que sobrou da principal atividade produtiva de Uruguaiana do começo desse século. Marca de um passado de pujança econômica, o Saladeiro Quaraí foi uma das principais indústrias da região entre 1887 - quando foi inaugurado - e 1947, ano de seu fechamento.
A data culmina com o surgimento dos primeiros frigoríficos do Estado. Até a década de 30, charqueadas como o Saladeiro Quaraí foram responsáveis pelo crescimento econômico da região.
Numa época em que Uruguaiana carecia de outros empreendimentos, a instalação do saladeiro foi responsável por uma série de benefícios para a região. O professor de história Hamilton Rodrigues comenta que o saladeiro instalado na Barra do Quaraí era um dos maiores da região e recebia investimentos de capital estrangeiro.
"A sua instalação na fronteira com Uruguai e Argentina era estratégica, pois, além de receber gado uruguaio para abate, todo o escoamento da produção era feito por ferrovias até Montevidéu, onde seguia para o Exterior", explica.
Rodrigues observa que os investimentos de capital privado deram um impulso à economia e à infra-estutura da região. A ligação ferroviária entre Uruguaiana e Montevidéu, a instalação de uma indústria de velas e sabão para aproveitanemtno de subprodutos do abate de gado e uma fábrica de queijos surgiram a reboque dos saladeiros. Rodrigues lembra que o negócio era altamente rentável no ano de 1900. "O saladeiro da Barra do Quaraí chegou a abater 3000 mil cabeças de gado naquele anos para abastecer o mercado externo", conta.
Uma das últimas testemunhas vivas daquele tempo, o uruguaio Marcelino Silva, 84 anos, recorda os tempos em que estendia os charques no varais. "Era uma época de fartura. Abatíamos 300 cabeças de gadopor dia numa jornada que começava ás 3 horas da manhã e se estendia té o final da tarde", lembra. Silva recorda que trabalhavam ali cerca de 150 empregados, além de centenas de tropeiros que conduziam as tropas de gado de toda a fronteira. "Havia até uma banda para diversão dos empregados com maestro inglês", diz o aposentado.
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Uruguaiana - aspectos da fundação - gentileza de Luiz Felipe Menezes Silva - Fonte de pesquisa: URUGUAIANA, Imagem viva da terra gaúcha - Câmara Municipal
A cidade de Uruguaiana foi fundada por Domingos José de Almeida, Mineiro, nasceu a 09 de julho de 1797 no distrito de Diamantina, em Minas Gerais.
Domingos José de Almeida veio para o Rio Grande do Sul para fazer fortuna no negócio de mulas, que seriam vendidas em São Paulo e Minas Gerais, fixou residência em São Francisco de Paula (atual Pelotas), onde juntou-se ao movimento do Farroupilhas em 1835.
A nossa cidade foi fundada pela necessidade de um ponto de apoio ao exército revolucionário, e para controle desta região que se ressentia da falta de segurança, visto que agiam nestas fronteiras grupos de bandoleiros, sendo escolhido para tal missão o cidadão Joaquim dos Santos Padro Lima, isto feito pelo Ministro da Fazenda Domingos José de Almeida. Foi escolhido um ponto estratégico entre a barra do Ibicuí e o passo de Santana Velha. Ali, na confluência do Guarapuitã com o rio Uruguai, formou-se um acampamento militar, e juntamente um conjunto de aproximadamente 100 ranchos, porém não havia nenhuma capela. Em 1839 surge a idéia de transferir a povoação para um lugar mais seguro, visto as enchentes freqüentes no local.
Na época era comandante militar desta fronteira o General Davi Canabarro, e teve importante influencia na decisão da escolha da mudança da povoação. O novo local escolhido foi a coxilha do Capão do tigre a poucos quilômetros dali, terra que pertencia a Couto Rico, surge então a povoação de Uruguaiana às margens do Rio Uruguai, formada por pessoas vindas de vários recantos da província.
Como estas terras pertenciam ao município de Alegrete, o General Bento Gonçalves da Silva, então Presidente da Província de Peratini, sanciona por decreto de 24 de Fevereiro de 1843 autorização para instalação de uma Capela Curada no local e a imediata transferência das moradias do passo de Santana Velha, como também a construção de um posto fiscal e prédio para posto de milícias. Pelo decreto fica determinado que o nome da nova povoação será "CAPELA DO URUGUAI".
Por lei provincial nº 58 de 29 de maio de 1846 a povoação de Santana foi elevada a categoria de vila, que se chamará URUGUAIANA, sendo assim o território desmembrado de Alegrete, e em 24 de abril de 1847, uma comissão veio a vila para instalação do novo município e também da primeira Camará Municipal, tendo como presidente da mesma e do governo do município o vereador Venâncio José Pereira.
Por lei nº 808 de 06 de abril de 1874 a Uruguaiana foi elevada a categoria de Cidade. A lei foi assinada pelo Bacharel João Pedro Carvalho de Morais, então Presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
No ano seguinte por lei nº 865 de 29 de março de 1875, foi ciada a COMARCA DE URUGUAIANA. Até esta data Uruguaiana, juntamente com Itaqui, Cruz Alta e São Borja, pertenciam a Comarca de Alegrete.
De janeiro de 1890 a junho de 1892 governou o município de Uruguaiana uma comissão de intendentes formada por cidadãos de destaque na vida do município constituida por Dr. Joaquim Vaz do Prado Amaral, Dr. Antônio Gomes Pereira, João Saturnino Reis, Vitor Pereira da Silva e Urbano José Vilela. A 27 de Outubro de 1892, Uruguaiana tem aprovado seu Conselho Constituinte e a sua Lei Orgânica, e através dela foi nomeado o Coronel Gabriel Rodrigues Portugal como primeiro Intendente para o quadriênio seguinte, este governou de 1892 a 1900.
Hino de Uruguaiana
Letra e música: Silvio Rocha
Uruguaiana
Feliz tu nascestes
À beira de um rio
Sorrindo ao luar
Uruguaiana
Cidade alegria
Ouve a melodia
Deste meu cantar
É um canto modesto
Que é o manifesto
Do meu coração
Ele quer adorar-te
Pois tu fazes parte
Do nosso torrão
No jardim do meu país
És também uma flor
O teu povo é feliz
Vivendo neste esplendor
Cidade fronteira
És toda coberta
De um céu cor de anil
Tens a honra mais bela
De ser sentinela
Do nosso Brasil
Bandeira de Uruguaiana
Taquara nasce nas terras de Tristão
O governo imperial não foi o único agente na colonização do nordeste do Rio Grande do Sul. Em algumas regiões, a tarefa de assentar famílias de imigrantes europeus em terras selvagens também ficou a cargo de proprietãrios de sesmarias.
Em Taquara, o responsável pela venda dos lotes era Tristão José Monteiro. Dono de grandes áreas na zona de São Leopoldo, ele comprou a sesmaria de Antônio Borges de Ameida Leães.
"Tristão veio para cá com a intenção de colonizar", afirma o pesquisador Adelmo Trott, 75 anos. Agrimensor (medidor de terras) por profissão, Tristão tratou logo de demarcar os terrenos de 48 hectares.
Em 4 de setembro de 1846, a colônio Mundo Novo estava pronta para ser ocupada. Faltava apenas encontrar os colonos que povoariam as margens dos taquarais do Rio dos Sinos. Missão que não foi muito difícil para um homem bem informado.
Cerca de duas décadas antes, a imperatriz Leopoldina havia tentado estabelecer imigrantes alemães no sul do Brasil para produzir linho-cânhamo (fibra vegetal utilizada na manufatura de tecidos). o projeto tinha fracassado porque a planta não se adaptara ao clima local. Os alemães ficaram sem perspectivas.
Foi no meio deste naufrágio que Tristão lançou seu salva-vidas. Acenando com um preço acessível por lote (300 mil réis) e solo fértil, o sesmeiro conseguiu vender seu peixe para centenas de imigrantes da colônia de Sâo Leopoldo. As primeiras sete famílias chegaram no dia 7 de setembro de 1846.
Durante os primeiros anos, os alemães procuravam trabalhar em sistema de mutirão para evitar o ataque de um inimigo feroz. Antigos donos da terra, os bugres que habitavam a região promoviam massacres para espantar os invasores.
Em 1852, Pedro Wartenpuhl foi morto por índios que sequestraram sua mulher, a filha e dois netos. Apesar das ameaças, os imigrantes provenientes da região do Hunsrück gostaram do que viram. As colônias ficavam na confluência de dois rios (Sinos e Paranhana) e eram cercadas por elevações (Encosta Inferior do Nordeste).
Não foram necessárias mais que algumas visitas às antigas colônias para que os moradores do Mundo Novo atraíssem novo interessados nos lotes reservados aos colonizadores. "Dez anos depois, aproximadamente 400 famílias já moravam em Taquara", calcula Trott. Dali integrantes destes grupos pioneiros sairiam mais tarde para estabelecer as primeiras raízes de Canela e Gramado.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Santa Maria
Um posto indígena, pertencente a uma das estâncias missioneiras, seria a origem de Santa Maria, segundo Hemetério José Veloso da Silveira. No entanto, José de Saldanha, engenheiro e astrônomo da Comissão Demarcadora de Limites entre Portugal e Espanha, instituída pelo Tratado de Santo Ildefonso (1777), não fez, em seu diário resumido, nenhuma referência à existência de qualquer povoamento de índios ou brancos.
Em 15 de abril de 1787, Saldanha chegou e acampou na margem ocidental do passo sobre o arroio de Santa Maria, hoje Passo da Areia, denominando o local como "Rincão de Santa Maria".
Em 1789, Francisco Antônio de Amorim recebeu em sesmaria o Rincão de Santa Maria, vendendo-o, em seguida, ao padre Ambrósio José de Freitas, que em 1794, com permissão do bispo do Rio de Janeiro, oficia missa no oratório de sua estância, localizada às margens dos arroios Santa Maria e dos Ferreiros, atualmente denominados Cadena e da Ferreira.
No ano de 1789 o território atual do município foi quase totalmente dividido em sesmarias e, em consequência de desentendimentos ocorridos entre os demarcadores espanhóis e portugueses, a Segunda Sub-Divisão da Comissão Demarcadora de Limites, chefiada por Francisco João Róscio, instalada em Santo Ângelo das Missões, recebe ordens de recolher-se à proteção da Guarda Portuguesa, instalando-se em novembro de 1797 em área da estância do padre Ambrósio, local onde hoje se encontra a rua do Acampamento, dando origem assim a antiga denominação do município: Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte.
Agosto de 1801 assinala a extinção da Comissão Demarcadora, bem como a retirada da maioria de seus componentes. Pouco a pouco os ranchos do Acampamento vão se modificando, transformando-se em construções mais sólidas, nas primeiras ruas, a de São Paulo ou Acampamento, a Pacífica, hoje Dr. Bozano, e a estrada da Aldeia, mais tarde avenida Ipiranga e hoje Presidente Vargas.
Junto com o progresso, chega a luta contra os orientais e Santa Maria passa a ser um centro de atividades militares e de comércio.
O Oratório do Acampamento de Santa Maria da Boca do Monte foi elevado a Curato em 28 de julho de 1810 e provido a 27 de julho de 1812 o padre Antônio José Lopes como cura, tomando posse somente em 21 de janeiro de 1814.
Com a elevação de Cachoeira a categoria de vila e município, em 26 de abril de 1819, Santa Maria passou a constituir seu 4º distrito, que estava dividido em dois sub-distritos: Santa Maria e Pau Fincado.
Em abril de 1812, o sábio e naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, ao visitar o povoado, contou cerca de 30 casas, mas o primeiro censo só foi feito cinco anos depois, apontandop a existência de 304 prédios e cerca de dois mil habitantes.
Com o estacionamento do 28º Batalhão de Estrangeiros em 1828, seguido pelo 1º Batalhão em 1831, os quais eram constituídos de alemães assalariados para a luta contra os orientais, muitos de seus membros aqui ficaram ao dar baixa, atraindo desta forma novos colonos germânicos de São Leopoldo e municípios vizinhos.A Revolução Farroupilha inicia em 1835 e o povoado começa a sofrer o êxodo e a intranqüilidade. Neste período é elevado a categoria de Freguesia de Santa Maria da Boca do Monte., em 17 de novembro de 1837.
Em 16 de dezembro de 1857 é elevada a categoria de vila, emancipando-se de Cachoeira. Mas somente em 17 de maio de 1858 foi solenemente instalada sua primeira Câmara Municipal, presidida pelo coronel José Alves Valença e integrada por João Tomás da Silva Brasil, João Pedro Niederauer, Maximiano José Appel, Veríssimo de Oliveira, Francisco Pereira de Miranda e Joaquim Moreira Lopes.
A 6 de abril de 1876 foi elevada a cidade, sofrendo, como outros municípios, a crise resultante da guerra e das lutas políticas entre conservadores e liberais, no derradeiro período do Império.
Hoje, com uma população de aproximadamente 250 mil habitantes, Santa Maria é uma das maiores cidades do Rio Grande do Sul e um importante centro militar e estudantil do Brasil.
São Marcos
(17/02/1834)
A denominação São Marcos aparece, pela primeira vez, num documento de 1790, referente a Fazenda Souza. O rio, que é um dos limites do território, é chamado de São Marco. A mesma denominação recebe um potreiro que está na região.
O teor deste documento, a expressão "Marco" que pode ter derivado do castelhano e a presença de jesuítas espanhóis na região nos levam à hipótese de que estes teriam denominado o rio, e o rio deu o nome à região e, posteriormente, à colônia.
Através do tempo, o atual território de São Marcos foi conhecido por diferentes nomes: Sesmarias Palmeiras, Fazenda das Palmeiras dos Ilhéus ou Fazenda dos Ilhéus, Invernada da Pedra Branca ou do Morro da Canastra, Invernada do Ranchinho ou Fundos do Ranchinho, Núcleo Colonial São Marcos e Colônia São Marcos, São Marcos de Cima da Serra, Curato São Marcos, São Marcos dos Polacos, São Marcos de Caxias, até chegar definitivamente à denominação "São Marcos" a partir de sua emancipação em 9 de Outubro de 1963.
Antes de sua emancipação São Marcos pertenceu à: Santo Antônio da Patrulha, São Francisco de Cima da Serra, Taquara, e Caxias do Sul.
Os limites do município são: a Norte, Vacaria, a Sul, Caxias do Sul, a Leste, Caxias do Sul, a Oeste, Antônio Prado e Flores da Cunha. Sua área é de 263,7 km2, com altitude de 830 metros. Seu clima é temperado com frio intenso. Tem como relevo imensos derrames basálticos do Planalto Meridional com profundos vales, sendo uma região bastante acidentada ao lado Oeste enauqnto a Leste tende a suavizar com o início da zona do campo. Sua vegetação é de matas subtropicais composta por: cedros, guabijus, carvalhos brasileiros, cerejeiras do mato, guaçatunga, uvaia, canela lajeana, pitangueiras, tarumãs, araucárias, corticeiras da serra, angicos, sete sangrias, ipês amarelos, goiabeiras da serra, coqueiros, acácias, iliotis e ligustros. A hidrografia é formada pelo Rio das Antas, São Marcos, Redondo, Arroio Studulski e Arroio Timbori.
O núcleo colonial São Marcos foi fundado em 1885 por imigrantes italianos que chegaram às margens dos Rios São Marcos e das Antas (localidade de Linha Riachuelo, onde fala-se o dialeto mais antigo que existe no mundo; Linha Humaitá, Marechal Deodoro e Zambicari). Porém somente a partir de 1891 começaram a chegar os Poloneses que estabeleceram-se na localidade de Santo Stanislau / Linha Rosita, Santo Henrique e Edith). Não se pode ignorar também o grande número de nacionais (peões de fazenda, capatazes, ex-escravos, aventureiros e mesmo agricultores açorianos vindos de São Paulo) que aqui se estabeleceram. Os negros também marcaram presença na formação do povo são-marquense (concentraram-se nas localidades do Juá e Rincão dos Quilombos (este, próximo ao Rio da Mulada).
Comumente, se afirma terem os poloneses, os italianos e os lusos os primeiros habitantes de São Marcos. A tendência é ignorar ou omitir os indígenas, embora existam aspectos que facilmente se identificam com essa cultura, em algumas localidades da cidade.
Os imigrantes que vieram para São Marcos empreenderam essa viagem após meses de espera no barracão de Caxias, pois tinham esperança de receber um lote, por lá mesmo. O caminho para o núcleo São Marcos passava pelo atual município de Flores da Cunha, descia a encosta do rio São Marcos e cruzava o rio na localidade hoje denominada Capela de Santo Antônio do Zamoner. Vinham a pé, a cavalo e em cargueiros. O transporte era pago pelo governo, que distribuia lotes para os mesmos.
Não havia estradas que chegassem até o núcleo, apenas as que serviam a região do campo. A primeira estrada foi aberta em 1890, passando por Flores da Cunha para chegar até Caxias. Em 1907 iniciaram a construção da estrada que ainda hoje liga São Marcos à Flores da Cunha e Antônio Prado. Em 1916 já estavam em andamento as obras da estrada que hoje liga São Marcos `a Caxias do Sul. Somente ao final da década de 30 é que o governo do estado planeja construir a BR 116, o que foi fundamental para o desenvolvimento da cidade.
A partir de 1907 até 1917 o movimento migratório acentuou-se e em pouco tempo praticamente todos os poloneses migraram para o Vale do Alto Uruguai e do Rio do Peixe.
A economia são-marquense está fundamentada na agricultura (é o maior produtor de alho do estado, uva e hortifrutigranjeiros), indústria (metalúrgica, calçadista, moveleira, vitivinícola e fibra de vidro), comércio e serviços (neste incluído o transporte de cargas, São Marcos é a cidade brasileira que possui o maior número de caminhões per capita, conhecida como a "CAPITAL DOS CAMINHONEIROS" ) hoje com aproximadamente 20.000 habitantes.
Podemos citar como eventos que acontecem no município, dentre outros: Musimarco, Marcoarte, Rodeio Crioulo Nacional de São Marcos, Marcofest, Festa de Nossa Senhora Aparecida e dos Motoristas. Tem como pontos turísticos: Morro do Calvário, Igreja Matriz e Gruta Nossa Senhora Aparecida, Igreja São Luiz, Museu Municipal, dentre outros.
Origem: extraído de História de São Marcos, de Luiz Rizzon e Osmar Possamai e contribuição da Prefeitura de São Marcos, gentileza de Bernardete Angela Manosso
São Leopoldo
(24/07/1846)
Um vale com a marca dos alemães
O desenvolvimento do Vale do Sinos iniciou-se com os alemães que chegaram à região em 24 de julho de 1824, data em que se comemora a fundação de São Leopoldo.
A idéia de trazer imigrantes da Alemanha surgiu porque eles não estavam ligados a nenhuma invasão do país, que havia alcançado a independência de Portugual recentemente. Até então, o local onde os primeiros 39 imigrantes se instalaram era conhecido apenas como Feitoria do Linho-Cânhamo, de propriedade do governo português e desativada quatro meses antes. Os colonos chegaram em busca de terras e de uma vida melhor e batizaram o lugar de Colônia Alemã de São Leopoldo em homenagem ao padroeiro da imperatriz Leopoldina.
Em dezembro de 1824, o presidente da província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, mais tarde Visconde de São Leopoldo, visitou a colônia e previu que próximo ao local utilizado para atravessar o Rio dos Sinos, onde hoje é o centro da cidade, haveria enchentes. Fernandes Pinheiro escolheu a Floresta Imperial, distante da outra margem, local onde está Novo Hamburgo, para ser a sede.
O administrador das terras, José Thomaz de Lima, não tinha interesse na transferência por causa da localização de suas terras. Com a mudança, perderia o controle da colônia. A sede acabou ficando inalterada, mesmo com enchentes. Em 1828, os alemâes construíram uma capela onde hoje é a Igreja Matriz e o local foi tomando aspecto de povoado.
A produção agrícola se desenvolveu e, em poucos anos, a colônia abastecia a Capital. Os produtos eram levados pelo Rio dos Sinos. Além da atividade agrícola, os alemães eram artesãos. Trabalhavam com madeira, couro, ferro e fibras, e formaram as bases da industrialização no Rio Grande do Sul.
Os produtos confeccionados pelos seleiros de São Leopoldo eram "sehr gut" (muito bons). Da expressão surgiu a expressão serigote, tipo de sela utilizada pelos gaúchos dos Campos de Cima da Sera, região de São Francisco de Paula.
Os colonos não são responsáveis só pelo desenvolvimento da colônia. Construiram escolas (Gemeindeschule). Em 1938, já existiam mais de mil, o que explica o baixo índice de analfabetismo no Estado.
Os alemães, apreciadores da vida em grupo, também foram os responsáveis pela proliferação de sociedades de canto, tiro e bolão. Fundada pelos colonos em 1858, a Sociedade Orfeu, em São Leopoldo, é uma das mais antigas do Brasil.
Sede da colônia alimentava a Capital
À base de trabalho árduo, principalmente dos colonos alemães, na virada do século 20, o município de São Leopoldo representava um importante parceiro comercial de Porto Alegre.
Fornecia produtos agrícolas e gado de corte para alimentar os habitantes da Capital. O Rio dos Sinos, apesar da existência de ferrovia desde 1875, era o principal canal de ligação entre as cidades. Nesta época, a sede da colônia alemã - São Leopoldo - contava com três núcleos: o Paço Real, onde hoje fica o centro, a Feitoria, e a Cidade Nova (atual bairro Rio dos Sinos).
São Leopoldo adquiriu status de cidade em 1864, mas no início do século ainda preservava o território da colônia alemã: 1,2 mil quilometros quadrados, mais de 10 vezes a área atual. A cidade se estendia de Sapucaia, ao sul, até o Campo dos Bugres (hoje Caxias do Sul), ao norte, de Taquara, ao leste, e Montenegro, a oeste. Eram as terras situadas entre os rios dos Sinos e Caí.
A rua principal já era calçada e contava com 115 lampiões a querosene na iluminação pública. Um funcionário da Intendência, munido de escada, os acendia todos os dias meia hora antes de anoitecer e os apagava na manhã seguinte. Como o meio de transporte era formado por cavalos e carroças, as calçadas contavam com argolas para prender os animais. A Feitoria representava a sede agrícola da cidade.
A construção da ponte 25 de Julho, em 1873, ajudou a desenvolver a região e permitiu a criação da Cidade Nova na outra margem do Rio dos Sinos. O local logo foi tomando a característica de pólo industrial, com a implantação de fábricas de chapéu, cerveja, champanha e cerâmica, entre outras. Em 1897, o intendente Epifânio Fogaça instituiu o aguadeiro municipal, que operou até a construção da hidráulica, 29 anos depois. O produto era distribuído em baldes.
Antonio Bernardes trabalhava como capitão da embarcação que fazia a linha São Leopoldo-Porto Alegre, pelo Rio dos Sinos. na virada do século, os dois vapores da Navegação Pedro Blauth & Cia levavam seis horas para concluir o percurso.
A filha do "prático do vapor", como era chamado Bernardes, Nair Bernardes de Souza, 78 anos, lembra que o pai nunca podia dormir no dia de folga. "Todos os domingos meu pai tinha que acordar cedo para libertar os marinheiros - muito bagunceiros - na delegacia", recorda Nair. enquanto mostra fotos dos tempos antigos. A avó de Nair, Alexandra Gonçalves, nascida em 1861, era uma renomada lavadeira. "O posto da vó Alexandra era o mais privilegiado e ela lavava roupas para a Casa Lang", orgulha-se a neta, que chegou a trabalhar com a vó, nos anos 20.
Alexandra, assim como as outras lavadeiras da cidade, era defendida pelo código de postura em vigor na virada do século, que proibia os cidadãos de zombarem das trabalhadoras enquanto buscavam as roupas na casa dos clientes. Cavalgar a galope na rua principal também se constituía uma falta grave. "Se o infrator fosse um negro, era preso e solto somente quando o seu patrão pagasse a multa", conta o historiador Telmo Lauro Müller.
Médico virou líder comunitário
O imigrante João Daniel Hillebrandt chegou a São Leopoldo em 9 de novembro de 1824. Com 24 anos e formado em Medicina, asusmiu a liderança da colônia por meio século. Homem simples e bondoso, obteve o reconhecimento como médico humanitário.
Defendeu os colonos principalmente durante a batalha do Paço do Rosário, em 1827, e coordenou a resistência aos revolucionários na Guerra dos Farrapos. Solteiro, enquanto muitos, inclusive médicos, fugiam da cidade durante a epidemia de cólera, em 1855, ele permaneceu e construiu um pequeno hospital.
Falecido em 1880, é até hoje homenageado. Hillebrandt lutou ao lado do Império durante a Revolução Farroupilha. Quando os revolucionários invadiram a colônia, em 1836, o líder se obrigou a fugir para Santa Maria do herval, onde ficou até o final da guerra.
Santana do Livramento
Uma festa para a criação da alfândega
A criação da alfândega de Santana do Livramento foi saudada com fogos de artifício em 10 de outubro de 1900. Menos de quatro meses antes, a cidade não sabia se o seu comércio sobreviveria mais alguns dias. Foi preciso uma campanha pública que envolveu os grandes comerciantes e as autoridades do município para que um ato do governo fosse revisto em favor dos negócios locais. O recebimento de artigos europeus com preços vantajosos em Livramento sempre foi garantido pela proximidade do porto de Montevidéu. "As mercadorias faziam concorrência com as praças comerciais do litoral do Rio Grande", diz o historiador lvo Caggiani, 64 anos. Mais do que simples competidores, os empresários da fronteira eram taxados de contrabandistas pelos varejistas de Porto Alegre, Pelotas e outros centros importantes.
A grita logo chegou aos ouvidos do ministro da Fazenda. Pressionado, ele resolveu limitar as zonas para a expedição de guias por parte das estações fiscais de fronteira. O choque paralisou a cidade e ressuscitou o contrabando de Rivera - a cidade uruguaia da fronteira - que havia sido quase dizimado desde a fundação da alfândega de Uruguaiana. Num passado não muito distante, Rivera colocava anualmente na província brasileira 3 mil contos de réis em mercadorias ilegais (cerca de 30 vezes o valor de uma boa casa).
"Sempre foi fácil importar pelo porto de Montevidéu e trazer os produtos por trem até Rivera", diz Caggiani. As denúncias de contrabando e o fechanento das zonas de expedição das guias fiscais, que já durava 10 anos, calaram fundo nos brios dos comerciantes fronteiriços. Além de aumentar em pelo menos 20% o preço final das mercadorias (valor do frete), onerando empresários e consumidores, o Estado havia recriado com força a figura do contrabandista.
Para dar um fim às acusações e retomar os negócios, em 1898 o jornalista Albino Costa desencadeou um movimento que exigia do império o alfandegamento da Mesa de Rendas Federais.
No dia 6 de agosto do ano seguinte, o jornalista radicado no Rio de Janeiro mandava novidades por telegrama: "AIfandegamento concedido. Realizamos aspirações comércio. Parabéns. Albino Costa". Recebida com foguetes e bombas, a boa notícia chegava quase três anos depois de uma outra que acabou se concretizando apenas em 1900.
No dia 14 de novembro de 1896, através do decreto 417, o governo havia criado a Alfândega de Livramento. Graças ao lobby de Porto Alegre e outra praças, o projeto não saiu do papel. Com o alfandegamento, a idéia voltou à tona. Dois meses mais tarde, os fogos voltaram a estourar na vizinha brasileira de Rivera.
Portugueses e espanhóis brigam por Sacramento
Assim como muitos municípios da fronteira sul, Santana do Livramento sofreu a expectativa de estar na mão de portugueses ou espanhóis de acordo com o soprar do vento. A Colônia do Santíssimo Sacramento, fundada em 22 de janeiro de 1680, foi o primeiro sinal de vida portuguesa no extremo sul do território em que a Coroa deitou posse. Foi também, durante quase um século, palco da disputa entre as duas nações européias. Sediada às margens do Rio da Prata, a povoação abrangia uma área imensa de terras (que atualmente englobaria o Uruguai e um pedaço do Rio Grande do Sul) incluindo ao norte a região de Livramento. Com a assinatura do Tratado de Madrid em 1750, a Colônia passou para a mão dos espanhóis ao ser trocada pelos Sete Povos das Missões.
A resistência dos guaranis fez com que as duas nações assinassem um novo acordo. O Tratado de El Pardo (l761) anulou o documento de Madrid e tudo voltou como estava antes de 1750. O vaivém se estendeu até o início do século 19, quando a distribuição de sesmarias e a passagem do Exército Pacificador (I 811/12) garantiu a definição da fronteira do Estado. A cidade de Colônia do Sacramento fica hoje a 177 quilômetros de Montevidéu. A antiga cidadela dos portugueses ocupava uma península a 48 quilômetros de Buenos Aires, na margem esquerda do Rio da Prata.
Depois de ser restaurada pelo governo, recuperando o aspecto que possuía no século 18, no ano passado Colônia do Sacramento foi tombada pela Unesco como patrimônio histórico da humanidade. O historiador Barbosa Lessa relembra que, na época da chegada dos português para criar Sacramento, a região da chamada Banda dos Charruas (hoje República do Uruguai), era habitada apenas por aveztruzes e por nômades índios charruas e minuanos.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Rolante
Pelo ano de 1888, iniciou-se o povoamento da sede de Rolante no município de Santo Antônio da Patrulha.
De acordo com alguns historiadores, os tropeiros que levavam gado do Rio Grande do Sul para São Paulo se reuniam em Viamão para seguir a estrada geral de Cristovão Pereira de Abreu, na direção do território paulista. Esse roteiro atravessava o território do atual município de Rolante.
Por volta de 1734 e 1735, quando de sua abertura, a estrada geral de Cristovão Pereira de Abreu apresentava precárias condições de trânsito, embora fosse utilizada pelos viajantes que se dirigiam para o Norte. O espaço percorrido de Viamão em um dia em carreta, ia dar mais ou menos no mesmo local, à beira de um rio (rio Rolante), já na subida da serra, onde era costume pernoitarem para descanso e onde foram se formando sinais de pousos ou encontros entre os que iam para o norte e os que voltavam para o sul.
Segundo informações, Ilha Nova, na área do atual campo de futebol do Avante, em Rolante era um dos locais de pouso dos tropeiros. Admite-se que a continuidade desse antigo pouso transitório, na Ilha Nova, deu origem à fixação de alguma casa comercial e estalagens que resultaram num nucleamento de famílias e início do povoamento permanente em Rolante, na metade do século XVIII.
José Maciel Júnior, historiador, descendente da região, fala do nome Rolante: "O nome Rolante, proveio do fato de o arroio, que serve de divisa atualmente entre esse município e o de Santo Antônio da Patrulha ser impetuoso e violento no período de suas cheias, levando tudo de roldão."
A referência mais remota, segundo a Revista do Arquivo Público do Rio Grande do Sul(número 06 a 12), consta que a doação oficial de terras a açorianos, em Rolante, data de 1761, quando o Governador Ignácio de Madureira concedeu terras a José Ferreira de Carvalho.
A continuidade de paradas no mesmo local da região foi atraindo moradores para se fixarem nos arredores, tendo oportunidade de oferecerem melhor pouso e comida aos viajantes, bem como cuidados de ronda dos animais. Isso ocorreu enquanto houve uso contínuo da estrada de Cristóvão Pereira de Abreu_ Quando esta data entrou em declínio, as terras do atual município de Rolante perderam muito do interesse econômico, ficando só o início do núcleo populacional da pousada e as estâncias dispersas.
Segundo informações orais, em 1882 teve início a chegada dos primeiros imigrantes alemães, vindos das colônias velhas, que se dirigiam para Alto Rolante (hoje Distrito de Rolante).
O historiador Ademir Rist diz que em 1908, Giácomo Lodi. Carlos Franzoni e Miguel de Carli, donos de uma Empresa Colonizadora, adquiriram terras ao nordeste de Rolante em local a 800 metros de altitude, loteando-o com o nome de Nova Trípoli.
Segundo tradição oral, por volta de 1910, uma leva desses proprietários, na época da primavera, vieram acompanhados de um sacerdote católico para Nova Trípoli, onde construíram suas casas e uma Sociedade Italiana, que chegou a ter bandeira e hino próprios. Essas terras de Nova Trípoli, já não pertencem a Rolante, ficaram com Riozinho.
Rio Pardo
(20/05/1811)
O Rio Grande do Sul pertence ao Brasil por causa de Rio Pardo. Essa afirmação é baseada na importância que teve a Fortaleza Jesus Maria José e na demarcação e preservação do domínio português contra o avanço dos espanhóis no sul do continente. Com o Tratado de Madri, em 1750, firmado entre as duas potências, Rio Pardo passou a ser a fronteira entre as colônias a partir da segunda metade do século 17. A construção da fortaleza começou em 1753. Ela abrigou o Regimento dos Dragões e foi palco de batalhas que consolidaram posições lusas. Nunca foi tomada, por isso ficou conhecida como a "Tranqueira Invicta".
Apesar de ter surgido por uma necessidade de estratégia militar, Rio Pardo desenvolveu aos poucos um forte núcleo populacional, que se transformou em centro comercial até meados dos século 19. Os primeiros colonizadores, basicamente açorianos, conseguiram fazer progredir o município, apesar das tentativas de invasões espanholas, desenvolvendo uma forte vocação comercial, além da agricultura e pecuária.
Devido à privilegiada posição geográfica, entre os rios Jacuí e Pardo, a cidade passou a ser o principal ponto de abastecimento do Estado, atraindo tropeiros, já que o transporte era feito, essencialmente, por via fluvial. Seu território chegou a abranger 16.803 km2, ou seja, mais da metade do território da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul (1807).
José Wunderlich (Comissão de Estudos de Alternativas para o Patrimônio Histórico de Rio Pardo) explica que o declínio foi se acentuando gradativamente. Durante a Revolução Farroupilha, houve diversos saques e o poder se revezou entre imperiais e farrapos. Também a Guerra do Paraguai teve a participação de lideranças rio-pardenses. Em 1867, a cidade foi acomedida por uma violenta epidemia de cólera, que dizimou metade da população. A doença atingiu tais proporções que os mortos eram enterrados em valas comuns.
A construção da estrada de ferro (1885) foi outro golpe, já que desviou a rota comercial para Santa Maria. Além disso, o município perdeu parte de seu território com o desmembramento de Santa Cruz do Sul, Cachoeira, Encruzilhada e Candelária, entre outros - ao todo são mais de 200 municípios que ocupam a área que já foi de Rio Pardo.
No início deste século, a transferência da escola militar para Porto Alegre e a retirada dos últimos batalhões, em uma cidade com forte vocação militar, aceleraram a decadência. A construção da BR-290 diminuiu ainda mais a importância de Rio Pardo, criando um núcleo em Pantâno Grande.
Pouco resta da arquitetura açoriana original em Rio Pardo. Os sobrados e casarões de linhas com suas janelas arqueadas, eiras e beiras e cachorradas (beiradas de madeira) foram se transformando com o tempo e sofrendo influências de outras correntes arquitetônicas, principalmente do neoclássico francês do final do século 18. Provavelmente, a característica mais marcante que ainda resta são as suas igrejas, prova do apego religioso dos primeiros colonizadores.
A matriz Nossa Senhora do Rosário é uma das mais antigas (1779). Seus sete altares representam a devoção das classes sociais da época, indo do mais simples aos mais rebuscado revestimento em ouro, embora tenham recebido camadas de tinta. Também podem ser vistas as sacadas que eram ocupadas pelos nobres para não se misturarem ao povo e à burguesia.
Para a arquiteta Vera Schultze, é difícil definir um estilo único para o local. Vera cita como um autêntico exemplo da arquitetura portuguesa do século 19 o atual Museu Barão de Santo Ângelo, onde nasceu e viveu o almirante Alexandrino de Alencar. A casa foi reconstruída em barro e madeira e preserva os traços originais, apesar de ter sido restaurada. Tem na parte inferior uma senzala que abrigava os escravos domésticos.
Outro bom exemplo de preservação é a Rua da Ladeira, atual Júlio de Castilhos, que foi uma da primeiras ruas calçadas do Estado (1813). Feita com blocos de pedras irregulares e escoamento central, servia para ligar a fortaleza à parte residencial da cidade. É tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. Outra característica curiosa são as eiras e beiras, detalhes que cincundavam os telhados e representavam sinais de ostentação.Daí a origem da expressão "sem eira nem beira" referir-se às classes menos abastadas.
Rio Grande
(12/02/1811)
A antiga capital nasceu duas vezes
Local de inúmeras e sangrentas batalhas pela disputa de terras entre portugueses e espanhóis, Rio Grande comemorou seu nascimento duas vezes. Talvez não imaginasse o sargento-mor da armada portuguesa, José da Silva Paes, que a festa organizada por ele na fundação da cidade, em 19 de fevereiro de 1737, se repetiria quase nos mesmos moldes quatro décadas mais tarde. Quando sua esquadra liderada pela galera "Bonita" onde viajava, aportou na orla de Rio Grande de São Pedro, era dado o primeiro passo na colonização da porção de terra de maior importância estratégica no sul do Brasil. A fundação da primeira vila da Província do Rio Grande do Sul abriu uma porta para o ingresso de tropas militares em qualquer ponto do Estado devido à facilidade oferecida pelo porto marítimo. Nascia a colonização do Rio Grande do Sul. Na faixa de terra localizada ao norte da península e denominada Rio Grande de São Pedro, Silva Paes tratou de mandar construir o primeiro forte em madeira e torrão da região denominado Jesus-Maria-José. O forte tinha espaço suficiente para acomodar toda a sua guarnição composta de 254 homens. O árduo trabalho demorou meses. O terreno era muito arenoso. A madeira precisava ser transportada de muito longe.
Rio Grande se firmou no cenário da época. Mas, em 1763, a história mudou. Os espanhóis, insatisfeitos em não dominarem Rio Grande, cujo território achavam lhes pertencer, invadiram e dominaram o município. A guarda portuguesa não suportou a carga desferida pelos soldados espanhóis e fugiu para o outro lado do canal, estabelecendo-se em São José do Norte. A ocupação da cidade de Rio Grande pelas forças do exército espanhol durou 13 anos, tempo em que foi dominada pela Coroa da Espanha. A permanência dos espanhóis não trouxe qualquer benefício ao município.
As construções das primeiras residências e prédios pararam. Nada foi feito. Nem um prédio foi erguido. "Deixaram a cidade cair aos pedaços", diz o jornalista e pesquisador Daoíz de Ia Rocha. No livro de registros da Igreja de São Pedro, construída em 1756 pelos portugueses - hoje a Catedral de São Pedro não consta sequer um batizado ou casamento de espanhóis naquela época. "Rio Grande era simplesmente um quartel militar", afirma de la Rocha.
No outro lado do canal, em São José do Norte, os portugueses arquitetavam uma forma de reconquistar a terra perdida. O silêncio que reinou durante mais de uma década entre as duas porções de terras separadas por um canal com pouco mais de um quilômetro de largura só foi quebrado graças a um plano ardiloso e meticulosamente arquitetado, colocado em prática na noite de 31 de março de 1776. Soldados portugueses vestidos com trajes de gala soltavam fogos, acendiam fogueiras, dançavam e cantavam. Era o aniversário da rainha de Portugal, Mariana Vitória. Despreocupados, os espanhóis aliviaram a guarda. "Acreditavarn que os portugueses não atacariam no outro dia porque estariam cansados da festa", revela Daoíz de Ia Rocha. No entanto, tudo não passava de pura encenação. Um plano malicioso do comandante-geral Johann Heinrich Bohm, um alemão contratado pela Corte de Portugal para reconquistar Rio Grande, cidade revestida de importância estratégica para os militares por causa do porto marítimo.
O plano foi posto em prática na madrugada do dia 01 de abril. Os soldados portugueses se apossaram dos fortes Santa Bárbara e Trindade, dominados pelos castelhanos. O pavor tomou conta do inimigo. Houve violenta batalha, com centenas de baixas de ambos os lados. Percebendo a desvantagem, os soldados espanhóis trataram de fugir para o Uruguai. Estava mantida, para sempre, a soberania da cidade gaúcha. Rio Grande comemorou com festa seu novo nascimento.
Violência não poupou a igreja
Uma das heranças mais importantes deixadas pelos colonizadores portugueses em Rio Grande foi a igreja de São Pedro. A atual catedral do município foi inaugurada em 1755, depois de quase quatro anos em construção. O templo em estilo barroco, localizado no centro da cidade, guarda lembranças de uma passagem trágica na história do município. Em 1776, foi alvo de um ataque bárbaro dos soldados espanhóis que se mantiveram no domínio do governo do município durante longos 13 anos, desde 1763. O prédio se manteve intacto, mas o altar-mor, esculpido cuidadosamente em madeira, foi roubado pelos espanhóis numa demonstração de raiva por terem sido expulsos de forma humilhante pelos portugueses na sangrenta batalha pela reconquista de Rio Grande.
Humilhados por um plano hábil da força de guerra portuguesa, no dia 01 de abril de 1776, os espanhóis fugiram de Rio Grande. Houve trágica batalha. Os castelhanos não se retiraram, porém, sem antes devastar a cidade. Puseram fogo em muitos prédios, saquearam e roubaram a população. "O altar-mor original da igreja de São Pedro acabou sendo roubado pelos espanhóis". afirma o jornalista Daoíz de Ia Rocha.
O altar foi levado para a capela Forte de Santa Tereza, no Uruguai. Atualmente, a Catedral de São Pedro, o mais antigo templo católico em estilo colonial português existente no sul do Brasil, guarda uma lembrança fundamental da reconquista: uma cópia quase exata do monumental altar-mor construido pelos colonizadores portugueses no século XVIII.
A construção da igreja começou no reinado de D. João 1. Os portugueses utilizaram muitos materiais importados de Portugal, como o altar de madeira e o pórtico de entrada. O cimento das paredes foi engrossado com o que havia em abundância na região: conchas do mar. O templo religioso foi erguido no lugar da igreja de Nossa Senhora do Rosário, destruída por um incêndio em 1752.
Na batalha de reconquista de Rio Grande em abril de 1776, liderada pelo comandante Johann Heirinch Bohm, auxiliado pelo brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, pouco do que havia sido construido pelos colonizadores portugueses antes da invasão pelos espanhóis foi preservado. Depois da morte de Pinto Bandeira, seus restos mortais foram depositados numa urna funerária no interior da igreja.
A fé perpetuada em madeira
A luta pela reconquista da cidade de Rio Grande durou anos e teve o gosto amargo da derrota. Antes da vitória contra os espanhóis, houve sangrenta luta. Os castelhanos invadiram o município em 1763 e o mantiveram por 13 anos. A armada portuguesa travou a primeira batalha pela reconquista em fevereiro de 1776, por ordem de D. Luis de Almeida Soares, vice-rei do Brasil. Mais de 400 homens se deslocaram de Santa Catarina em fragatas com o objetivo de expulsar os espanhóis. Na empreitada desastrosa da armada, a promessa feita por um jovem soldado português, José da Silva, ficou perpetuada através dos séculos, encravada e pintada em madeira.
Vendo-se em risco de vida, o soldado desprotegido num escaler (antiga canoa aberta de madeira) lutava sob fogo cruzado de canhões e mosquetes. Em meio à batalha, Silva rezou para Nossa Senhora da Penha - que atendeu suas preces. Em agradecimento, Silva entalhou e pintou na madeira a imagem que teve da batalha: "Milagre que fez Nossa Senhora da Penha de França a José da Silva saindo com uma armada da ilha de Santa Catarina para o Rio Grande combateu com um armada castelhana e vendo-se em tão grande perigo, em um escaler entre a artilharia, se pegou com a dita Senhora e ficou livre do perigo - Ano de MDCLXXVI".
Porto Alegre
(11/12/1810)
O Porto de Viamão virou Alegre sem querer. No Rio Grande do Sul pós-Tratado de Madrid (1750), a ameaça de invasão tirava o sono dos portugueses, que procuravam desenhar de uma vez por todas o mapa de seus domínios.
Para isso precisavam de uma capital. Desde 1763, a vila de Rio Grande não servia mais. Havia sido tomada pelos espanhóis. Era preciso buscar um povoado que pudesse ser defendido - ou melhor, inatingível. A saída do sul foi voltar-se para o norte. Navegando pela Lagoa dos Patos, a capital acabou parando em Viamão, onde permaneceu por uma década. Um canetaço do governador José Marcelino de Figueiredo transferiu a sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul para uma terra-de-quase-ninguém em 1772. Fundado 20 anos antes para abrigar os casais que chegavam dos Açores e da Ilha da Madeira para colonizar a região, o Porto de Viamão, ou Porto dos Casais, foi escolhido pela posição estratégica. Em meados do século 18, a capital não passava de um atracadouro em propriedade alheia.
Além dos imigrantes que foram logo se fixando na Rua da Praia, o povoado se resumia às sesmarias de Jeronimode Ornelas de Menezes e Vasconcelos, Sebastião Francisco Chaves e Dionísio Rodrigues Mendes. "Porto Alegrenasceu espontaneamente", sintetiza Sérgio da Costa Franco, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RS.
Da noite para o dia, virou Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais. No ano seguinte, Nossa SenhoraMadre de Deus de Porto Alegre. Quase sem casas e população, a cidade de todos os gaúchos transformou-se na localidade mais importante do Sul do Brasil sem ao menos ser oficialmente uma vila. Somente em 1810 o erro foi corrigido.
Os portugueses tinham muito mais coisas importantes para se preocupar. Um dos primeiros atos do governador foi proteger a península. Por sua posição estratégica, era quase impossível um ataque pelo estuário do Guaíba. Em terra, entretanto, a situação era bem diferente. Engargalada no conhecido funil que virou o centro da cidade,o povoado era vulnerável pelo flanco leste.
Para evitar a invasão da nova capital, Figueiredo autorizou a construção de fortificações. As obras se estenderam de 1773 a 78 e formaram uma trincheira na fronteira seca da vila. Na metade do caminho, em um largo próximo à Santa Casa de Misericórdia, um portão controlava a entrada e saída dos moradores e forasteiros.
Muito barulho por nada. A tomada de Porto Alegre não foi concretizada pelos espanhóis. Meio século depois, os próprios gaúchos cuidaram da tarefa sem sequer arranhar os muros da cidade. Em 20 de setembro de 1835, os farrapos atacaram por água a península protegida.
Menos de um ano mais tarde, as tropas imperiais voltavam a mandar no município. Em pouco tempo, as fortificações seriam ampliadas e ganhariam um novo significado até serem demolidas em 1840. "A cidade de Porto Alegre, cercada por um cinturão de trincheiras, com canhões de fortaleza encaixados nela, espaçadamente, já davam naquela época um aspecto mais marcial do que Alegre", escreveu Johann Carl Dreher.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Piratini
(07/06/1932)
O cenário da proclamação da República
A província do Rio Grande do Sul vivia momentos de tensão em 1835. O descontentamento com a política do governo central e a oposição entre conservadores e liberais, o estopim da Revolução Farroupilha, praticamente antecipavam o longo período de confrontos armados. Cerca de duas semanas depois de um grupo de rebeles farroupilhas ter ocupado Porto Alegre, cem homens deflagravam o movimento na Vila Piratini, comandados pelo capitão de milícia Antônio José de Oliveira Nico e por Domingos de Souza Neto. As primeiras colunas de farrapos marcharam pelas ruas estreitas da vila, a 8 de outubro, sob a aclamação dos piratinenses.
Por sua localização estratégica, no alto da Serra do Sudeste, e pela existência de dezenas de prédios proximos para a instalação dos comandos revolucionários, a vila tornou-se o centro de operações do movimento. Em dezembro de 1832, o coronel Souza Neto passou a chefiar a Legião de Guardas Nacionais da Comarca de Piratini, formada por quatro companhias recurtadas em Piratini, Canguçu, Cerrito e Bagé. Com 28 anos, comandou a coluna farroupilha que venceu, em 10 de setembro de 1836, em Seival, as tropas imperiais de Silva Tavares.
A vitória dos integrantes da Primeira Brigada Liberal marcou um dos acontecimentos militares mais importantes do movimento e despertou o desejo de emancipação dos farrapos. Na noite do combate de Seival, ainda sob a euforia da vitória, o capitão Manoel Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares foram até a barraca de Neto para convencê-lo a opcuar o posto de general-em-chefe do exército e proclamar a República.
Ali mesmo escreveram os rascunhos da proclamação. No dia seguinte, 11 de setembro, antes de sair o sol, as tropas já esperavam o futuro general nos campos dos Menezes, à margem esquerda do rio Jaguarão. Neto apareceu a galope. Postou-se ao centro da tropa, ergueu a espada e anunciou a proclamaão da República Rio-grandense. Dois meses depois, a Vila de Piratini tornou-se capital, e o general Bento Gonçalves da Silva foi eleito presidente da República, mesmo estadno preso há um ano no RIo de Janeiro e em Salvador.
Piratini permaneceu como capital por mais dois anos. Por motivos estratégicos, a capital foi transferida para Caçapava do Sul e, mais tarde, para Alegrete. Enfraquecida, a cidade levaria novo golpe. Um ato do governo provincial fez com que Piratini retornasse à categoria de vila. Iniciava-se o declínio.
A chegada dos açorianos
O surgimento de Piratini ocorreu com a chega de Açorianos em terras que a Coroa Portuguesa trocou com o sesmeiro José Antônio Alves. Por ordem da Rainha Maria I, a região - localizada no cume de uma coxilha, nas proximidades dos rios Camaquã e Piratini, onde hoje se localizada a cidade - foi dividida entre 48 casais portugueses. Ali, a partir de 1789, eles construíram suas casas de arquitetura singela, com alinhamento de duas janelas e porta na fachada. Um dos primeiros prédios erguidos pelos habitantes foi uma pequena capela, no centro do povoado, dedicada à Nossa Senhora da Conceição. O lugar ficou conhecido como Capela de Piratini, por estar perto do rio. A primeira casa construída em Piratini ficava nos fundos da capela e existe até hoje.
O crescimento da população e a prosperidade da criação de gado e do cultivo, principalmente de linho e trigo, atraíram novos habitantes e despertaram a atenção do governo imperial, que decidiu elevar o povoado, em 1810, à categoria de freguesia. Nesse período, moradores abastados começaram a construir casas em volta da capela, que havia sido ampliada pelo reverendo Jacinto José Pinto Moreira, primeiro vigário de Piratini.
Em 20 anos, o povoado cresceu, ganhou novos prédios e uma capela ainda maior, com portas em arcos e duas torres em estilo gótico. Em dezembro de 1832, com cerca de 80 prédios, entre eles seis sobrados e uma cadeia, a então freguesia tornou-se Vila de Piratini. As poucas ruas ainda não tinham calçamento e a água potável chegava à população apenas por duas fontes naturais, conhecidas como Fonte dos Pinheiros e Fonte da Terra.
A vila era iluminada por querosene e servida por um demorado sistema de correio, que transportava cartas até a Vila São Francisco de Paula (hoje Pelotas) três vezes por semana. No mesmo ano, a vila foi desmembrada do município de Rio Grande, mas seu território continuou abrangendo uma grande extensão, onde estão hoje seis municípios da Região Sul do Estado.
Passo Fundo
(17/02/1834)
O Caminho dos viajantes do Planalto
Quando chegou a uma terra onde sabia apenas que existia "um passo muito fundo" e onde havia índios ferozes, por volta de 1827, o cabo da milícia estadual paulista Manoel José das Neves, o cabo Neves, não imaginava que estava projetando um dos principais pólos de prestação de serviços do Rio Grande do Sul. Antes dele, um destacamento comandado por Atanagildo Pinto de Morais fora enviado pelo governo de São Paulo à região para descobrir uma nova ligação com a Capitania de São Pedro.
O cabo Neves ganhou algumas léguas de terra, onde hoje está a Praça Tamandaré, no centro da cidade, e ali começou a formar sua fazenda, seguidamente atacada pelos índios coroados e caingangues, que habitavam a região.
Em 1834, chega outro militar, o capitão Joaquim Fagundes dos Reis, considerado por muitos também como fundador da cidade, que só se libertou administrativainente de Cruz Alta, da qual era distrito, em 1857. O dia 7 de agosto é a data oficial de criação do município, que vivia o ciclo da criação de gado. O extravismo vegetal, a pecuária, o comércio e o tropeirismo confirmam que Passo Fundo teve sua origem ligada ao transporte, lembra a professora Maria Mattos, da Universidade de Passo Fundo. Ainda sentindo as conseqüências sangrentas da Revolução Federalista de 1893, Passo Fundo - assim batizado pelos tropeiros que cortavam caminho no Planalto Médio para chegar à Feira Agropecuária de Sorocaba, em São Paulo - começa o novo século com uma população de cerca de 35 mil habitantes.
O tenente-coronel Pedro Lopes de Oliveira era o intendente em 1900. O ciclo do gado já dera passagem também à erva-mate e à madeira, e a agricultura se revelava como uma das principais forças da economia em formação. A ferrovia despontava como principal ligação com o Centro do país. Era em Passo Fundo que muitos fazendeiros paulistas faziam negócios.
Somente em 1920 os passo-fundenses conheceriam o avião, conta o livro Annaes do Município de Passo Fundo, escrito em 1931 por um dos primeiros jornalistas da cidade, Francisco Antonino Xavier e Oliveira. Muita gente se escondeu dentro de casa ao ouvir um "barulho estranho vindo do céu." Era um biplano que vinha de Buenos Aires com destino a São Paulo.
A boa época das sedas e louças européias
Em meados década de 30, havia em Passo Fundo uma rua onde moça de família não passava. Era a Rua 15 de Novembro, onde funcionavam casas de prostituição e o famoso Cassino da Maroca. No local, os bailes reuniam figuras conhecidas da cidade. Uma das primeiras socialites, Leofrida Barbieux, junto com outras moradoras das proximidades do cassino, ficava na janela vendo quem freqüentava o local para depois ter assunto para as rodas de conversa. "Mesmo assim era uma época bonita, de respeito", recorda.
Leofrida mora em Passo Fundo desde 1924. Dois anos depois, seu marido, Walter Barbieux, inaugurou a primeira cervejaria da cidade, a Serrana. Leofrida, que nasceu em Uruguaiana, relembra com saudade uma época em que as mulheres se enfeitavam e vestiam as melhores roupas, não dispensando o tradicional leque de plumas para ir ao Cinema Coliseu, que não existe mais, ou aos saraus promovidos na casa do comerciante Antônio Loureiro Lima, que, por sua elegância, foi apelilado de Barão. Até hoje a Casa do Barão é preservada em um dos pontos principais da Avenida Brasil, no centro de Passo Fundo.
Leofrida lembra-se de uma festa que movimentou a cidade: a da inauguração da primeira agência bancária, o Banco da Província, em 1922. A cidade vivia principalmente do comércio, confirmando a fama de terra de passagem. Os viajantes faziam muito sucesso e sempre apareciam com novidades.
"Hoje, as pessoas ficam muito faceiras quando compram alguma coisa importada, de terceira categoria, mas, no início do século, isso para nós era comum." E com a diferença da qualidade. Compravam farinha da Argentina, louças da França, sedas inglesas - e bebiam vinho do Porto. A iluminação pública era escassa na década de 30, só abrangendo o centro. Um morador, Ciro Schell, conta Leofrida, era o encarregado de acender diariamente os lampiões que iluminavam a região central. E a explicação: Schell tinha 1m80cm.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Ijuí
(07/04/1875)
A rota dos tropeiros nos ervais
Até as primeiras décadas do século 20, Palmeira das Missões não tinha do que se queixar. Em quase 300 anos de história, acompanhou os três principais ciclos da formação econômica e social do Estado. Trocou a fase dos ervais nativos pelo tropeirismo. Mais tarde, deixou os caminhos dp gado para entrar de cabeça na colonização e voltar à extração vegetal com a exploração da madeira.
"Palmeira é o município síntese do Rio Grande do Sul", diz o historiador Mozart Pereira Soares. Mesmo não tendo a garantia de ter sediado uma Redução dos Jesuítas, o território de Palmeira certamente foi visitado pelos índios que as habitavam. As densas áreas de erva-mate interessavam aos padres espanhóis desde 1633, ano da primeira referência escrita sobre o uso da planta. No Rincão de São João, 15 quilômetros ao norte da cidade, a abundância de ervais evidenciava que a região estava no mapa de riquezas da Companhia de Jesus. Sem se descuidar da exploração dos ervais, os jesuítas também introduziram a criação de gado nas Missões. Os guaranis cuidavam de imensos rebanhos até serem dizimados pelos portugueses, que passaram a ter direito sobre os Sete Povos das Missões com a assinatura do Tratado de Madrid (1750).
Milhares de cabeças de vacas e mulas soltas nos pastos chamaram a atenção dos novos donos da terra. Por volta de 1816, os bandeirantes estabelecem uma terceira rota para conduzir os animais até São Paulo. O pouso dos tropeiros e as grandes manchas de campo com rebanhos selvagens tornam Palmeira das Missões alvo das atenções dos mercadores do "ouro mível". Para controlar o negócio de perto, alguns paulistas instalam-se na região, apropriando-se de terras devolutas. Um século depois, a instalação da Comissão de Terras e Colonização de Palmeira das Missões trans transforma pela terceira vez a face do município. A partir de 1917, as áreas despovoadas do norte (Iraí, Seberi, Nonoai, Frederico Westphalen) começam a ser ocupadas pela terceira onda de colonização do Estado. Famílias inteiras de italianos, alemães, poloneses e russos entram com requerimentos de propriedade na Comissão.
Depois de trabalharem para abrir as estradas que os levariam até os lotes, os imigrantes descobrem que precisam ainda limpar o terreno. Começa o desmatamento. As árvores nativas são derrubadas e passam a engrossar o orçamento doméstico. Com o surgimento das colônias, Palmeira está pronta para caminhar com as próprias pernas.
O peão salvo pelos rebeldes
Seis da manhã de l de janeiro de 1925. Nas terras da Fazenda da Ramada, a 39 quilômetros do centro de Palmeira das Missões, o capitão Luiz Carlos Prestes e centenas de soldados revoltosos iniciavam um confronto contra as tropas Governistas. O combate mais sangrento da Coluna Prestes se estendeu por 12 horas, deixou mais de 100 homens feridos e custou ao movimento militar a vida de outros 50. Na sede da fazenda, um empregado com pouco mais de 10 anos de idade não entendia por que o Exército queria ipedir o avanço daqueles 4 mil homens que acamparam perto da propriedade "Nem uma vaca eles chegaram a carnear ", garante Abrão Machado dos Santos, 82 anos. Um dia antes, o menino havia sido salvo por um rebelde. "Os civis que acompanhavam a Coluna iam me degolar quando um sargento acudiu", lembra. Apenas um túmulo, que marca o ponto onde os dois lados enterraram seus combatentes, continua de pé na Esquina dos Becker, atual município de Condor.
Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:
James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.
Jaguarão
(22/05/1833)
Os pica-paus que moravam na fronteira
Lenço vermelho não era um acessório bem-vindo na Jaguarão do século passado. A marca que diferenciava os maragatos de seus adversários pica-paus teve pouca penetração na cidade da fronteira sul, que sempre mostrou nítidas influências republicanas. Enquanto quase todos os municípios do Rio Grande ficaram divididos durante as revoluções gaúchas, os moradores mais tradicionais de Jaguarão construiram casas com detalhes inspirados nos símbolos legalistas. "Até hoje não existe uma rua que tenha nome de maragato", observa o advogado e jornalista Eduardo de Souza Soares, 52 anos.
Os primeiros flertes de Jaguarão com a causa republicana datam da Revolução Farroupilha. Entusiasmada com a conquista dos farrapos no combate do Seival, a Câmara Municipal, que durante o Império tinha o papel de Poder Executivo, decidiu aderir à República Rio-Grandense em 20 de setembro de 1836. O presidente da Casa e articulador da iniciativa pioneira na Província era Manoel Gonçalves da Silva, irmão do general Bento Gonçalves da Silva.
Menos de 15 anos depois, nasceu em Pelotas o homem que manteria Jaguarão fiel ao seu passado republicano. Neto materno de Manoel, o médico Carlos Barbosa Gonçalves importou de Paris as idéias de igualdade e liberdade, e passou a defender o fim da monarquia.
Não demorou muito para que os argumentos de Carlos Barbosa inflamassem os espíritos. Em 30 de julho de 1882, ele e mais 19 companheiros fundaram o Club Republicano. Dois anos mais tarde, a entidade adquiriu o jornal "A Ordem", para divulgar suas posições, e atacar o govemo do Rio e a família imperial.
Durante a visita da Princesa Isabel e do Conde D'Eu, em 1885, o genro de Dom Pedro ll, que passou de capitão francês a general brasileiro atropelando as graduações. Quando o nobre chegou a Jaguarão, "A Ordem" publicou: "Por ocasião do desembarque, o exmo. sr. Comendador Dr. Azevedo, na qualidade de presidente da Câmara Municipal, dirigiu-lhe um bem elaborado discurso, ao que Sua Alteza deixou de responder por não tê-lo ouvido, pois, como sabem os leitores, S.A. é surdo' "
Logo a ideologia republicana passou do papel para o concreto. Alguns seguidores começaram a ostentar símbolos como o barrete da República em residências construídas no centro de Jaguarão. O partido tomou corpo no município. Nas eleições de 1884, Carlos Barbosa conquistou uma vaga na Câmara. Com a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889 (reconhecida pela Câmara de Jaguarão somente oito dias depois), o estilingue político de Carlos Barbosa virou vidraça, mas nem por isso foi ameaçado.
Nas revoluções de 1893 e 1923, os maragatos sequer se aproximaram da cidade. Até os anos 40, os picapaus continuariam de topete em pé.
A cidade resiste ao cerco
A data de 27 de janeiro de 1865 talvez seja mais importante para os jaguarenses do que a fundação da Vila (6 de julho de 1832). Naquele dia, uma força composta por dois corpos da Guarda Nacional resistiu durante 48 horas a uma tentativa de invasão do território brasileiro por mais de 1,5 mil homens do exército uruguaio. Sitiada e em desvantagem bélica, a guarnição comandada pelo coronel Manoel Pereira Vargas acabou vencendo o inimigo no cansaço. O episódio rendeu ao município o título de "Cidade Heróica" e ao Brasil, a demarcação das fronteiras à margem esquerda do rio Jaguarão.
Nenhum general esperava por aquele ataque surpresa. A atenção dos militares brasileiros estava concentrada na tomada da cidade uruguaia de Paysandu. "Os blancos prepararam o cerco de Jaguarão para desviar a atenção de nossos exércitos", considera o advogado Eduardo de Souza Soares, 52 anos. Um relatório escrito pelo próprio coronel Vargas no dia 18 de maio de 1865 faz uma síntese dos acontecimentos. "No dia 19 de janeiro, recebi participações do movimento de forças crescidas dos blancos que se aprqximavam do Cerro Largo no Estado Oriental", noticiou o oficial.
Enviado pelo uruguaio Basilio Muñoz, o exército uruguaio era mais de três vezes superior aos 15º e 28º corpos de cavalaria da Guarda Nacional. "A nossa força era cerca de 500 homens, que tinham apenas 60 ou 70 clavinhas de fuzil", escreveu Vargas. Derrota na certa. Mesmo assim, o coronel tratou de preparar Jaguarão para o combate. Pouco depois das 9h do dia 17, o confronto teve início com vantagem para o lado blanco. "As balas do inimigo passavam além da nossa coluna, ao passo que as nossas pouco alcançavam as suas fileiras, devido à inferioridade do armamento", lamentou o oficial brasileiro. O comandante percebeu que o melhor ataque seria a defesa. Recuando para as trincheiras, a pequena força resistiu. Vargas recusou todas as propostas de rendição.
Com a ajuda dos vapores de guerra Apa e Cachoeira - ancorados no porto - o coronel e seus soldados viraram a noite na defesa da cidade. Na madrugada, os uruguaios estavam derrotados. "Na noite de 27 para 28, retirou-se o inimigo praticando toda a sorte de atentados", descreveu o coronel. Com apenas um morto e cinco feridos, a guarnição tinha evitado a invasão do Brasil.
A dívida virou ponte
A histórica Ponte Mauá, que liga Jaguarão à cidade uruguaia de Rio Branco, não custou um centavo aos cofres do império. A obra ficou como pagamento por uma dívida assumida no século passado. Naquele tempo, o general argentino Juan Manoel de Rosas ameaçava a liberdade do recém-emancipado Uruguai. Para auxiliar o país amigo, vários empréstimos foram concedidos por Dom Pedro II. O Uruguai salvou-se. Em compensação, devia 5 milhões de pesos em 1919. Para acertar as contas, as duas nações fecharam o "Tratado da Dívida". Depois de três anos de obras, em 30 de dezembro de 1930, a dívida virou ponte.
Ijuí
(11/02/1912)
A Europa Gaúcha
A intenção de misturar imigrantes de várias etnias para não causar conflitos nas colônias foi levada ao extremo por Ijuí. Percorrendo o pequeno povoado em 1898, sete anos depois do início da ocupação, o padre Antoni Cuber registrou um recorde. Os habitantes haviam criado uma babel no meio do mato. Cuber detectou 19 idiomas entre italianos, alemães, poloneses, letos, austríacos, holandeses, suecos, espanhóis, libaneses, árabes, lituanos, rutenos, checos, filandeses e até gregos. "Era política do governo estadual evitar a criação de núcleos puros", analisa o professor de história e pesquisador Danilo Lazzarotto, 62 anos. Apesar da predominância de alemães e italianos, Ijuí ainda hoje é conhecida como a Europa do Rio Grande.
Caminho aberto pela Picada Conceição
Na metade do século passado, Cruz Alta e Santo Angelo eram duas vilas cercadas de mato por todos os lados. Ir de uma cidade à outra exigia paciência e tempo, uma vez que não existia estrada que as ligassem em linha reta. Para cumprir este papel e encurtar a distância em cerca de 60 quilômetros, o governo da Província decidiu construir uma picada com 12 quilômetros de extensão. A abertura da estrada trouxe o desenvolvimento. Ali Ijuí começava a abrir o caminho para a colonização.
A tarefa de abrir a Picada Conceição coube a José Gabriel da Silva Lima, que iniciou o trabalho por volta de 1848. Como pagamento pelas obras e manutenção da "via expressa". por onde só passavam cavalos, recebeu duas léguas de terra. Demarcado ao longo da picada, o lote de Silva Lima não poderia estar em melhor lugar. Percebendo esta vantagem, o agrimensor tratou de fundar uma colônia particular.
Em 1887, o primeiro morador da Picada Conceição instalava-se com a mulher e cinco filhos em dois lotes. Natural da Alsácia-Lorena (região da França anexada à Alemanha e depois devolvida à França), Simão Hickenbick e sua família permaneceram isolados por cerca de três anos. Os lotes da Picada Conceição caíram como uma luva para o administrador da Comissão de Terras e Colonização da colônia Silveira Martins, José Manuel da Siqueira Couto. Criado em 1881, o povoado não possuía mais espaço para acomodar os colonos que não paravam de chegar.
Mostrando a viabilidade de seu empreendimento, Silva Lima atraiu essas famílias, que se tomaram os novos vizinhos de Hickenbick. Em 1890, os primeiros grupos de italianos tomavam posse de seus lotes na então colônia ljuhy. De maio a dezembro do ano seguinte, chegaram mais 815 pessoas. Europeus na maioria, os colonos enfrentavam as dificuldades normais de uma ocupação isolada do mundo pelo mato.
Condenada ao fracasso, ljuí deu a volta por cima depois que o engenheiro Augusto Pestana, diretor da colônia a partir de 1899, se deu conta de uma evidência: seria mais fácil e barato assentar famílias que viessem com conhecimentos de agricultura. "O fato de virem imigrantes experientes de Silveira Martins e das colônias mais velhas facilitou o desenvolvimento", observa o historiador Argemiro Brum, 66 anos, da Universidade de Ijuí.
Guaíba
(18/10/1926)
A Ilha das Armas
O nome é o mesmo da Fazenda de Gomes Jardim. A Ilha das Pedras Bancas é um acidente geográfico cercado de abandono por todos os lados. No século passado, foi armazém de pólvora e posto de controle da movimentação dos barcos que entravam no canal. Dependendo do período, servia de local estratégico para legalistas e revolucionários. Entre 1857 e 1860, o governo construiu na Ilha das Pedras Brancas duas casas para depósito de munição.
O arsenal de guerra era fiscalizado por um tenente imperial. Transferido o material, Pedras Brancas ficou abandonada. Com 100 metros de extensão por 60 de largura e distante 2,2 kilometros da cidade de Guaíba, a ilha sempre foi fronteira entre os territórios do município e de Porto Alegre. "Por isso, até hoje não tem um dono de fato", afirma o jornalista aposentado Fernando Worm, 66 anos.
A Fazenda onde começou o levante
A Fazenda das Pedras Brancas está para a história do Rio Grande do Sul assim como o Riacho do lpiranga está para a Independência do Brasil. Na área onde é hoje o centro da cidade de Guaíba foi tramado o movimento para criação da República do Pampa. Das margens da praia da Alegria, centenas de rebeldes entraram em pequenos barcos e tomaram Porto Alegre. Nascia a Revolução Farroupilha.
Na madrugada de 18 para 19 de setembro de 1835, uma força com cerca de 100 homens avançava pelo Guaíba. A escuridão acobertava as manobras das embarcações que precisavam passar sorrateiras pelo Porto das Pedras Brancas. Na enseada, uma canhoneira imperial poderia acabar com os planos dos farrapos. Cerca de oito dias antes, Bento Goncalves da Silva, deputado e chefe de mílicias, havia deixado sua estância Cristal, em Camaquã, e partido para Guaíba. Hospedado na olaria de Francisco de Paula Monteverde, o chefe do movimento organizou o exército que afugentaria o governo do presidente da Província, Femandes Braga.
Propriedade de José Gomes Jardim, primo de Bento Gonçalves, Pedras Brancas abrigou as articulações para o primeiro ataque farroupilha. Na sede da fazenda, protegidos pela sombra de um cipreste e com ampla visão da costa de Porto Alegre, os farrapos fixaram um quartel-general a céu aberto. Dali partiam instruções para os revolucionários recrutados em Santo Antônio da Patrulha, Belém Velho, Capela, Barra do Ribeiro e Camaquã. Em número de 100, estes soldados foram agrupados em Capela sob o comando de Onofre Pires. As duas forças aliadas encontraram-se no morro da Azenha, na margem esquerda do rio, dia 19 de setembro. Poucas horas depois, os 20 soldados de cavalaria e 80 de infantaria do exército imperial eram dominados pela tropa vinda de Guaíba. O estopim para os 10 anos da Revolução Farroupilha havia sido aceso.
Flores da Cunha
(24/05/1924)
A nova tarefa dos artesãos
Produzir vinho e cultivar parreirais era uma mania que os imigrantes trouxeram da Itália sob a forma de mudas de videira, esparramadas pela encosta da Serra gaúcha. Na antiga Flores da Cunha, conhecida então como Nova Trento, este hábito não só vingou como ganhou algumas nuances. Dentro do pequeno povoado ocupado a partir de 1878, a uva era colhida tanto na colônia quanto na área urbana. "Os fundos de algumas casas da cidade eram tomados de parreirais", afirma o aposentado Claudino Boscatto, 79 anos.
O plantio da uva na cidade foi um reflexo do perfil dos imigrantes que ocuparam Nova Trento. Provenientes do norte da Itália, muitos deles eram artesãos. Como não sabiam plantar, compravam, além dos lotes coloniais, terrenos menores na vila para abrirem suas casas de comércio. "Meu avô patemo, que era alfaiate, contratava o trabalho dos vizinhos em troca da confecção de roupas", lembra Boscatto. Sem máquina de costura, o alfaiate Pietro trocava um dia de capina nas suas terras pela confecção de uma calça de lã. Quem ficava na lavoura, arcava com a parte mais pesada e rendosa do trabalho. Quando deixaram o plantio de milho e trigo para se dedicarem ao penoso processo de fabricar vinho, os colonos encontraram dificuldades que logo se transformaram em lucro. "Valia mais produzir vinho do que vender a uva", afirma o aposentado.
Criada sob a forma de duas vilas, Flores da Cunha foi unificada na localidade de São Pedro porque em São José não havia água para abastecer os lotes. Da junção, surgiu uma briga. Qual seria o nome do povoado? Em meados da década de 1880, o batismo do futuro município contava com cinco candidatos: São Pedro, Nova Vicenza, Nova Mantova, Nova Cremona e Nova Pádova. Numa manhã, os moradores acordarm com uma surpresa; uma tabuleta de 4 metros de largura por 80 centímetros de altura pendurada no pinheiro mais alto da praça central.
Escrito a carvão, o nome escolhido pelo imigrante Sisto Rossetto e aprovado pelo engenheiro Diogo dos Santos colocava um fim à discórdia. Em homenagem às duas famílias de trentinos (Santini e Bebber) que haviam ficado fora da discussão, a colônia passou a se chamar Nova Trento.
Negócios combinados
Com o dinheiro do vinho, o pai do agricultor Antonio Laghetto, 90 anos, construiu um casarão de três andares no distrito de Otávio Rocha. Com mais seis irmãos, ele cuidava de um parreiral. No porão da casa, a cantina abrigava 20 pipas que podiam armazenar mais de 100 mil litros de bebida por safra. Mas enquanto alguns italianos não tiravam a mão da enxada e dos barris, outros faziam as duas coisas. No Travessão Aquidabam, o imigrante Antonio Maria Melara tocava ao mesmo tempo os negócios do seu Hotel Unione, fundado por volta de 1886 no centro de Nova Trento. Em 1914, Francisco Boscatto comprou todo o patrimônio do sogro. Na pequena colônia, criou um parreira "Esta uva servia para produzir o vinho Trentino, usado no hotel", relembra hoje o aposentado Claudino Boscatto, neto de Pietro, um imigrante dedicado à alfaiataria
Farroupilha
(29/12/1934)
A primeira casa gaúcha dos italianos
A colonização italiana no Rio Grande do Sul nasceu em Nova Milano, distrito de Farroupilha. Em maio de 1875, um barracão que abrigava os primeiros imigrantes era a única visão de lar que trevisanos e vicentinos recém-chegados na América podiam contemplar. O resto era terra selvagem. Partindo daquele ponto perdido no mapa da Província, os colonos fundaram Caxias do Sul e povoaram toda a Serra. Mesmo sendo a ante-sala da imigração, Farroupilha não foi ocupado de imediato pela primeira leva de italianos. Assim que chegaram, quase todas as 110 famílias foram transferidas de local. "O dono de uma colônia particular dizia que não se começava uma cidade pelo fim do território", relata a historiadora Miriam Giacomel, 26 anos. Depois de alguns dias no barracão, os imigrantes foram parar no ponto central da colônia situada aos fundos de Nova Palmira, mais tarde denominada de Colônia Caxias. Cerca de 10 anos depois, Luís Feijó Júnior, proprietário da colônia particular Sertorina, entre Bento Gonçalves e Caxias do Sul, achou um bom negócio começar a formar núcleos de imigrantes a partir da venda de parte das suas três léguas de terras.
Estava formada a Linha Nova Vicenza, onde em 1883 moravam 30 famílias. Com a conclusão da estrada de ferro entre Caxias a Montenegro, em 1910, a irmã mais nova conquista a estação do trem e concorre com o desenvolvimento de Nova Milano. Próximo à sede do município, Nova Vicenza assume a direção administrativa do então 3o distrito de Caxias, que desde o início estava nas mãos do núcleo mais antigo. Berço da colonização, Nova Milano não aceitou perder a posição para uma comunidade mais jovem. A pressão foi tanta que as autoridades resolvem agradar a gregos e troianos. Enquanto Nova Vicenza é promovida a 2o distrito do município em 1927, Nova Milano volta como 6o. Mas nada evitou o esvaziamento da periferia de Farroupilha. A estação do trem e a chegada da luz elétrica fizeram com que os moradores das duas comunidades mudassem suas casas para a parte alta de Nova Vícenza. O nascedouro da imigração italiana estava definhando.
A nossa Senhora dos Milagres
Quando se reuniram para rezar a primeira missa, em 1878, os imigrantes instalados numa pequena localidade do distrito de Vila Jansen decidiram escolher o nome do padroeiro ou da padroeira da comunidade. Não chegaram a um acordo. Algumas famílias queriam Santo Antônio, outras defendiam Nossa Senhora do Loreto. Para evitar confusão, os colonos resolveram ir até São Sebastião do Caí. A imagem que pudesse ser comprada lá seria a da padroeira. Voltaram de mãos vazias. Os italianos já estavam pensando em construir uma estátua, quando Natal Faoro disse que poderia emprestar um quadro que havia trazido da Itália.
A tela de 33 em por 40 continha a imagem de sua devoção. Só que não era a de Nossa Senhora do Loreto e muito menos a de Santo Antônio. Daquela dia em diante, Nossa Senhora do Caravaggio tornou-se a padroeira da colônia que recebeu seu nome. No ano de 1879, os moradores ergueram uma capela para a santa e começaram a realizar romarias em sua homenagem. Nesta mesma época, o quadro de Faoro deu lugar a uma estátua esculpida em cedro.Encomendada de um artesão de Caxias do Sul, a imagem foi carregada nas costas pelos colonos durante todo o trajeto até chegar ao vilarejo. Dez anos depois, a capela já estava pequena para abrigar os devotos que compareciam ao templo todo dia 26 de maio (data atribuída à aparição de Nossa Senhora na vila italiana de Caravaggio). Em 1890, os imigrantes inauguraram uma nova igreja. Até hoje, milhares de católicos visitam Farroupilha para deixar na igreja os ex-votos por graças e curas alcançadas.
Substituída por um grandioso santuário em 1968, a antiga capela está abarrotada de cabeças de cera, cruzes e placas de agradecimento. Nenhuma história é mais famosa entre os moradores da região do que a da mulher que teria sido possuída pelo demônio. Carregada por vários homens, a lavradora foi exorcizada dentro da igreja. A lenda conta que, quando o padre concluiu o exorcismo, o diabo saiu por uma janela lateral entortando as barras de ferro.
Os teimosos de Nova Milano
Quase todas as 110 famílias de italianos que chegaram a Farroupilha em maio de 1875 foram logo transferidas para povoar primeiro Campo dos Bugres (atual Caxias do Sul), a sede da colônia. Somente três amigos de Olmate, vila da cidade de Monza, não seguiram viagem com os companheiros de imigração. Stefano Crippa, Tommaso Radaelli e Luigi Sperafico ficaram. Comprando colônias de 24 hectares, cada um foi parar em uma localidade e prosperou de maneira diferente. Radaelli ficou plantando em Nova Milano, Crippa foi para a comunidade de Amizade e Sperafico instalou-se em São Miguel. Em 1884, Crippa construiu uma casa no atual centro de Nova Milano. "'Acho que seis anos depois ele montou a bodega na parte da frente", calcula Ardelino Bergamo, 81 anos, neto do imigrante. "A gente vendia desde tecido até querosene", conta o comerciante, que passou 50 anos atrás do balcão do armazém fundado pelo avô. Ao mesmo tempo em que Crippa crescia no comércio, Radaelli se destacava na agricultura. Tommaso começou plantando milho, arroz e feijão. Depois se transformou no maior produtor de uva da região, relembra o neto Thomaso Radaelli, 78 anos.
Caxias do Sul
(24/08/1890)
A fábrica depende do vendedor
O parque industrial de Caxias do Sul nasceu atrás do balcão de alguma casa comercial. O comércio viabilizou o surgimento de empresas que se transformaram em gigantes dos ramos metalúrgico, vinícola, moveleiro, têxtil e alimentício. Artesãos e agricultores de mão cheia, os colonizadores do Campo dos Bugres também sabiam vender. "0 italiano do Vêneto é empresário por natureza', diz o professor Mário Gardelin, 68 anos. Os pioneiros eram descendentes dos famosos mercadores de Veneza. Em 1899, o lançamento de impostos do município registrava a existência de 103 casas de negócios em Caxias. Trinta anos depois da imigração, o município de 30.500 habitantes tinha 318 empórios. No centro da cidade funcionavam selarias, açougues, padarias, funilarias, carpintarias, alfaiatarias e ferrarias. O interior era movido por cantinas de vinho, serrarias e moinhos de trigo. Um ano antes do final do século 19, a ex-colônia contava com 223 fábricas. "0 artesanato sozinho não teria condições de impulsionar a indústria", acredita o escritor José Clemente Pozenato, 58 anos. O empurrão veio com a estrada de ferro Porto Alegre-Montenegro-Caxias, em junho de 1910. "0 trem viabilizou o comércio em grande escala e o acúmulo de capital", afirma o autor do romance O Quatrilho. Assim nasceu uma das maiores indústrias do Brasil. Herdeiro de uma funilaria, Abramo Eberle sempre foi um grande comerciante. Em suas andanças pelo Centro do país, vendia o vinho e os produtos dos colonos de Caxias. Trazia dinheiro. Quando achou que tinha o suficiente, largou a estrada para erguer a primeira grande metalúrgica do Estado.
Um bom vinho, depois de muita teimosia
Os primeiros italianos que se instalaram no Campo dos Bugres, por volta de 1875, sabiam beber vinho. Produzir seria outra história. Oriundos da região do Vêneto, norte da Itália, a maioria trabalhava na lavoura plantando cereais, ou na cidade, dedicando-se ao artesanato. A enologia era um hobby de poucos entendidos. O italiano médio sabia fazer vinho de baixa qualidade. "Eles não dominavam a tecnologia a ponto de saber produzir um bom vinho", afirma o escritor José Clemente Pozenato, 58 anos. Somente com a política de subsídios e pesquisa do governo gaúcho foi que a Serra se transformou na terra das cantinas.
O vinho era bebida predileta destes imigrantes. Na esperança de desenvolver belos parreirais que serviriam de matéria-prima para as adegas do porão, eles trouxeram na bagagem bacelos (mudas em forma de galhos) de boas uvas. Pura decepção. O solo ácido de grande parte dos lotes acabou com o sonho dos italianos. Cerca de 20 anos antes, o governo imperial havia importado videiras dos Estados Unidos para incentivar a produção de uva nas colônias alemãs.
O projeto da Princesa Isabel não vingou, mas a uva que foi batizada com o seu nome caiu como uma luva para a sede dos italianos, apostaram todas as fichas nos parreirais. Foi um tiro no escuro. "Em geral, os colonos não possuem conhecimentos de viticultura, e o pouco que sabem aprenderam-no pela prática e às próprias custas", escreveu num relatório de 1905 o professor Humberto Ancarini, funcionário do governo italiano. Resistente ao sobe-desce das temperaturas, a isabel virou unanimidade entre os colonos. Percebendo a falta do produto no mercado brasileiro, os imigrantes logo usaram seu tino comercial para negociar o excedente da produção caseira nas cidades de outros Estados.
Mas o solo fraco poduzia uma boa bebida. "A uva isabel contém sais de cal em baixíssima proporção, pois as terras são desprovidas de calcáreo", informava Ancarini. "Com isto obtém-se um vinho fraco, áspero e com sabor de morango, sabor este, porém, que agora está sendo modificado artificialmente' " Eleito produto de exportação, o vinho precisava ganhar qualidade. Foi assim que, na década de 20, o governador Borges de Medeiros criou o primeiro laboratório de videiras a céu aberto do Brasil.
Instalada numa área onde hoje funciona a Universidade de Caxias do Sul (UCS), a Estação Experimental de Viticultura e Enologia passou a desenvolver novas variedades a partir de bacelos importados. Técnicos franceses e italianos chegavam da Europa para repassar tecnologia aos colonos. Caxias se transformou em pólo da vitivinicultura.
A fuga dos grevistas
No início de 1890, um comício promovido pelos operários do Lanificio Rossi, na cidade italiana de Schio, provocou a expulsão de 308 tecelões. Tiveram que deixar a empresa e o país. Eles protestavam contra a redução de 20% dos seus salários. As autoridades ficaram do lado do conde Alexandre Rossi, que perdoou apenas os grevistas com família. Os solteiros vieram parar no Brasil. Um grupo tentou a sorte em Caxias, em terras devolutas da quarta e quinta légua. Construíram rodas d'água e montaram uma cooperativa para uma pequena tecelagem de lã. Em 29 de janeiro de 1898 era inaugurado o Lanificio São Pedro. Sem experiência administrativa, os italianos uniram-se a um antigo industrial de Piemonte que modernizou a empresa. Em pouco tempo, Hércules Galló assumiu o controle da indústria de tecidos de lã e o poder político na vila. Até hoje a localidade fundada pelos grevistas de Schio tem o nome de um capitalista. Cachoeira do Sul
(01/08/1890)
Os índios e a capela
Com o final da Guerra Guaranítica (1754-56), os Sete Povos das Missões foram sendo aos poucos esvaziados. Portugueses e espanhóis carregavam índios aculturados de um lado. No coração do Continente de São Pedro do Rio Grande, às margens do Rio Botucaraí, o capitão general do Rio de Janeiro e Minas Gerais Gomes Freíre de Andrada fundou uma aldeia. Em 1769, o governador José Marcelino de Fzgueiredo mandou colocar aqueles índios em uma área próxima ao Passo do Fandango. No local, que ficou conhecido como Aldeia, eles construíram uma capela invocando São Nicolau. Trabalhando numa olaria, os guaranis construíram suas casas e a dos vizinhos açorianos. A miscigenação foi inevitável. Uma década depois, a capela foi elevada à categoria de Freguesia e recebeu o nome de Nossa Senhora da Conceção - ali nascia Cachoeira do Sul.
Vicente da Fontoura na tricheira
Cachoeira do Sul optou pelos republicanos em episódios da Revolução Farroupilha. Terra adotiva de um dos principais líderes da inssurreição, nos primeiros meses o município dormia farroupilha e acordava legalista. Instituída a República Rio-Grandense, Antonio Vicente da Fontoura, natural de Rio Pardo, futuro ministro da Fazenda de Bento Gonçalves, foi nomeado chefe de Polícia das vilas de Rio Pardo e Cachoeira. Era tudo que o município precisava para ficar por dois anos nos braços da nova nação. O 20 de setembro repercutiu seis dias depois em Cachoeira.
Assim que os revolucionários tomaram Porto Alegre, um esquadrão e uma companhia da Guarda Nacional, comandados por Fontoura, seguiram para Rio Pardo. Um grupo de legalistas se negava a reconhecer a autoridade de Marciano Pereira Ribeiro, presidente da Província, escolhido por Bento. Quando voltaram, os cachoeirenses foram saudados com a celebração de um Te Deun na Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição. Mas os imperialistas recuperaram a capital e destituíram o presidente farrapo. Foi a vez de a Câmara de Vereadores se rebelar, até ser fechada em 01 de março de 1836. Dois anos depois, Vicente da Fontoura assume como chefe de Polícia de Rio Pardo e Cachoeira e reinstala a Câmara, que três anos depois prestava juramento de fidelidade à República instalada em Piratini. Mas, sob a ameaça do exército imperial, no dia 01 de maio de 1840 os vereadores realizaram a última sessão da Câmara Republicana.
Em 10 de junho, uma brigada legalista chegou à Cachoeira e um dia depois o major Manoel Adolpho Charão era designado para restabelecer o regime monárquico na cidade. Os vereadores foram obrigados a reconhecer Dom Pedro IIcomo Imperador e a entregar a correspondência trocada com o governo farroupilha. "As atas do período revolucionário foram arrancadas do livro da Câmara", conta a professora Ione Carlos 48 anos.
Bagé
(02/02/1847)
Federalistas resistem por 46 dias
Os antigos moradores de Bagé presenciaram de camarote um dos muitos episódios sangrentos que tornaram a Revolução Federalista de 1893 uma das mais violentas da história do Rio grande do Sul.
Durante exatos 46 dias, maragatos tomaram a cidade e sitiaram seus adversários pica-paus na Praça da Matriz. Fome, sede e doença substituíam a famosa degola na tarefa de abater o inimigo. Protegidas somente por trincheiras e canhões, as forças que defendiam o governo Júlio de Castilhos resistiram até a chegada de reforços.
Desde o dia 24 de novembro era possível avistar os piquetes de lanceiros federalistas arrebanhando cavalos pelos subúrbios. Aos poucos, os revolucionários foram estabelecendo o sítio. Aproximadamente 1.000 homens (membros do Partido Republicano e do Exército) foram cercados entre a praça da Igreja Matriz de São Sebastião e as ruas próximas. O quadrilátero da resistência legalista não passava de 10 mil metros quadrados.
Em volta desta área, cerca de 5 mil federalistas se revezavam no ataque às barricadas erguidas nas esquinas. "Eles tinham o apoio de uma parte da população que os abrigava nas casas da periferia", conta o engenheiro agrônomo José Cypriano Nunes Vieira, 69 anos, bisneto da irmã de Joca tavares, um dos líderes do sítio.
Nos primeiros dias de combate, a artilharia marcou o cerco. A igreja e os prédios foram crivados de balas. Alguns castilhanistas deserdaram. As fugas se davam pela zona sul da praça, onde era mais fácil chegar ao cemitério que ficava a 800 metros. O medo da morte falava mais forte.
Por volta das 4 horas do dia 22 de dezembro, uma curta trégua permitiu que alguns familiares dos combatentes sitiados penetrassem nas trincheiras. Por quase um mês, eles haviam ficado sem notícias de seus parentes e amigos.
Naquela oportunidade, as duas forças tentaram selar um armistício. Uma comissão de revolucionários propôs a rendição ao general Carlos Telles, comandante dos republicanos. A resposta fechou todas as portas: "Vocês é que devem depor as armas, porque estão fora da lei."
No 30 dia de luta, a ração dos republicanos estava em apenas um quarto do necessário para alimentar os 800 homens. Famintos e cansados, os pica-paus dormiam ao relento e comiam carne de cães, gatos e cavalos. Em busca de água ou comida, Telles formava piquetes que saíam a procuram mantimentos. Muitos soldados eram surpreendidos e acabavam não retornando.
Com a aproximação dos reforços solicitados pelas tropas castilhanistas, em 5 de janeiro de 1894 Joca Tavares resolveu promover o ataque final. Derrubando muros e perfurando paredes, os maragatos avançaram. Informados da ação, o general Carlos Telles antecipou a defesa, colocando abaixo paredes de dois prédios que ainda não haviam sido alcançados pelos rebeldes. As forças adversárias se encontraram no meio do caminho. O tiroteio foi intenso até que os legalistas dispararam os canhões e uma descarga de granadas contra a linha federalista.
Dois dias mais tarde, as tropas sitiadas deixaram de ouvir as armas maragatas. Por volta das 23 horas, um piquete saiu para sondar o terreno e voltou com a boa notícia: a cidade estava deserta. Na manhã seguinte, as tropas ansiosamente esperadas como reforço se aproximaram de Bagé. O sítio havia terminado antes da desistência dos sitiados.
O frágil forte construído pelos espanhóis
Barro, madeira e palha. Em novembro de 1773, os espanhóis pensavam que estes materiais segurariam o exército da Coroa Portuguesa durante uma possível retomada do território controlado por eles haviam 10 anos.
Sem perceber o erro de engenharia militar que estavam cometendo, o governador das Províncias do Rio do Prata, Juan José Vertiz y Salcedo, levantou o Forte de Santa Tecla, às margens do Rio negro, em Bagé.
A construção ficou à cargo do francês Le Coq. Com muralhas de barro calcado, construções internas de pau-a-pique e telhados de palha, a fortificação tinha o formato pentagonal. Em cada uma de suas extremidades, um baluarte fazia invocação a São Francisco, Santo Agostinho, São Miguel, São João Batista e São José. No lado sul, um fosso dificultava a escalada das tropas inimigas.
Foi o que salvou temporariamente a frágil fortaleza. A obra ficou pronta em 1776, às vésperas de um ataque que iniciou em 28 de fevereiro. Plantadas em uma coxilha, as muralhas de Santa tecla produziam despenhadeiros naturais que impossibilitavam a escalada de tropas inimigas. Sem possibilidade de invadir, as tropas dirigidas pelo sargento-mor Rafael Pinto Bandeira resolveram esperar.
Dpois de enfrentar um cerco que durou quase um mês, o comandante da fortaleza, Don Luiz Ramirez propôs a paz. o chefe das forças portuguesas aceitou a rendição. Prendeu os adversários e colocou fogo no forte.
Alegrete
(17/02/1834)
A Revolução Farroupilha viveu dias decisivos e deu seus suspiros finais em Alegrete. Durante cinco anos, a terra natal de Oswaldo Aranha foi a terceira e última capital da República Riograndense.Neste período, os insurretos redigiram e colocaram em prática a primeira constituição republicana do Brasil. A carta farrapa daria uma sobrevida ao movimento revoltoso que já estava mortalmente ferido pela ofensiva do exército legalista. A pressão das forças imperiais fez com que os revolucionários abandonassem Caçapava do Sul em rodas de carretas em meados de 1840. Desde março do mesmo ano, porém, a sede administrativa da nação gaúcha já havia sido instalada mais ao oeste, na vila de Alegrete.
O futuro município agarrou com as duas mãos a causa separatista iniciada em 20 de setembro de 1835 com a tomada de Porto Alegre. Nos dois primeiros anos da Revolução Farroupilha, a câmara de vereadores já havia deixado de arrecadar impostos emprotesto à voracidade fiscal da corte. Planejada para ser convocada a partir de 30 de maio de 1840 ainda em Caçapava, a assembléia constituinte republicana teve de esperar algum tempo para ser colocada em prática. Em setembro de 1842, os gaúchos elegiam os 36 donos das cadeiras e 12 suplentes que escreveriam a Constituição. Naquele mesmo mês, o Barão de Caxias era nomeado presidente da Província e comandante-em-chefe do Exército de Operações do Império.
Dezembro de 1842. Bento Gonçalves abriu os trabalhos legislativos, que terminariam em 9 de janeiro do ano seguintes, em uma sessão solene no prédio do Judiciário. No discurso, o ex-deputado revelou o tom que constaria no projeto da carta: "Se julgardes conveniente legislar sobre outros objetos, lembrai-vos de que a moral pública, a segurança individual e de propriedade exigem pronta reforma nas leis que provisoriamente adotamos, pouco adequadas às nossas atuais circunstâncias."
Nascimento marcado pelo fogo inimigo
O nascimento de Alegrete foi marcado a fogo pelos uruguaios. Nos séculos 18 e 19, os vilarejos surgiam ao redor das capelas que registravam óbitos, nascimentos e casamentos. Os exércitos da Província do Prata sabiam que destruindo um templo, atrasavam o desenvolvimento. Foi o que fizeram com Alegrete. Em 16 de setembro de 1816, o então Povoado dos Aparecidos, localizado na região do Inhanduí, recebeu a visita das tropas do general Artigas. A Capela de Nossa Senhora da Conceição Aparecida ficou em cinzas. Desesperados, os habitantes buscaram socorro no acampamento do exército imperial, estabelecido à margem esquerda do Rio Ibirapuitã. Com a ajuda das forças portuguesas comandadas pelo general Thomaz da Costa, os moradores ergueram uma nova capela. Não durou muito. Em 1828, uma nova invasão - comandada provavelmente pelo uruguaio José Rivera - fez com que o fogo colocasse abaixo novamente a igrejinha. Determinados, os moradores a reconstruíram. Em homenagem ao general, a capela passou a se chamar Nossa Senhora da Conceição Aparecida de Alegrete.
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"Cohen, qualquer artigo de jornal, revista, etc., que falar da história do município do Alegrete e não falar da origem do nome estará incompleto e sem sentido. O Comandante das tropas era o Marquês de Alegrete (Dom Luis Teles da Silva Caminha e Menezes) e foi ele quem fundou a Vila de Nossa Senhora Aparecida da Conceição do Alegrete, às margens do Ibirapuitã, e não o general Tomás.
Como dizemos nós os gaúchos "me desculpa o jeito". Espero que a correção tenha sido feita, por uma questão de justiça com o fundador da cidade, o Marquês de Alegrete. O Gen Tomás pouco ou nada tem a ver com a fundação do Alegrete. É obrigação nossa contribuir para resgatar a verdade histórica.
Permanecemos à tua disposição, através do meu e-mail e também na Av. João Pessoa, 567, através do Edson Otto, se eu não estiver por lá.
Luiz E. C. Giorgis - 1º Vice-Presidente do Instituto de História e Tradições do RGS
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